As primeiras armas de fogo 

Paulo Monteiro

 

A introdução da pólvora na Europa na primeira metade do século XIII rapidamente se fez acompanhar da sua utilização para fins bélicos. Dispositivos que utilizavam as propriedades propelentes e explosivas do novo composto são mencionados pela primeira vez num manuscrito datado de 1326, em que se descreve um canhão em forma de vaso capaz de disparar um projéctil de ferro em forma de seta.

Os canhões foram usados em primeiro lugar pelos Ingleses nas batalhas de Crecy (1346), de Poitiers (1356) e de Agincourt (1415). A sua evolução deu origem a armas cada vez mais pequenas, capazes de serem transportadas e utilizadas por um só homem. Assumindo de início a forma de um tubo de ferro ou de bronze, com 20 ou 40 cm de comprimento, preso a um suporte de madeira, a detonação da carga explosiva no seu interior dava-se pela inflamação da pólvora contida num câmara através do contacto de um ferro em brasa através do ouvido da arma.

Os Alemães foram os primeiros a desenvolver um mecanismo mais sofisticado de ignição quando, no século XIV, inventaram os primeiros meios mecânicos de disparo através do uso de uma mecha presa num fecho giratório. Este dispositivo de roda de mecha e accionado pela aplicação de pressão num mecanismo de disparo foi descrito pela primeira vez num manuscrito 1411.

As armas de roda de mecha

Enquanto que no final do século XV as armas de roda de mecha eram apenas um complemento aos besteiros, em 1550 a sua importância estratégica tinha suplantado o uso da besta como arma principal de guerra, quer nos campos de batalha europeus quer nos do Novo Mundo. A sua dominância manteve-se predominante até 1620 até que, no último quartel do século XVI, o uso da roda de mecha quase que desapareceu completamente.

A terminologia utilizada para a descrição de armas de fogo de roda de mecha é algo confusa, usando-se pelo menos três tipos de definições: arcabuzes, carabinas e mosquetes.

O arcabuz era a arma de fogo mais utilizada em meados do século XVI. Durante esse período, os termos mosquete e carabina referiam-se a pequenas armas de fogo, dotadas de fecho de roda, portáteis o suficiente para não requererem o uso de um descanso de apoio para o cano. Já no século XVII, o termo arcabuz usava-se para definir uma arma dotada de fecho de roda mecânica, sem mecha, enquanto que o termo mosquete era atribuído a uma arma que requeria o uso de um descanso para suportar seu peso, que poderia atingir os 10 quilos. Acredita-se que o Duque de Alba introduziu o mosquete de mecha em Espanha em meados do século XVI.

No século XVII, o mosquete inglês do mecha pesava 8 quilos e tinha um calibre 10 - o calibre correspondia ao diâmetro do cano da arma, sendo este determinado pelo número de projécteis que, em meio quilo dos mesmos, preenchiam totalmente o cano.

Todos as armas de mecha eram baseadas no mesmo princípio de disparo: uma mecha ou cabo de canhâmo frouxamente trançado e embebido numa solução do salitre queimava a um ritmo de oito a dez polegadas à hora. A mecha, segura por uma serpentina, através de um fecho de metal ou pelo braço, ligava-se à barra do gatilho de modo a que uma pressão ascendente na barra do gatilho comprimia a serpentina que disparava a mecha acesa para junto da pólvora que estava na caçoleta da arma, originando-se assim o processo de ignição. Depois do disparo, uma mola unida à placa de fecho forçava a serpentina a voltar à sua posição longe da caçoleta.

Para maior segurança, a caçoleta era coberta por uma placa articulada que era puxada para trás pelo atirador imediatamente antes de dar fogo. O procedimento do carregamento era lento. A taxa do fogo era de dois tiros por um minuto, e requeria-se muita atenção com a colocação da mecha já que a uma chama acesa perto da pólvora de disparo era sempre um perigo constante

Armas de fecho mecânico de roda

As armas de fecho de roda foram desenvolvidas por volta de 1520, mas a complexidade e custo inerentes ao seu fabrico impediram-nas de ser utilizados com frequência. O fecho de roda era, no entanto, um sistema de ignição superior ao de mecha. Uma roda de aço áspera e afiada era enrolada com uma chave de corda, sendo depois libertada por uma pressão no gatilho. O disparo acontecia porque as bordas da roda golpeavam um fragmento de pirite que estava preso a um outro braço chamado cabeça do cão. A pirite, que formava a cabeça do cão, era colocada no alto da tampa da caçoleta. Esta abria-se automaticamente com o puxar do gatilho. A perda da chave tornava a arma inútil.

Armas de pederneira

A arma de pederneira foi desenvolvida na França do início do século XVII. O seu sistema de ignição provou ser de maior de confiança do que o de fechos de mecha ou de roda. Além disso, o seu sistema de disparo era menos complicado, mais seguro, e muito mais barato de produzir e manter. O seu princípio de funcionamento era o mesmo que se usava para se acender um fogo, através do choque de um pedaço de sílex com um bloco de aço.

Para saber mais:

BROWN, R. (1997) Arms and Armour from Wrecks: an introduction. In REDKNAP, M., ed. Artefacts from Wrecks: Dated Assemblages from the Late Middle Ages to the Industrial Revolution. Oxford: Oxbow Books, Oxbow Monograph 84.
DESROCHES, J. & GODDIO, F. (1995) El San Diego: un tesoro bajo el mar. Madrid: Compañia Española de Petróleos. pp. 204-206.
GUILMARTIN, J. (1988) Early Modern Naval Ordnance and European penetration of the Caribbean: the operational dimension. The International Journal of Nautical Archaeology and Underwater Exploration (1988) 17.1:35-53.
LEWIS. M. (1961) Armada Guns: A Comparative Study of English and Spanish Armaments. London: George Allen & Unwin Ltd.
McBRIDE, P. (1975) A mid-17th century merchant ship found near Mullion Cove. 3rd interim report on the Santo Christo de Castello, 1667. The International Journal of Nautical Archaeology and Exploration. London. 4.2:237-252
RULE, M. (1984) The Mary Rose: the Excavation and Raising of Henry VIII Flagship. London: Conway Maritime Press.
SMITH, R., SPIREK, J., BRATTEN, J. & SCOTT-IRETON, D. (1996) The Emanuel Point Ship Archaeological Investigations 1992 - 1995. Florida Department of State, Division of Historical Resources, Bureau of Archaeological Research.

 

 

Citation Information:

Paulo Monteiro,
2003, The Nautical archaeology of the Azores:
As primeiras armas de fogo, World Wide Web, URL, http://nautarch.tamu.edu/shiplab/, Nautical Archaeology Program, Texas A&M University.