Um fait divers, datado de Outubro de 1649, no seguimento da ordem para se enviarem dois navios
da Armada portuguesa para escoltar os navios mercantes que transportariam de Angra para Lisboa as mercadorias desembarcadas
pelo galeão da Índia Santo André.
"Na forma desta Rezolucao de Sua Magestade forão fretadas duas Naos Jnglezas nas quais ordenou o dito
senhor fosse repartidamente a fazenda em tal modo que nellas, e no galião se conduzisse ao Reino vierão
outrosi as duas fragatas da Armada, e chegarão estas coatro embarcacões a Ilha quazi nos fins de
Novembro onde no segundo ou terseiro dia topou hua das fragatas a mais pequena com hu pirata que andava a corso
entre estas Ilhas, este no tanto que reconheceo ser navio Real tratou de se por ao largo, foi a fraganta (sic)
sobre elle, e como lhe não pode dar alcance uzou de alguas accões de que o Cursario se deu por muj
sentido, em rezão do que pertendeo aventurar se a satisfacão do seu agravo ouzada e atrevidamente,
pera o que lancou a arttilharia toda a hua banda, e assim com este ardil fiado em sua ligeireza vejo entrando a
fragata.
Foi o Capitam della tão farfante que o podendo varejar com a sua arttilharia a tempo que o viu quazi entrado
em termos de o fazer pedacos, o quiz poupar com a jactancia de que o queria colher as maons, tendo pera si que
o dezinio do pirata era atracar se com a fragata, e nesta fee fantastica não fez operacão algua.
The que posto o pirata quasi a queima roupa livre da artilharia da fragata por lhe ficar superior deu fogo a sua
banda com tal emprego que imidiatamente se sentio a fragata quazi raza d agoa sem lhe aproveitarem as bombas; e
chegados todos a este ultimo conflito já sem nenhu remedio só lhe restou jr a pique ficando por sima
das agoas aquelles que o pirata por piedade quiz salvar, e vierão a morrer neste lastimozo naufragio assim
bruta e tollamente noventa e tantas pessoas"
in MALDONADO,
Manuel (1990) Fenix Angrence.
Transcrição e notas de Helder Fernando Parreira de Sousa Lima. 2º Volume. Angra do Heroísmo:
Instituto Histórico da Ilha Terceira, pp. 324-325