O uso de contentores especializados para o transporte de víveres e outros
materiais a granel teve o seu grande incremento com a civilização romana que produziu toda uma tipologia
de vasilhame de barro - as ânforas, que correspondiam originalmente a uma medida de capacidade de 27 litros
- para o transporte e armazenamento dos três produtos básicos da sua economia: azeite, vinho e garum, a pasta de peixe que
constituía um dos pilares gastronómicos da Antiga Roma. À medida que os séculos passavam,
assim as ânforas iam vendo a sua capacidade aumentada e o seu peso reduzido. Assim, enquanto que no final
do século II antes de Cristo Roma produzia ânforas com uma relação peso/capacidade de
1:1 - ou seja, uma ânfora de 5 kg continha cerca de 5 litros de água - já no III século
depois de Cristo, o mundo romano produzia vasilhame que atingia uma relação de 1:4, ou seja, uma
ânfora de 5 kg podia comportar cerca de 20 litros de água.
Com a invasão da Gália, César viu-se confrontado com recipientes incendiários totalmente
feitos em madeira, recipientes estes que, após a conquista romana, passaram a conter líquidos mais
inofensivos e ser exportados por todo o Império, obtendo os tanoeiros gauleses o feito de produzirem vasilhame
que tinha uma relação peso/capacidade de 1:10, ou seja, um barril de 5 kg podia conter até
50 litros de água.
Pensa-se que a barrica surgiu pela primeira vez no norte de Itália, no princípio do século
II depois de Cristo, surgindo as aduelas ligadas entre si por aros de madeira. Aliás, o uso do ferro como
elemento de ligação das várias aduelas entre si apenas se tornou corrente no século
XIX.
Construção de um barril
O processo de fabrico de contentores de madeira pouco evoluiu ao longo de 20 séculos. A construção
de um barril inicia-se com o corte das árvores, o que deve de ser feito de acordo com as instruções
dos mestres tanoeiros, de modo a que se respeite a orientação do grão da madeira. Posteriormente,
a madeira será cortada em pranchas de 3 a 4 cm de espessura, após o que é armazenada durante
cerca de 4 anos, período durante o qual o vento e o Sol secam a seiva da madeira e a fazem enrijecer.
Após esta secagem, o mestre tanoeiro trabalha a madeira nos dois sentidos da fibra, e dá-lhe a forma
de uma aduela, reduzindo a sua espessura para cerca de 25 mm, com uma ligeira curvatura. As aduelas são
então aplainadas de modo a que os seus bordos adiram perfeitamente, assegurando-se assim uma boa estanquicidade.
Após este ajuste as aduelas são reunidas, numa sequência que alterna uma aduela larga com uma
aduela mais estreita, de modo a dar forma ao barril. O tanoeiro escolhe então a aduela mais larga para abrir
o orifício do pipo, encostando a esta aduela outras duas que tenham porventura algum defeito, já
que serão estas duas aduelas as que menor pressão do liquido sofrerão. É também
nesta fase que o artesão coloca o primeiro aro provisório de reforço, logo seguido por dois
outros aros, após o que procede ao corte de todas as pontas de aduela, de modo a harmonizar o seu comprimento.
A forma curva das aduelas é então adquirida graças à secagem da madeira molhada, que
é feita de um modo progressivo junto a um pequeno braseiro.
O tanoeiro entalha então as calhas que servirão para receber os fundo do barril, que é composto
por um número ímpar de peças, mais finas do que as aduelas em cerca de dois terços
da sua espessura. Depois de untar a base das aduelas com uma mistura pastosa de cinzas e de farinha, o tanoeiro
alivia a pressão dos aros mais próximos da extremidade do barril e procede à colocação
dos dois fundos, após o que está apto a fechar o barril com os aros definitivos.
Se os aros forem de ferro, o tanoeiro encontra o espaço entre dois aros como a distância dada como
um terço da divisão do comprimento total por três. Os aros de ferro são perfurados em
cada extremidade e neles são introduzidos rebites que são depois colocados por compressão
no seu local definitivo. Se a ligação for feita por aros de madeira, estes apresentarão em
cada extremidade uma escarva que permitirá a união, com recurso a fio metálico, sem que hajam
diferenças de espessura. Depois de prontas, as barricas são cheias com 2 a 3 baldes de água
a ferver e são roladas várias vezes para que se possam detectar eventuais fugas. O método
de construção de baldes e de selhas é em tudo idêntico ao do das barricas.
O vasilhame a bordo de navios
A volumetria das pipas e barris era padronizada por ordenação real, de modo a que a tanoaria não
só era importante para o transporte de víveres e outros materiais, mas desempenhava igualmente uma
importante função económica, ao servir como aferição para medidas oficiais de
capacidade. A unidade de volume mais correntemente usada em Portugal, no século XVI, era a Canada, que valia
cerca de 2 litros - embora a Canada de vinho de Lisboa tivesse um valor inferior, de cerca de 1,4 litros.
Logo a seguir vinha o Pote, com 12 litros e o Almude com 16,95 litros de capacidade. Quanto a medidas de maior
capacidade, usavam-se geralmente sub-múltiplos da pipa tais como o quarto de pipa - equivalente 6,25 Almudes,
mais ou menos 105 litros - e a Quartola ou Quarteirola - equivalente a meia pipa, ou seja 210 litros - que era
mais ou menos igual à Barrica, que possuía 200 litros de volumetria. Daqui se deduz que a pipa antiga
de Portugal, com uma capacidade de 423 litros, era substancialmente maior do que a pipa inglesa sua contemporânea,
com 163,55 litros de volume, embora a Pipa de Lisboa variasse ligeiramente, já que valia 25 Almudes, cerca
de 419 litros. Logo a seguir vinha o Tonel, com 840 litros, que equivalia a 2 pipas ou 50 Almudes
Num navio português do século XVI, o vasilhame necessário para manter 100 homens, a bordo de
uma nau da Índia de 600 toneladas e por todo o período da viagem de ida, era de 68 pipas de água
- metade das quais seria ferrada - 6 quartos de azeite, encascados e ferrados, 1 moio de farinha (828 litros),
437 quintais de biscoito e 400 arrobas de carne. Para além destes víveres, embarcaria também
1 moio de sal, com metade dos barris ferrados, 60 pipas de vinho, 5 pipas de vinagre, metade delas ferradas também,
e vários outros alimentos que exigiriam, também recipientes apropriados, tais como mostarda, pescada,
cebolas, alhos, amêndoas, ameixas passadas, mel, lentilhas e grãos.
Para além disso, na despensa do despenseiro da mesma nau existiam duas selhas e doze gamelas (no naufrágio
da fragata francesa Machault foram encontrados vários contentores de madeira, barris e caixas, que continham víveres,
munições de chumbo, alcatrão para calafetagem e pregos, atestando bem a variedade de materiais
que este tipo de contentores podia albergar a bordo dos navios).
Num navio de 74 canhões de meados do século XVIII, as provisões embarcadas para consumo, durante
3 meses, de 775 homens implicavam o embarque de 864 barris de água, 417 barris de vinho, 6 barricas de azeite,
4 barricas de óleo de iluminação, 6 barricas de vinagre, 6 barricas de aguardente, 288 quartos
de farinha, 150 quartos de carne salgada, 3 quartos de açúcar, 8 almudes de bacalhau seco, 15 almudes
de queijo e alguns barris de ameixas secas e de manteiga.
Para saber mais:
BOUDRIOT, J.
1983, Compagnies des Indes 1720 - 1770, Edité par l' auteur, Collection Archéologie Navale Française, Paris
KLEINGARDT, B. 1982,
Wasa, Statens
Sjohistoriska Museum, Uddevalla
MATOS, A. 1994,
Na Rota da Índia - Estudos de História da Expansão
Portuguesa, Instituto Cultural de Macau
MENEZES, J.
1990, Antigos pesos e medidas - séculos XV-XVI-XVII, in Boletim
da Sociedade de Geografia de Lisboa, s. 108, Julho/Dezembro
de 1990, Lisboa, pp. 125-161
REDKNAP, M. 1997,
Artefacts from Wrecks - dated Assemblages from the Late Middle
Ages to the Industrial Revolution, Oxbow Monograph 84, Exeter
SCIALLANO, M.
1994, La Tonnellerie, Neptunia, nº 193, Mars 1994, Association des Amis du Musée de la Marine, Paris, pp. 23
- 29
SULLIVAN, C. 1986,
Legacy of the Machault - A Collection of 18th-century Artifacts, National Historic Parks and Sites Branch, Parks Canada, Environment Canada,
Ottawa