Em Fevereiro de 1668, o galeão
português Sacramento, capitaneado pelo General Francisco Correia da
Silva, partiu do Tejo, comboiando uma armada pertencente à Companhia Geral do
Comércio do Brasil.
A bordo seguiam quase um milhar de pessoas, em que se contavam 800 marinheiros
e soldados e 200 passageiros, clérigos e franciscanos. Construído no Porto por
Francisco Bento, o Sacramento tinha, no ano anterior, sido
navio-almirante da armada que tinha protegido a costa portuguesa dos piratas
argelinos, armando nessa altura 60 canhões e transportando 824 marinheiros e
soldados.
E todo aquele armamento não era pouco, já que a situação no Brasil se vinha a
degradar desde 1630. Com efeito, os Holandeses tinham logrado com o domínio
militar do Recife, o controlo da navegação naquelas paragens o que lhes
permitia exercer um verdadeiro bloqueio ao comércio do açúcar. Sem meios para
enfrentar o poderio naval holandês, Portugal fez escoar o ouro branco através
de portos secundários, o que veio a dificultar a organização de comboios de
defesa, levando à perda, só no período de 1633 a 1634, de 124 navios mercantes.
Para obstar a esta verdadeira sangria de navios, Dom João IV vai tentar, logo a
seguir à Restauração, manter a independência nacional e a soberania do Brasil,
graças ao incremento do poderio naval português. Em 1643, e a pedido do
monarca, Salvador Correia de Sá indicou as acções que eram necessárias, em seu
entender, para reparar a situação no Brasil, surgindo o Regimento de 25 de
Março de 1643, que instituiu as frotas comboiadas. Em 1647, este sistema de
comboios navais revelou-se infrutífero perante a investida holandesa, o que
levou o Padre António Vieira a recomendar a criação de uma Companhia Geral do
Comércio do Brasil.
O naufrágio
A 5 de Maio 1668, depois de uma viagem sem novidades, o Sacramento
chegou à vista do porto da Baía de Todos os Santos, actual Estado da Baía. O
tempo estava péssimo, com ventos sul de grande intensidade que ameaçavam
destroçar a frota de encontro à costa de Salvador. Apesar da tempestade, o
piloto decidiu tentar a sua sorte e fazer-se ao porto.
Às sete da tarde, o Sacramento colidiu violentamente contra o Banco de
Santo António, submerso a cerca de 5 metros da superfície. Apesar de
insistentemente pedir socorro, disparando todas as suas peças de artilharia, o
galeão acabou por se afundar sozinho, às onze horas da noite, já que o estado
do mar não permitiu que qualquer embarcação fosse em seu socorro. Dos cerca de
1000 tripulantes e passageiros, apenas se salvaram 70. O corpo do General
Correia da Silva, juntamente com o de centenas de outros, acabou por dar à
costa no dia seguinte.
O naufrágio do Sacramento foi localizado, em 1973, por mergulhadores
amadores que comunicaram o seu achado aos Ministérios da Marinha e da Educação
e Cultura do Brasil. Em 1976, uma equipa de 30 mergulhadores da Armada,
dirigida pelo arqueólogo Ulysses Pernambucano de Mello, procedeu a uma primeira
prospecção do local, nas coordenadas 13º 12’ 18’’S e 38º 30’ 04’’W. Os
destroços, situados a cerca de 33 metros de profundidade, consistiam num
aglomerado de pedras de lastro - com cerca de 30 metros de comprimento por 13
de largura, elevando-se a cerca de 3 metros do fundo - rodeado por 36 canhões
de ferro e de bronze bem como por 5 âncoras e variados restos de cerâmicas,
majólica e recipientes de barro.
A identificação do navio foi relativamente fácil, apesar da artilharia
compreender peças de origens tão díspares como falconetes holandeses fundidos
em 1646; colubrinas inglesas datadas de meados do século XVI; dois meios
canhões, também ingleses, datados de 1590 e de 1596; e uma série de peças
portuguesas, a maioria do fundidor Matias Escartim, datadas de 1649 e 1653.
Todas as peças estavam marcadas com a divisa da Companhia Geral do Comércio do
Brazil Spero in Deo e, por vezes, com a esfera armilar.
Foi com base nas indicações presentes nas bocas de fogo que foi possível
determinar que o afundamento não teria ocorrido antes de 1653 (data da peça de
fogo mais recente) e que o navio pertenceria, muito provavelmente, à Companhia
Geral do Comércio do Brasil, criada em 1649. Para além dos canhões, foram
também encontradas algumas moedas de prata, espanholas e portuguesas. Destas
últimas, algumas tinham sido contra-marcadas numa das faces, de modo a que o
seu valor fosse aumentado em 25%. Como o Alvará Régio que ordenou essa
contra-marcação datava de 22 de Março de 1663, foi fácil determinar que a data
terminus post quem do naufrágio seria posterior à data desse Alvará.
Por entre os escombros e as pedras de lastro, vários artefactos foram surgindo
à luz do dia, depois de mais de três séculos de esquecimento. Foram assim
encontrados 5 compassos de navegação, em bronze, bem como dois astrolábios.
Parte da carga original do navio foi também recuperada. Entre esta
encontravam-se várias centenas de dedais de costura, bem como garrafas e
imagens em chumbo de Cristo, que teriam pertencido a um qualquer carregamento
de crucifixos.
A carga incluia também vários milhares de balas de chumbo contidas em jarras de
barro bem como têxteis, de que apenas sobreviviam os selos, em chumbo, da
Alfândega de Lisboa. Os pertences quotidianos da tripulação foram também
recuperados. Entre estes contavam-se pratos de majólica e porcelanas
portuguesas e chinesas, bem como a baixela pessoal do general Correia da Silva,
que nunca mais teve oportunidade de a utilizar, depois daquele dia fatídico de
5 de Maio de 1668.
Para saber mais:
MELLO, U. 1979, “The shipwreck of the galleon Sacramento -
1668 off Brazil”, The International Journal of Nautical Archaeology and
Underwater Exploration, 8.3: 211 - 223
ESPARTEIRO, A. 1974, Três Séculos de Mar, Caravelas e
Galeões, Colecção Estudos, Ministério da Marinha, Lisboa
NEILO, E. 1975, Olinda Restaurada: Guerra do Açúcar no
Nordeste, 1630 - 1654, Rio de Janeiro
RIBEIRO, A. 1992, “Armada de Guarda Costa, Frotas e Comboios
do Brasil”, in Revista de Marinha, ano 56, Junho 1992, 828: 30 - 34