A
CAMINHO DO ORIENTE:
Preparação
e Quotidiano da Gente de Guerra nas Naus da Índia [1]
Eulália
PAULO
Paulo
GUINOTE
A bordo das naus da Carreira
da Índia, lado
a lado com os marinheiros que constituíam as suas tripulações, seguiam regularmente centenas
de soldados, a chamada "gente de guerra" por oposição à "gente de mar", com destino às
fortalezas e armadas do Índico. Das primeiras décadas do século XVI, quando os portugueses
afirmaram o seu poderio militar no Índico, até meados do século XVII, quando perderam a maioria
dos pontos estratégicos que detinham no Oriente, seguiram pela rota do Cabo milhares de homens cujo destino
era a guerra e a defesa dos interesses da Coroa. Com excepção dos mercenários estrangeiros,
a sua preparação era precária e raramente se podiam considerar homens de armas antes do seu
recrutamento, mais ou menos forçado.
Com base nos testemunhos
da época (de O
Soldado Prático
às Memórias
de um Soldado da Índia,
entre outras fontes disponíveis), iremos procurar saber um pouco mais sobre a preparação e
o quotidiano destes homens cuja missão era, após uma viagem de meses e a milhares de quilómetros
da sua terra natal, fazer a guerra em nome de Portugal.
A
CAMINHO DO ORIENTE:
Preparação
e Quotidiano da Gente de Guerra nas Naus da Índia
Eulália
PAULO
Paulo
GUINOTE
"... a guerra não se faz com invenções, senão com fortes corações..."
Diogo
do Couto
"He grande perigo fazer a guerra com gente nova e sem exercicio."
Padre
Fernão de Oliveira
Quando falamos na Carreira
da Índia falamos
na mais longa carreira transoceânica da Expansão Portuguesa, quer em termos de espaço percorrido,
quer de tempo dispendido. Embora fosse fundamentalmente uma carreira de carácter comercial, desde cedo esteve
associada a questões de natureza militar. A bordo das naus destinadas ao embarque das especiarias tornou-se
rapidamente vulgar que seguissem contingentes militares, da chamada "gente de guerra", por oposição
à marinhagem ou "gente de mar".
Nos primeiros anos do
século XVI, o embarque de soldados nas naus da Índia tinha como objectivo primordial a instalação
e consolidação dos interesses portugueses no Índico. A soldadesca partia para prover as armadas
que procuravam patrulhar o comércio das especiarias, para participar nas expedições bélicas
para conquista de pontos estratégicos em terra e para, posteriormente, guarnecer as fortalezas tomadas ou
edificadas. Só acessoriamente tinha como função defender as embarcações em trânsito
entre Lisboa e o Índico, numa época em que a navegação pela rota do Cabo era razoavelmente
segura e os efeitos do corso e pirataria ainda pouco relevantes.
Com a relativa estabilização
das posições portuguesas no Oriente, tornou-se menos premente a exigência de enviar com regularidade
numerosos contingentes militares, embora a necessidade de renovar e restabelecer os efectivos associada a conjunturas
político-militares mais dramáticas para o Estado
da Índia (como
os cercos de Diu, em 1538 e 1546) suscitassem naturalmente o envio pontual de armadas repletas de gente de guerra.
Durante o terceiro quartel
de Quinhentos, a Carreira
da Índia experimenta
uma estabilização no ritmo de partidas e assume uma natureza quase exclusivamente comercial; os confrontos
navais no Atlântico com potenciais agressores são mínimos e no Índico, apesar das dificuldades
que os portugueses começam a enfrentar, atinge-se um status
quo em que, apesar
das naturais solicitações dos governadores e Vice-Reis, as exigências em soldados são
menores do que no início do século.
É na sequência
da União Ibérica que este cenário se altera e a Carreira
da Índia sofre
os efeitos da entrada, forçada, de Portugal nos conflitos geoestratégicos que os Habsburgos enfrentavam
no contexto europeu. A partir do momento em que as Coroas de Portugal e Castela se concentram na pessoa de Filipe
II, as naus portuguesas vão enfrentar as consequências das rivalidades anglo-castelhanas. A pirataria
e o corso por parte de navios ingleses no Atlântico, em particular junto aos Açores e à costa
portuguesa, tornam-se comuns, assim como o ataque às naus de regresso da Índia. Instaura-se um clima
de conflito naval permanente que, na viragem para o século XVII, se estende ao Índico e que ganha
nos holandeses novos e activos protagonistas.
Nesta conjuntura, é
natural o recrudescimento das preocupações com o armamento dos navios portugueses e com o seu provimento
com pessoal militar, agora não apenas com destino às fortalezas de além-mar mas igualmente
com a função específica de defender os interesses portugueses nos mares antes dominados e
de proteger as riquezas orientais da cobiça alheia.
Nas primeiras décadas
do século XVII, com a entrada em força dos holandeses no Índico e a sua política agressiva
contra as posições portuguesas no Oriente, as solicitações em contingentes militares
redobram e volta a ser necessário preparar, com maior ou menor eficiência, armadas fortemente militarizadas.
Ao longo desta história
secular e das transformações que sofreram as armadas da Índia em termos de braços armados
a bordo, como evoluiu a origem, preparação e qualificação dos efectivos militares recrutados
? Qual o seu quotidiano a bordo em tempos de rotina e qual o seu desempenho em caso de conflito ? Que comentários
e opiniões surgiram sobre a situação existente ? São algumas pistas para responder
a estas questões que em seguida alinhamos, embora com as naturais limitações de tempo e espaço
que uma comunicação com esta enfrenta.
1.
Organização Militar e Naval do Reino
Comecemos a nossa análise
pelo enquadramento organizativo das forças militares e navais portuguesas no período dos descobrimentos
e expansão ultramarina.
No século XVI,
a organização militar do reino de Portugal encontrava-se num período de transição
entre as tradições medievais e feudais, em que as forças militares resultavam da conjugação
de um recrutamento de base municipal (os besteiros
do conto e os acontiados
das câmaras)
com as mesnadas senhoriais, e a tentativa de institucionalização de um novo modelo, em que a Coroa
procura manter um contingente militar permanente ao seu serviço militar.
Desde o período
da Reconquista até ao rescaldo da crise dinástica de 1383-85, a força militar do reino assentava
no recrutamento militar dos besteiros
do conto e outras
mílicias de base municipal e nas hostes pessoais dos grandes senhores da nobreza guerreira. O rei baseava
o seu papel de supremo comandante militar num vínculo de natureza pessoal e origem feudal, em que a fidelidade
era o elemento fundamental, em particular no que se refere às grandes casas senhoriais. Em causa estava
a defesa (ou alargamento) do território ou a preservação da independência nacional,
através da luta contra um inimigo comum - os muçulmanos, num primeiro momento, ou os castelhanos,
após o fim da Reconquista do Algarve em meados do século XIII. A preparação militar
destas forças estava a cargo das autoridades militares municipais (caso dos alcaides) ou dos próprios
nobres. Só em caso de ameça próxima e conflito iminente, o soberano surgia como líder
comum das forças dos seus vassalos, auxiliado directamente pelo seu alferes-mor.
No século XIV,
em especial por influência de novos usos e costumes trazidos pelas tropas britânicas que auxiliam Dom
Fernando e o Mestre de Avis contra as forças castelhanas, introduzem-se novos elementos na organização
militar e cadeia hierárquica de comando, com o aparecimento dos cargos de marechal e condestável,
assim como se remodelam as condições de acontiamento dos nobres e de arrolamento dos besteiros. Simultaneamente,
define-se uma periodicidade regular para a realização dos alardos ou revistas às tropas preparadas
para a guerra. Com a estabilização da situação militar na fronteira com Castela e o
início da expansão, acentuam-se as reformas na estrutura militar. No breve reinado de Dom Duarte
publicam-se as Instruções
do Anadel-mor e o
Regimento
dos Coudéis,
em que se clarificam funções e obrigações destes oficiais. Em particular no caso da
cavalaria, os coudéis vêm definidas as áreas de jurisdição em que devem verificar
o número e condições dos cavalos disponíveis para acções militares, assim
como os deveres de todos aqueles que estão obrigados a prestar serviço a cavalo. As Ordenações
Afonsinas, publicadas
na regência de Dom Pedro, continuam esta obra de sistematização e adaptação aos
novos tempos. Os cargos de anadel e anadel-mor, assim como de coudel ou coudel-mor tinham uma base territorial
e eram cargos permanentes, enquanto os de marechal, condestável, alferes ou adaíl funcionavam fundamentalmente
em situação efectiva de guerra. Entretanto, com Afonso V, os cargos de alferes-mor e marechal passam
a ter um valor essencialmente honorífico, perdendo uma função prática.
A vulgarização
das armas de fogo também induz a criação de novos cargos e corpos militares. No reinado de
Dom João II é criado o cargo de anadel-mor dos espingardeiros. Com Dom Manuel são os bombardeiros
a merecer atenção e a receber privilégios especiais. Aliás, é neste reinado,
que marca a viragem do século XV para o século XVI, que se constata o esforço da Coroa no
sentido de escapar a uma excessiva dependência relativamente às forças que fogem ao seu controle
directo.
No início do século
áureo da expansão portuguesa, Dom Manuel reduz bastante a mobilização dos besteiros,
embora se mantenha o recurso às mesnadas senhoriais. No entanto, o recrutamento de efectivos para as posições
portuguesas além-mar passa a ser feito com base no pagamento de um soldo e o vínculo entre o "soldado"
e o soberano perde o seu carácter feudal de fidelidade pessoal ao suserano para ganhar traços de
ligação profissional a prazo certo. O exercício da guerra passa a ser uma profissão
permanente, por maior ou menor espaço de tempo. Como afirma o Padre Fernando Oliveira em meados de Quinhentos
"é
novo este nome soldado, quer dizer homem que recebe soldo de rey, ou príncipe, ou seu capitão, por
servir em feito de armas"
(Oliveira, 1983 55). Em suma, a guerra profissionaliza-se, na medida dos possíveis e dentro dos limites
impostos pela época. Só com Dom Sebastião esta tendência sofre um certo retrocesso,
com o retorno à mobilização municipal, à divisão do reino de capitanias-mores
e a constituição de quatro terços de ordenanças em Lisboa.
Mas o século XVI,
mesmo em termos militares, é marcado pela dimensão marítima da expansão portuguesa,
pelo que a marinha se torna um elemento fulcral do poderio militar do reino. Já desde os inícios
da nacionalidade que se recolhem abundantes referências à actividade marítima; é o caso
dos forais das regiões do litoral, onde surgem menções aos proeiros, espadeleiros e petintais
das embarcações ocupadas principalmente no transporte de mercadorias e pesca. Mas datam apenas do
século XIV (talvez de tempos mais remotos) as primeiras medidas da Coroa para a organização
das forças navais portuguesas. O primeiro almirante conhecido da marinha portuguesa, apesar da fama do genovês
Manuel Pessanha que ocupa o cargo em 1317, parece ser Nuno Fernandes Cogominho. Os cargos superiores, mas subordinados
ao almirante, eram os de capitão, alcaide do mar, alcaide da galé, arrais, patrão da galé
ou mestre, uns com funções mais práticas de navegação, outros com atribuições
relacionadas com a escolha das tripulações e organização das viagens. Neste período,
para além de uma frota mercantil de dimensão desconhecida, a frota de guerra ao serviço de
Portugal seria constituída por oito navios, certamente galés. O recrutamento dos remeiros ou galeotes
era feito nos concelhos do litoral do país, um pouco à semelhança dos besteiros do conto.
Cada concelho tinha a obrigação de fornecer um determinado número de remeiros, que se deviam
apresentar com o necessário à sua subsistência durante o período em que estariam ao
serviço, o que rondaria os dois ou três meses. Ainda no século XIV surgem referências
às "vintenas do mar", método de recrutamento da "gente do mar" dos navios da Coroa que ficava a cargo
do anadel-mor que, por sua vez, delegava essa função nos chamados "vintaneiros". Estes vintaneiros
deviam constituir a(s) vintena(s) da sua área de jurisdição a partir dos homens com prática
de navegação das terras ribeirinhas ou do litoral oceânico. Cada vintena tinha vinte homens,
escolhidos na base de um em cada vinte dos homens com prática de navegação de determinada
localidade ou região.
No século XV, a
marinha portuguesa apresenta dois vectores de desenvolvimento. Por um lado temos os navios ao serviço da
Coroa, em que se mantém a organização anterior com maiores ou menores adaptações.
Por outro, temos a frota particular do Infante Dom Henrique, que se organiza de forma autónoma, com base
nos elementos da sua casa senhorial. Por outro lado, as embarcações mais utilizadas para a navegação
atlântica passam a ser aquelas que antes tinham um papel na pesca e comércio - os barinéis,
as barcas e, mais tarde, as caravelas - os chamados "navios de vela", em detrimento das galés e galeotas
propulsionadas principalmente por remos.
Quando o Infante morre
e a Coroa centraliza a condução das viagens de descobrimento, a organização da frota
portuguesa resulta já da combinação entre galés e navios de vela. No caso destes, em
especial da caravela, parecem datar do reinado de Dom João II as primeiras experiências para a utilização
de artilharia a bordo, recurso comum nas naus e galeões do século seguinte.
No século XVI,
a partir do reinado de Dom Manuel, a frota de guerra portuguesa dividia-se em três esquadras: a do Estreito
(de Gibraltar) patrulhava as costas do sul do país, em busca de corsários mouros; a da Costa patrulhava
o litoral desde o norte do país até ao litoral alentejano; finalmente, a das Ilhas, patrulhava a
zona dos Açores e esperava pelas armadas da Índia, para as comboiar até Lisboa. No entanto,
com a constituição do Estado
da Índia também
as armadas anuais que cumpriam a rota do Cabo acabavam por aliar uma componente militar à sua função
comercial, em especial quando partiam a caminho do Oriente embarcações destinadas a permanecer no
Índico para defender os interesses portugueses na zona, para patrulhar determinadas regiões, como
as costas da Arábia ou da própria Índia, ou para participar em expedições militares
contra fortalezas ou frotas inimigas.
É, aliás,
sobre estas armadas da Índia que nos deteremos com maior detalhe, já em seguida.
2.
Recrutamento e Preparação: Quantitativos, Treino e Armamento.
Ao longo dos séculos
XVI e XVII o recrutamento e preparação da "gente do mar" e da "gente de guerra", ou seja, dos capitães,
restantes oficiais,
marinheiros e soldados
embarcados a caminho do Oriente obedeceram sempre a critérios bem diferenciados, de acordo com a função
e importância relativa atribuídas a cada caso.
A situação
dos capitães era, por via de regra, um caso à parte dos restantes. Nas naus preparadas às
custas da Coroa, a nomeação dos respectivos capitães assentou quase sempre em critérios
estranhos às suas qualificações técnicas em questões de náutica. Esquecendo
as opiniões extremas dos que ou exageram os conhecimentos náuticos de alguns capitães ou os
diminuem excessivamente, parece consensual que a generalidade dos capitães da Carreira
da Índia teria
uma experiência de navegação algo reduzida, em especial atendendo à extensão
da viagem. É evidente que existem excepções, como Bartolomeu Dias, que acompanha e supervisiona
a preparação dos navios da armada destinada a cumprir a primeira ligação entre Lisboa
e a Índia.
No fundo, a função
do capitão era de comando. O capitão era um decisor que não necessitava de possuir profundos
conhecimentos de náutica, devendo ser, antes de mais, um líder com qualidades inatas de chefia, que
só uma boa linhagem podia atribuir. O capitão era como a cabeça de um corpo constituído
por todos os seus subordinados, desde os pilotos aos grumetes, cada um dos quais tinha um papel específico
no todo. E sobre todos eles o capitão devia saber exercer a autoridade com firmeza
e impôr respeito
e disciplina.
|
"Assim
que naturalmente é necessária cabeça, e essa uma só, porque se não acha que
natureza ordinariamente criasse corpo de muitas cabeças, nem a razão a consente. (...) A esta cabeça
e pessoa principal, que há-de reger a gente de armas chamam capitão, de capite palavra latina, que
quer dizer cabeça porque ele os há-de governar e mandar [e] a elle hão-de obedecer, e seguir
em tudo, como os membros à cabeça natural." (Oliveira,
1983, 49-50) |
Apenas para citar um exemplo
deste modelo ideal de capitão que, apesar de menores conhecimentos técnicos, sabia impôr a
sua decisão aos seus subordinados mais recalcitrantes, temos o caso de Dom Leonardo de Sousa, capitão-mor
da armada de 1555. Embarcado na nau Santa
Maria da Barca, o
padre jesuíta António de Quadros deixou-nos o seu testemunho sobre o conflito que opôs o capitão
ao seu obstinado piloto.
|
"Aquella
noute logo iamos dar em outros baixos que estão daquelles [baixos
de S. Romão]
treze legoas, os quais não estavao na carta do piloto. Quis Deus Nosso Senhor com a industria de hum marinheiro,
que os tinha na sua carta, e assi se soube que nos iamos a perder outra vez. Ajuntou o capitão a gente do
mar pera ver se era aquillo verdade; concluirão que, por si ou por não, se desviasem. E porque o
piloto não fazia muito caso dos baixos polos não ter na sua carta, mandou disviar a nao muito pouco.
Quando isto vi não me pude ter que não me fizesse marinheiro: fui-me ao capitão a lhe dar
rezão de quam mao caminho levavamos, e caio nisso, porque elle tambem estava descontente delle. Fes desviar
mais a nao e muito mais, e com tudo isso passamos huma só legoa delles, como o outro dia vimos, que estivemos
duas legoas delles, a maior parte do dia. O outro dia à noute nos iamos a varar em terra da ilha de São
Lourenço, porque, dispois que vimos os baixos, fomos por dentro ao longo da ilha; mas virão-na huns
homens que vigiavão, e ainda isso não quirião os que governavão desviar a nao, dizendo
que os marinheiros vião mal e que não era terra. Foi necessário ao capitão mandar de
seu poder absoluto desviar a nao muito ao mar, e assi fizerão, e ainda ao outro dia, pola manhã nos
achamos tres ou quatro legoas della, na qual distancia ao
longo da ilha [
havia ]
muitos baixos." (Wicki, 1948-88, III,
396-7) |
Esta preocupação
em escolher líderes naturais para as embarcações explica que as nomeações dos
capitães-mores e capitães para as armadas da Carreira
da Índia fossem
feitas quase exclusivamente no seio da nobreza, funcionando como título honorífico, mais do que como
cargo prático de comando da manobra do navio ou da armada. A partir de um esboço de listagem de todos
os capitães que comandaram embarcações da Carreira, por nomeação directa
da Coroa ou por sucessão, após morte do primeiro titular ou outro acidente, é evidente a constatação
deste método de selecção dos capitães (cf. Anexo 1). A generalidade é nomeada
apenas para uma viagem. Para perto de 1400 viagens da Carreira
da Índia realizadas
nos séculos XVI e XVII, é possível identificar perto de 900 capitães, o que dá
uma média a rondar a viagem e meia por cada. Ou seja, a esmagadora maioria dos capitães realizava
apenas uma ou duas viagens pela rotra do Cabo. Com três ou mais viagens, apenas encontramos cerca de meia
centena de capitães (valor relativo pouco acima dos 5% do total) e com quatro ou mais viagens são
menos de uma dezena.
Muitos são os fidalgos
que, seguindo para o Oriente providos com capitanias de fortalezas, acabam por ser capitães das naus em
que embarcam. Infelizmente, nem sempre a nobreza de sangue era condição suficiente para produzir
um líder capaz de exercer toda a autoridade que lhe era depositada nas mãos, sendo vulgares as críticas
quanto à incapacidade ou mera ganância de muitos deles - leiam-se a esse respeito muitas das páginas
de O
Soldado Prático,
das Memórias
de um Soldado da Índia,
para não falar das próprias queixas de quem tinha por missão avaliar os excessos cometidos
no carregamento das naus de tornaviagem da Índia.
|
"A
mor parte, ou quasi todos os capitães mores e capitães vendem a Camara de popa, varanda e tolda,
ficando huns com somente hum esguilhão em que dorme dentro ou [fora] na tolda, outros com a metade ou terço
de tudo, mas de qualquer maneira trazem a Camara abarrotada de Caixas e fardos de fazenda, e muytos trazem na varanda
cravo e canella.
A tolda onde
não ouvera de vir mays que os caixões pequenos de seus Criados ficando per Riba delles despejado
pera se agazalharem os soldados em tempo de chuva, trazem na tambem abarotada com cayxas de marca sobre huma outra,
e o mays vazio que fica de fardinhos de cravo de maneyra que apenas deixão lugar por onde entrão
na Camara, allem disto na curva que ha entre a tolda e o amantilho sendo lugar das troças, trazem vinte
pipas de agua, e acontece muytas vezes [...] como pelo tanto a cuberta que não se pode virar abaixo o Cabrestante.
Tambem vendem todos a Camara da segunda cuberta, e com as caixas de fazendas que ouverão de trazer nella
tomão a milhor parte do lugar deputado pera caixas de marinheiros, grumetes e passageiros, os quaes trazem
as suas no Conves por lhes não caberem debaixo da ponte, e por encobrir estas desordens depois de passado
o cabo de boa esperança, como se vão despejando os beliches, e abatendo as pipas dagua, metem nelles
estas fazendas que trazião em lugares defezos, particularmente as da Camara, e tolda(...)." (Biblioteca da Ajuda; ms 51-VI-54, fl 79) |
Situação
diferente era, de alguma maneira, a dos capitães de naus aparelhadas por particulares. Neste caso, não
eram questões de privilégio e honraria que decretavam a escolha, mas sim critérios mais objectivos
de experiência e qualificação técnica. João de Barros, a esse respeito, é
bem elucidativo:
|
"E,
porque as pessoas a que el-rei concedia esta mercê, tinham por condição de seus contratos,
que êles haviam de apresentar os capitães das naus ou navios, que armassem, os quáis el-rei
confirmava, muitas vezes apresentavam pessoas mais suficientes para o negócio da viagem e carga que haviam
de fazer, do que eram nobres por sangue." (Barros,
1945, I, 174) |
Não deixa de ser
algo sintomático que alguns dos capitães que mais viagens fazem entre Lisboa e o Oriente sejam mercadores
de origem plebeia. O campeão entre todos eles é Vicente Gil, filho do também mercador Duarte
Tristão, que realiza sete viagens entre 1521 e 1542. No caso dos particulares, que investiam capital próprio
e nem sempre estavam em condições de sofrer perdas que seriam irreparáveis, a selecção
do capitão do seu navio não era questão de honraria mas sim um assunto de negócios
e, como tal, não podia deixar-se ao acaso.
Mais exigente era a preparação
dos pilotos das naus da Coroa. Em boa verdade, era em torno deles que existiam os maiores cuidados, pela importância
da sua função e dos conhecimentos técnicos que deviam possuir. Um pouco como os cartógrafos,
os pilotos portugueses eram, durante grande parte do século XVI, bastante requisitados na Europa pela sua
qualidade, sendo aliciados com regularidade. Por isso, a Coroa se preocupava com a manutenção de
uma "escola" de pilotos, reservando o direito de admissão à profissão a quem preenchia os
quesitos necessários e envolvendo este grupo profissional em severas normas de secretismo.
No século XVI é
criada uma aula de cosmografia para ensinar aos candidatos a pilotos, assim como aos cartógrafos e fabricantes
de instrumentos náuticos, os conhecimentos astronómicos sobre as esferas terrestre e celeste necessários
para a navegação oceânica, a par da forma de utilizar correctamente cartas de marear, astrolábios,
quadrantes, balestilhas e agulhas de marear (bússolas). Quando Pedro Nunes é nomeado cosmógrafo-mor
do reino em meados de Quinhentos, as suas atribuições passavam por assegurar uma "aula de esfera",
e por examinar os candidatos a pilotos. As mesmas funções passariam para Tomás da Orta e João
Baptista Lavanha no final do século.
Os pilotos da Carreira
da Índia constituíam
um reduzido escol que, por isso mesmo, faziam quase toda a sua vida profissional a bordo das naus em trânsito
entre Lisboa e o Índico. Disso é exemplo o caso do célebre piloto Gaspar Ferreira Reimão.
Na consulta sobre os pilotos e outros oficiais que iam seguir para a Índia na armada de 1615 (Vasconcelos,
1942, 60), é visível o cuidado com a experiência prévia de navegação dos
nomeados: Simão Castanho, Domingos Soares, Martim Afonso e André Simões são aprovados,
por já terem bastantes anos de serviço e duas ou três viagens à Índia no seu
currículo, enquanto Sebastião Prestes é reprovado por ainda estarem por apurar as circunstâncias
da arribada de algumas naus em que ele seguia como piloto-mor. Situação semelhante se passa com os
sota-pilotos. Francisco Quaresma, Manuel Vicente
e João Álvares
Bretão apresentam três viagens realizadas e Bartolomeu Fernandes duas, pelo que podem seguir com aquele
cargo. A Lourenço Rodrigues, que só fez uma viagem, recomenda-se que siga apenas como estrinqueiro.
Relativamente aos outros
oficiais (mestres, contramestres, etc) a preparação também devia passar fundamentalmente pela
prática e não ser excessivamente teórica. Como colocou a questão Costa Quintela, no
século XVI era necessária a criação de "um corpo de oficiais da Marinha Real, instruídos nas Ciências Náuticas,
aplicadas logo à prática da Navegação e Táctica naval
[mas] sem
os mancebos, destinados a seguir aquela carreira, perderem anos a estudar em Aulas o que lhes há-de esquecer
no mar, onde se carece de poucas e sólidas teorias, e de muita experiência, que nunca é demasiada" (Quintela, 1975, II, 36-37).
Quanto aos carpinteiros,
calafates, tanoeiros, estrinqueiros, dispenseiros, físicos, etc, a sua formação era o exercício
da profissão em terra, aprendida com os seus mestres. Uns trabalhavam na Ribeira das Naus, outros podiam
encontrar-se instalados por conta própria. O seu recrutamento baseava-se no voluntariado mas, em anos de
escassez de mão-de-obra qualificada, não estava fora de hipótese o embarque forçado
dos oficiais indispensáveis.
Quanto aos marinheiros
e grumetes, apesar de constituirem os escalões mais baixos na hierarquia a bordo não deixavam de
ser essenciais para o bom sucesso das viagens, pelo que se recomendava rigor na selecção. Os futuros
marinheiros das naus da Coroa deviam ser homens previamente ligados às tarefas marítimas: "é
necessário que sejam habituados e criados neste exercício, não colhidos de novo de outros
ofícios para este, porque não basta que sejam hábeis, mas releva que sejam destros para fazer.
(...) O marinheiro quando o mestre dá o apito não há-de esperar para ver como faz seu parceiro
e fazer como ele, mas todos hão-de voar e fazer aquilo que já entendem ser necessário" (Oliveira, 1983, 47).
Na opinião do mesmo
autor "o
ofício dos marinheiros é de mais arte"
que o dos soldados, pelo que a selecção dos homens de guerra acabava por ser aquela que menos exigências
impunha aos eventuais candidatos. A preparação recebida, em terra, por todos aqueles que embarcavam
para o Oriente com uma função militar era, por vezes, pouco mais que mínima. Este facto resultava
tanto do sistema de recrutamento, como do estado embrionário das tácticas militares da época.
O recrutamento para os territórios do império ultramarino português baseava-se no alistamento,
tantas vezes voluntário como forçado, de todos aqueles que tivessem as condições etárias
e físicas mínimas para combater. Voltemos ao Padre Fernando Oliveira para corroborar esta situação,
pois o mesmo considera que, contrariamente aos marinheiros, os soldados não precisam de grande preparação
prévia para o seu mister.
|
"Os
soldados se não sabem das armas e guerra abasta que sejam para isso dispostos porque em breve aprende o
exercício delas, o qual não é mais que exercício sem mais outra meditação
artificial, quanto é da parte dos soldados, cujo ofício é fazer o que lhe mande o capitão
somente." (Oliveira, 1983, 47) |
No entanto, o mesmo autor
não deixa de reconhecer que nem tudo pode ser deixado ao acaso e apresenta as suas opiniões sobre
os principais parâmetros a considerar numa conveniente preparação dos contingentes militares.
Em seu entender, os soldados deviam ser escolhidos entre os mais capazes, sem regatear o seu pagamento, se possível
em família de tradição militar ou, em alternativa, em profissões mais adaptadas ao
manejo das armas (ferreiros, carpinteiros, almocreves, entre outros). Também as condições
físicas deviam ser as melhores, mesmo se quanto à idade se consideravam aptos todos os indivíduos
entre os 18 e os 60 anos.
|
"Muito
exame se devia fazer no escolher dos soldados, e usar fidelidade no assentar deles. (...) A primeira condição
que o capitão ou armador deve examinar na escolha dos soldados que assenta, é que sejam de boa geração
honrada de soldados e cavaleiros se os achar, isto por muitas razões. Sabido é que o filho do cavaleiro
ou soldado vê em casa de seu pai as armas com que pelejou e ouve-lhe contar das batalhas em que se achou
(...) O soldado conta a seu filho os perigos e trabalhos que passou e faz-lhe perder o medo e receio deles (...).
São mais aptos para as armas e guerra os homens das aldeias e campo que das cidades, porque são acostumados
ao trabalho e má vida, como na guerra em especial do mar é necessário sofrer. (...) Dos ofícios
os de mais exercício habilitam mais os corpos, como são ferreiros, carpinteiros, almocreves e outros,
que se não tiverem maus hábitos têm os membros hábeis para manejar as armas (...) De
dezoito anos de idade até sessenta é tempo para poder servir em armas, o mais é muito e o
menos é pouco. (...) Seja o soldado mancebo, tenha os olhos espertos, o pescoço direito, o peito
largo, eapadaudo, mãos e braços, pernas e pés espeditos e mais nervudos que carnosos nem polpudos,
barriga pequena, carne enxuta. Estes são sinais de força." (Idem,
53-59) |
Mas apesar destas recomendações,
a constante necessidade de efectivos impedia grandes preparações técnicas e, com o passar
do tempo, foi esgotando os recursos humanos mais aptos. O treino, em muitos casos, era feito à base da experiência
prática. Muitos dos que partiam para o Oriente tinham já servido a Coroa nas fortalezas portuguesas
do Magrebe e, em troca de um magro soldo e de maiores ou menores ilusões de possíveis riquezas, voltavam
a tentar a sua sorte. Diogo de Couto faz de si prórpio, com amargura, o retrato deste "soldado prático":
|
"Por
essa conta rogarei muito más Páscoas a meu pai, que na mocidade me trouxe ao Paço, servindo
a el-rei de tocha e prato e dormindo pelas caixas de seu guarda-roupa; e depois de homem me mandou à Índia,
como todos vêm a fazer, havendo que, com alguns anos de serviço, poderia vir a ter remédio
e ser bem despachado" (Couto, 1988,
28) |
No essencial, esperava-se
deles que fossem soldados obedientes às ordens de comando e lutassem com todas as suas forças, pela
sua sobrevivência, contra os inimigos de Portugal. Disciplina e coragem eram fundamentais. A técnica
de combate era rudimentar. Manejar destramente as armas brancas era, por certo, importante, mas a frequência
de escolas de esgrima era apanágio de poucos. No caso das armas de fogo, já eram necessários
alguns conhecimentos e talvez seja por isso que, em particular no caso específico da artilharia, se divulgue
com frequência o recurso a mercenários estrangeiros. Apesar de tudo, não se deixava de recomendar
que os capitães, ainda em terra, fizessem os seus homens de guerra exercitar as suas armas.
|
"Também
as manhas e exercício valem muito nas armas, pelo que é bem que o capitão tenha cuidado de
ordenar quando estão em terra, que haja barreira de besta, e de arcabuz, onde todos os dias tirem, e ele
os convide para isso, e faça ir lá os que não quiserem por sua vontade, e às vezes
dê alguma peça ao que melhor o fizer. Também faça haver exercício de esgrima,
e de saltar e correr, e os que não souberem nadar mande-os ensinar, que lhe é necessário,
para às vezes salvarem as vidas. (...) Aprendam os soldados do mar a dar fogo a uma româ, ou bomba
de fogo, ou panela de pólvora, e expedi-la de feição que não periguem eles nem façam
dano aos seus, mas que a empreguem nos inimigos, porque destas armas se usa também no mar. Ensaiem-se a
pelejar armados, porque não estranhem o peso e pejo das armas como são couraças, e quaisquer
outras defensivas, as quais lhe mandem vestir na batalha, para sua defesa e constância." (Oliveira, 1983, 61) |
Mas nem sempre era possível
respeitar estas condições ideais. A verdade é que, em muitas situações, pouco
distinguiria, na origem e preparação, muitos dos que embarcavam como soldados dos marinheiros que
constituíam a tripulação, propriamente dita. Quantas vezes não seriam contingências
menores, ou o mero acaso, a determinar a função atribuída a cada um. Por outro lado, as cobiças
individuais e a cupidez dos homens levavam em várias ocasiões a descurar a qualidade do provimento
das armadas em matéria de homens e meios, com o objectivo de arrecadar mais lucros, esquecendo que isso
podia ter consequências graves. O autor da Arte
de Furtar era explícito
ao afirmar que o dinheiro era a chave para se conseguir uma força militar capaz, mas o dinheiro disponível
nem sempre era canalizado da melhor forma.
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"Três coisas lhe são
muito necessárias para a vitória, e sem elas não trate da batalha, porque será vencido:
a primeira é dinheiro; a segunda dinheiro; a terceira mais dinheiro: com a primeira terá quanta gente
quiser de peleja; e tendo mais gente que o inimigo, vencerá mais facilmente. Com a segunda terá armas
de sobejo: e quem as tem melhores, assegura a vitória. Com a terceira terá mantimentos; e exército
bem provido (...) nunca é vencido." (Arte de Furtar, 1991, 180-181) |
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"Não
junta mas espalha, quem por poupar um tostão de soldo perde muitos cruzados." (Oliveira,
1983, 53) |
A partir de meados do
século XVI tornam-se recorrentes as queixas quanto à quantidade e qualidade dos soldados embarcados
com destino ao Oriente, precedendo um pouco as críticas quanto às qualificações da
marinharia e respectivos oficiais. Embora já tenhamos tratado este tema em ocasião anterior (Paulo
e Guinote, 1996), deixaremos aqui apenas mais alguns testemunhos breves das vozes que lamentavam a debilidade dos
meios humanos disponíveis em Portugal para prover as armadas da Índia e socorrer o Oriente português.
A idade inadequada, a debilidade física ou a inaptidão para as funções atribuídas
de muitos dos que eram recrutados acriticamente foram males que se vulgarizaram à medida que o século
XVI avançou.
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"...
no se embarque de oy adelante marinero, ni artillero, que no sea de profesion, ni soldado de paga, que no sea de
edad competente, pera poder tomar las armas..." (Gomes
Solis, 1955, 23) |
Na Índia a falta
de preparação das forças militares que chegavam tinha consequências negativas, tanto
na capacidade efectiva de defesa das posições portuguesas perante as ameaças existentes, como
no moral das próprias forças portuguesas.
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"Ouviu-se
até agora dizer - vai um capitão ou um mestre de campo muito aprovado e de grande experiência
este ano à Índia ? É provido por sargento maior um soldado muito prátrico em formar
esquadrões de toda a sorte ? Ordenou-se que os soldados, que até agora eram tumultuários e
pelejavam como animais brutos sem conhecimento de alguma ordem de guerra, se reformassem, reduzindo-os a uma bem
ordenada e severa disciplina, com que cobrassem a força e o vigor perdido em tantas rotas quantas os inimigos
lhes têm dado por causa de suas desordens ?
(...) Em nada
disso se ouviu até agora falar por certo: nem de outras coisas desta qualidade, pelo meio das quais se puderão
acrescentar forças e possibilidades áquele estado [da
Índia] para
se defender de todos seus inimigos. " (Silveira,
1987, 194) |
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"(...)
já as armadas se fazem por cumprimento, sem tempo e sem ordem; os soldados andam clamando; as casas que
em Goa havia de esgrima tornaram-se escolas de dança e ensinar moças (...) e assim não há
bombardeiro em toda a Índia que acerte à serra dês outra, sem lhe atirar do pé dela
(...)." (Couto, 1988, 66) |
Se é certo que,
perante a extensão dos territórios a defender e a escassez dos recursos demográficos portugueses,
dificilmente seria possível manter um fluxo constante e numeroso de tropas bem equipadas e preparadas, também
não se pode negar que o aparente peso das circunstâncias desfavoráveis justificava uma atitude
generalizada de desresponsabilização pela situação e de defesa de interesses meramente
individuais, em detrimento do interesse comum.
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"Gente
bisonha, e mal disciplinada ocasionarão com ignorâncias intoleráveis perdas; e o que se deve
saber, e advertir, nunca tem boa escusa: mas não há morte sem achaque, todos sabem dar saídas
a seus erros, fazendo homicida a fortuna, que está inocente no delito." (Arte de Furtar, 1991, 228) |
Aliado à questão
da qualificação dos efectivos embarcados, estava o problema da quantidade. Os elementos sobre a evolução
da gente de guerra embarcada a caminho da Índia são, em certa medida, indirectos, pois dependem dos
testemunhos nem sempre concordantes dos cronistas. Em 1500 partem entre 1200 e 1500 homens na armada de Pedro Álvares
Cabral; em 1509 Dom Fernando Coutinho leva consigo cerca de 3000 entre matalotagem e gente de guerra; em 1518 seguem
entre 1500 e 1600 soldados na armada capitaneada por Diogo Lopes Sequeira. Estes são apenas indicadores
sobre a mobilização levada a efeito no início da centúria de Quinhentos, de que fizemos
uma tenativa de projecção recentemente (Paulo e Guinote, 1996).
Existem porém,
algumas informações mais objectivas e rigorosas sobre a gente de guerra embarcada para o Oriente,
para alguns casos particulares de finais do século XVI e início do século XVII quando a supremacia
portuguesa na rota do Cabo é fortemente abalada, que apontam para valores que rondam as duas ou três
centenas de soldados por embarcação. Severim de Faria, nas suas Notícias
de Portugal, não
hesita em afirmar que em meados do século XVI as naus de grandes dimensões, então em voga,
chegavam a embarcar 700 e 800 indivíduos; atendendo aos números disponíveis para as tripulações,
é fácil atingir o valor de 500 homens de guerra.
Nas últimas décadas
do século XVI, existe de forma regular, incluído na própria tripulação, um corpo
de bombardeiros chefiado por um condestável com cerca de 12 a 15 indivíduos. Luís Figueiredo
Falcão
atribui aos bombardeiros,
que ele apresenta em número de 11, um pagamento mensal médio de 1$000, semelhante ao dos marinheiros,
enquanto o condestável recebe 2$400. Num documento de finais do século XVI, cujos dados foram publicados
por Quirino da Fonseca e Teodoro de Matos, o número de bombardeiros da nau S.
Filipe em 1593 elevava-se
a 14 e o pagamento mensal a cerca de 1$300, enquanto o condestável recebia cerca de 1$935 mensais, tal como
os marinheiros. De acordo com outras fontes utilizadas por Contente Domingues e Inácio Guerreiro, em outra
viagem, a mesma nau, fortemente armada, levava a bordo 49 bombardeiros pagos a 1$400, valor superior ao soldo dos marinheiros. Finalmente,
outro documento analisado por Costa Quintela que o data de cerca de 1635, refere que existiriam inicialmente oito
artilheiros a bordo das naus (numa tripulação com o total de 120 indivíduos), a que mais tarde
se acrescentaram outros dezoito (quando a tripulação aumentou para 140). Os vencimentos que se adiantam,
reportados provavelmente ainda ao século XVI, ficam-se pelos 1$600 mensais para o condestável e 1$000
para marinheiros e artilheiros. Tudo isto sem contar as liberdades adicionais a que todos tinham direito em termos
de caixas livres de impostos.
Quanto ao armamento individual
da gente de guerra a bordo, podemos apreciar com algum detalhe os dados de determinadas viagens (cf. Anexos 3 e
4 ). Para não nos alongarmos, analisemos o caso da armada de 1605, em que seguiam 1230 homens de guerra.
Nos quatro galeões e uma nau foram embarcados 680 mosquetes e 540 arcabuzes (o que dá uma arma de
fogo por soldado), para além de 320 piques e 260 meios-piques (que dão uma proporção
equivalente para os 575 indivíduos que seguiam como gente de mar). Pelo menos em teoria todos os indivíduos
estariam armados, em caso de conflito. De que forma será possível extrapolar esta conclusão,
que outros casos singulares confirmam, para a globalidade das naus da Índia é algo que não
podemos assegurar. Até que ponto as exigência oficiais quanto ao eficaz apetrechamento dos soldados
eram respeitadas pelos armadores e capitães, também é difícil saber com um razoável
grau de certeza.
3.
A Vida a Bordo na Paz e na Guerra
Mas o que acontecia a
todos estes homens durante a longa viagem que os esperava, cinco a seis meses em pleno mar, numa viagem quase sem
escalas ? Se os marinheiros e grumetes tinham funções específicas a assegurar na manobra do
navio, o que se passava com os soldados, que não tinham responsabilidades a esse nível e dificilmente
se podiam exercitar a bordo na arte da guerra ?
3.1
- As rotinas em tempo de paz
Todos aqueles que embarcavam
nos navios a caminho do Oriente tinham, ao longo da viagem, de respeitar uma série de regras e procedimentos
indispensáveis ao bom funcionamento da embarcação. Assim sendo, estabeleciam-se, desde o início,
rotinas a bordo, só quebradas quando algum acontecimento excepcional (como uma tempestade ou um ataque inimigo)
surgia.
Os marinheiros tinham
destinados períodos de trabalho de 4 horas (os quartos), findos os quais eram substituídos
por colegas. As tarefas a desempenhar prendiam-se com todas as manobras directamente ligadas à navegação;
içar e recolher velas, reparar pequenas deficiências no navio ou vigiar o horizonte para evitar ataques
de surpresa ou acidentes provocados por baixios
ou rochedos. Existiam também tarefas mais
específicas como as que relacionavam com o leme, com o cozinhar dos alimentos para os membros hierarquicamente
superiores ou com a vigilância de todos os pontos onde existia algum lume aceso, para evitar qualquer incêndio. Para além dos marinheiros, também
os elementos da tripulação com cargos de chefia - capitães, mestres, pilotos e escrivães
- estavam obrigados a determinadas rotinas, como a determinação da latitude, a supervisão
do rumo traçado pela embarcação ou o controlo dos mantimentos e da sua distribuição.
Desta forma, as tripulações
dos navios acabavam por estar longos períodos ocupados com tarefas ligadas à manutenção
da embarcação e à navegação. Mas, quanto aos soldados embarcados, que não
tinham funções atribuídas nas rotinas quotidianas da navegação, a situação
era diversa, pois existia muito tempo para ocupar. Os períodos de lazer dependiam da forma como a viagem
decorria. Quando o mar aceitava sem reservas a travessia dos aventureiros, o tempo livre aumentava. Tornava-se,
neste caso, necessário desenvolver um conjunto de actividades que, no espaço limitado das embarcações,
ajudasse a passar o tempo e tornasse menos entediante o quotidiano em pleno mar alto. As leituras eram frequentes
no interior dos navios. Mesmo os analfabetos podiam aproveitar as sessões de leitura em voz alta, muitas
vezes feitas por membros do clero, de obras de carácter religioso e moralista.
Os jogos também
ocupavam papel importante, quer fossem de cartas, de dados ou de xadrez. Existia normalmente a proibição
de jogar a dinheiro, para evitar as discussões e a ruína dos mais desafortunados. No entanto, eram
frequentes os jogos de azar, sendo o seu controlo
muito difícil de
fazer.
As cerimónias religiosas
e outras manifestações de religiosidade permitiam ocupar muitos dos tempos mortos: missas, procissões,
canto e música contavam-se entre as manifestações de carácter religioso mais habituais.
Um provérbio português da época das Descobertas afirmava: "Se queres aprender a orar, entra no mar." De facto, a imensidão do oceano
e os medos e os riscos que as travessias marítimas sempre representavam, conduziam a uma maior vivência
religiosa e, por vezes, a extremas manifestações de religiosidade. Por outro lado, a presença
de membros do clero nos navios, quer como capelões da embarcação, quer como missionários
em trânsito para as diferentes zonas do império português, assegurava a assistência espiritual
ao longo da viagem.
Entre as várias
cerimónias realizadas a bordo, destacavam-se as missas, celebradas aos domingos e dias santos, embora pudessem
também ser diárias, quando dos passageiros faziam parte bispos ou gente de elevada condição
social (como vice-reis da Índia). Era também frequente a celebração litúrgica
após as tempestades ou os ataques de piratas. Durante muito tempo, a oblação, a consagração
e a comunhão não constavam das celebrações religiosas em alto mar. Esta situação
só será alterada a partir do início do século XVII.
Para além das missas,
existiam momentos diários de pregação, no qual os sacerdotes procuravam evitar a degradação
de costumes. As orações, individuais ou em grupo, eram igualmente frequentes e repetiam-se por várias
vezes ao longo do dia. As procissões, levadas a cabo quer em dias particularmente festivos do calendário
litúrgico, quer após se ter ultrapassado situações de perigo eram dos momentos mais
dramáticos e emotivos do quotidiano de todos os embarcados. Finalmente, saliente-se o importante papel das
confissões, obrigatórias para todos. No regimento da nau S.
Pantaleão,
que partiu para a Índia em 1592, todos os viajantes eram alertados para a necessidade de se confessarem,
sob pena de não receberem a ração alimentar. E era habitual que qualquer pessoa que adoecesse,
só fosse tratada após ter feito a sua confissão.
O teatro foi igualmente
uma actividade usual nos navios portugueses. Permitia congregar uma parte significativa de tripulantes e passageiros,
quer na representação, quer na preparação de cenários e nas actividades de ensaio.
As peças representadas eram organizadas pelos membros do clero, versando temas religiosos. Normalmente,
as representações coincidiam com momentos importantes do calendário cristão (como a
Quaresma ou o Natal).
As
touradas contavam-se entre as actividades mais animadas nos navios. À falta de touros, substituíam-se
os animais por canastras, ou aproveitava-se a pesca de tubarões ou tintureiras, que eram lançados
no convés, após terem sido cegas, e serviam de divertimento enquanto esperneavam.
Finalmente, entre as potenciais
distrações, destaque-se o papel dos leilões, quer de bens de defuntos, quer de alimentos (quando
estes começavam a escassear), quer ainda de peixe. Era habitual que, quando se fazia uma pescaria, o primeiro
peixe a ser apanhado fosse leiloado a favor de uma confraria ou obra pia.
3.2
- O desempenho em tempos de guerra
Contrariamente ao que
muitos testemunhos podem fazer supôr, o desempenho militar dos soldados portugueses embarcados nas naus da
Índia está longe de ser passível de uma sumária classificação negativa.
Durante quase todo o século XVI, pelo menos quanto à rota do Cabo, os níveis de segurança
da longa travessia efectuada mantiveram-se bastante aceitáveis, se não mesmo francamente bons. Até
à União Ibérica, o número de perdas causadas por ataques inimigos é extremamente
baixo (cf. Anexo 2); este facto ficava-se a dever tanto ao efeito de dissuassão causado pela dimensão
e equipamento dos navios portugueses, como à sua eficácia defensiva em caso de agressão inimiga.
Mas, nas últimas décadas do século XVI os ataques dos corsários ingleses tornaram-se muito frequentes no Atlântico, em especial na zona dos Açores. No início do século XVII foi a vez dos holandeses surgirem no Índico e atacarem as naus portuguesas. Neste contexto, as perdas por acção inimiga multiplicaram-se. Afundamento ou apresamento pelos agressores, naufrágio ao fugir dos ataques ou incêndio voluntário para que