O astrolábio - etimologicamente astron
labein, tomar um astro - planisférico é uma invenção
grega. Datada incertamente do século IX, derivou de uma aplicação da geometria euclidiana
aos problemas práticos com que se deparavam os astrónomos da Antiguidade Clássica. Através
dos centros helénicos dispersos por todo o Médio Oriente, entre os quais se destaca Alexandria, o
conhecimento do astrolábio planisférico foi transmitido aos árabes que o aperfeiçoaram
e o aplicaram com destreza ao estudo do movimento e da posição dos astros. A primeira descrição
que existe de um instrumento deste tipo é feita por Plotomeu, no século II.
A partir do ano 800, o astrolábio foi levado pelos construtores gregos de Harran, uma cidade comercial junto
ao Eufrates, para a cidade de Damas. Dali, foi levado para Bagdad e depois para o Irão. Em meados do século
X, os sultões omeíadas de Córdova, em Espanha, estabeleceram laços científicos
com os sultões buíadas iranianos de Shiraz - foi assim que o conhecimento do astrolábio planisférico
surgiu na Península Ibérica.
No final do século X, e a partir de Barcelona, os monges beneditinos - entre os quais se contava Gerbert
d'Aurillac, sábio matemático da escola de Córdova e futuro papa Silvestre II - transportaram
o conhecimento do astrolábio planisférico para Reims, Chartres, Liége e Reichenau. A partir
do século XIII, o interesse demonstrado pelo imperador Frederico II e pelo rei Afonso X de Castela, fez
com que o astrolábio fosse desenvolvido em Toledo e na Sicília e que o seu uso se propagasse - através
dos conhecimentos de sábios judeus de Montpellier, Marselha e Toulouse - por todo o mundo latino.
Tanto o aspecto como a função do astrolábio planisférico - utilizado para a determinação
a identificação de estrelas, para a medição da sua altura bem como para o cálculo
das horas de nascente e poente dos astros ou da determinação das horas das orações
- se mantiveram essencialmente inalterados ao longo de 600 anos.
O astrolábio planisférico era constituído por uma peça circular principal, a madre, onde se inseriam
os tímpanos
- pequenas peças discoidais que continham, sob a forma de inscrições, projecções
espaçadas de um determinado número de círculos azimutais e de círculos de altura que
determinavam a altitude do horizonte de um determinado local.
Sobre o conjunto formado pela madre e pelos tímpanos vinha encaixar-se uma peça, a aranha, que projectava
o horizonte celeste, tal como ele se apresentava ao girar em torno do pólo Norte - este conjunto constituía,
neste caso, o centro do astrolábio.
A aranha tinha inscritas as posições de cada uma das principais estrelas fixas o que permitia ler,
sobre o tímpano, a altura e a direcção da estrela. Sobre a parte detrás da madre encontrava-se
um calendário solar, dividido em 365 dias, e um círculo concêntrico dividido de acordo com
os doze signos zodiacais e graduado em 360º.
Também na parte detrás do astrolábio se encontrava uma agulha móvel, a alidade, que servia essencialmente
para a leitura da altura dos astros através da observação do limbo, que se encontrava dividido
em graus.
O astrolábio náutico
Quando os navegadores portugueses se começaram a afastar da costa, nos finais do século XIV, e deixaram
de poder ler pontos de referência na topografia costeira, sentiram necessidade de recorrer a métodos
astronómicos para a determinação da sua latitude.
Em primeiro lugar, simplificaram de tal modo o astrolábio planisférico que o instrumento então
criado adoptou o nome de quadrante náutico. Como o próprio nome indica, esta ajuda à navegação
é constituída por um quarto de circulo em madeira contendo em cada uma das suas arestas, duas pínulas.
Cada uma delas tem um orifício, que permite visar o astro que está a ser observado e um fio de prumo
que indica, numa escala que vai de 0º a 90º, a distância zenital desse mesmo astro - a mais antiga
representação de um quadrante náutico foi executada, em 1525, pelo cartógrafo português
Diogo Ribeiro, que trabalhou para o rei de Espanha. A mais antiga referência documental, a este intrumento
foi feita pelo navegador Diogo Gomes e data de 1460.
O quadrante, usado até ao século XVIII, foi considerado obsoleto a partir da introdução
de um novo tipo de instrumento de navegação, o astrolábio náutico, que do astrolábio
planisférico apenas retinha a capacidade de medir ângulos no plano vertical.
Ao contrário do astrolábio planisférico, muito delicado, o astrolábio náutico
era muito robusto e pesava vários quilos, de modo a que a sua verticalidade se mantivesse durante as observações,
independentemente do balançar do navio.
Para além de serem feitos de bronze - material bastante resistente à corrosão marinha - os
astrolábios náuticos possuíam aberturas na sua superfície, para que fossem afectados
o menos possível pelo vento - a primeira referência documental que existe, relativa ao uso de um astrolábio
a bordo de um navio é feita por Diogo de Azambuja, em 1481.
A qualidade de fabrico e de regulação dos astrolábios náuticos era atestada pelo Cosmógrafo-Mor,
cuja missão era a de examinar os fabricantes de astrolábios e de lhes passar cartas de mestria. Com
o astrolábio, os pilotos passaram a poder comparar as alturas da Estrela Polar, iniciando-se as medições
pelo ponto de partida e passando por vários pontos ao longo da viagem. Ultrapassado o Equador, em 1471,
a ausência da Estrela Polar levou os pilotos portugueses a elaborar, em 1484, uma tabela de declinações
solares, o que lhes permitiu saber não só a latitude, mas também a única hora do dia
de que poderiam ter a certeza: o meio-dia.
"Pesar o Sol", como era costume dizer-se, não era tarefa fácil. Com efeito, era necessário
esperar até que o Sol atingisse o meridiano - não sendo, contudo, preciso que se observasse a linha
do horizonte, ao contrário do que acontecia num astrolábio planisférico.
O piloto segurava o astrolábio náutico por uma argola superior, à altura da cintura, e ajustava
a medeclina de modo a que um raio de sol entrasse por uma diminuta abertura na sua parte superior e se projectasse
numa outra abertura, na sua parte inferior. A leitura fazia-se então, no semicírculo graduado que
existia na parte superior do astrolábio, obtendo-se depois, após algumas conversões, a latitude
do lugar.
Em 1664, Hooke transformou o astrolábio, adicionando-lhe um jogo de espelhos capaz de permitir a mirada
simultânea do Sol e da linha do horizonte. Cinco anos mais tarde, Newton reduziu-lhe o semicírculo
graduado para um oitavo de círculo. Em 1742, Hadley transformou ainda mais o astrolábio. Finalmente,
em 1757, o octante passou a sextante.
Todos os astrolábios oficialmente declarados e reconhecidamente autênticos são catalogados
e inventariados pelo Departamento de Navegação e Astronomia do National Maritime Museum de Greenwich,
na Inglaterra. Os últimos três a serem descobertos, números 78, 79 e 80, foram-no em São
Julião da Barra, na escavação promovida pelo Centro Nacional de Arqueologia Náutica
e Subaquática do Instituto Português de Arqueologia, no que se julgam ser os restos da nau da Carreira
das Índias Nossa Senhora dos Mártires, afundada em 1605.
Para saber mais:
DESTOMBES, M. 1963,
"Deux astrolabes marocains du musée de la marine", in Neptunia, 4º trimestre, nº72, Association des Amis du Musée de la Marine,
Paris
MICHEL, H. 1947,
"L'astrolabe de mer", in Neptunia, 1º trimestre, nº5, Association des Amis du Musée de la Marine, Paris
REIS, A. 1988,
"Instrumentos Náuticos", in Actas do Seminário
Ciência Náutica e Técnicas de Navegação nos Séculos XV e XVI, Instituto Cultural de Macau, Centro de Estudos Marítimos de Macau, Macau
REIS, A. 1997,
Medir Estrelas,
Edição dos Correios de Portugal, Lisboa