A construção náutica de tradição
ibero-atlântica, fulcral para o movimento dos Descobrimentos Marítimos, tanto
espanhóis como portugueses, apoiava-se no século dezasseis num vasto conjunto
de conhecimentos empíricos e científicos.
Na raíz da diferença entre as duas escolas ibéricas de fabricação de naus, encontravam-se
as medidas básicas de medição, o rumo português ou a vara espanhola.
No caso espanhol, as medidas de construção naval baseavam-se na vara castelhana
(0,8359 m), donde derivava o palmo (0,209 m), o dedo (0,0174
m), o codo de ribera (0,5573) e o pé.
As medidas principais pelas quais se procedia ao traçado das embarcações
espanholas do século XVI eram a medida da manga, que se entendia como
sendo o comprimento máximo da caverna mestra, e a medida da quilla,
que estando el navio en astillero, ó carena, se medirá de codillo á codillo
- a proporção da medida interior da quilha era a de três vezes a da manga, em
navios de manga inferior a doze codos. Se a nau tivesse uma manga superior a
doze, então a quilha passaria a aumentar dois codos por cada codo de manga que
ultrapassasse a dúzia.
De acordo com Tomé Cano - construtor naval espanhol que publicou o seu tratado
sobre a Arte Para Fabricar, Fortificar y Aparejar Naos de Guerra e
Merchante em 1611 - a medida da manga era primordial para a construção
naval já que dela se han de sacar y se han de formar las demás que ha de
tener para la buena proporción que en los tamaños y en la grandeza ha de llevar.
A manga media-se de babor á estribor, por lo mas ancho de la Cubierta
principal, ora esté en lo mas ancho de la Nao, ora esté mas arriba, ó mas
abaxo, y se medirá por la superficie superior de la Cubierta, pegado á ella, y
de tabla a tabla. Juntamente com a manga, as medidas do plan -
largura da base no navio, junto à caverna mestra - e do puntal - altura
medida desde o plan até à primeira coberta - definiam
irreversivelmente o traçado da secção mestra do navio, bem como a tonelagem da
embarcação.
Os construtores navais espanhóis, uma vez definidas pelo armador as medidas da manga,
do plan e do puntal, lançavam os galeões de acordo com a
regra do as-dos-tres, em que a envergadura máxima do plan da caverna
mestra era sempre a de um terço do valor máximo da manga. Logo após a deposição
da primeira caverna - a cuaderna maestra - sobre a quilha, o
carpinteiro naval procedia à fixação das cavernas de conta, as últimas das
quais se denominavam almogamas ou redeles, e a partir das
quais se levantavam os delgados de proa e de popa.
As cuadernas de cuenta eram traçadas a partir do perfil da caverna mestra,
sendo o seu valor exprimido pelo número de madeiras que havia entre os redeles,
bem como pelo número de espaços - as claras - existente entre essas
mesmas madeiras. Assim, um navio de 12 codos (6,9 m) de manga e de 36 codos
(20,7 m) de quilha tinha 33 cuadernas de cuenta, constiuídas por uma
caverna mestra, 17 cavernas ordinárias e 16 espaços entre cavernas.
Entre os redeles ficavam os medios do navio, com a caverna
mestra colocada sensivelmente a meio dos medios. A partir do redel de proa
ficava o tercio de proa ou amura, e a partir do redel de popa
ficava o tercio de popa ou quadra. Era exactamente para dar
continuidade aos delgados que o plan das cavernas de conta sofria uma elevação,
tanto à popa como à proa, elevação essa denominada astilla.
Apesar de todas as cavernas de conta serem feitas à imagem e perfil da caverna
mestra, os sucessivos estreitamentos da manga e do plan de cada caverna
originavam um estreitamento gradual do navio, desde a caverna mestra até cada
extremidade da embarcação. No plano vertical, as cavernas iam-se igualmente
elevando, emulando o progressivo crescimento da astilla.
O comprimento total do navio era dado pela eslora, que se definia
entre os planos verticais compreendidos imediatamente a seguir à roda de proa e
ao cadaste. A soma dos comprimentos da quilha e dos lanzamientos de
proa e de popa davam também o valor da eslora.
O lanzamiento de popa media-se desde o canto interior da base do cadaste, junto
à quilha, até ao canto externo da cadaste, onde este se unia com o nível da
coberta. O lanzamiento de proa tinha um valor igual ao do puntal, ou seja, era
metade do da manga.
O traçado geométrico
A secção transversal das naus espanholas era, a mais das vezes, traçada a
compasso, em arco de círculo de raio igual a metade da manga. No entanto, tal
traçado dava origem - de acordo com vários tratadistas de arquitectura naval
contemporâneos - a naus con muy poco lastre lo qual no puede ayudar en cosa
alguna el aguante de el baxel, porque antes le consume al plan y sus movimientos
serán los mismos que tendra una Pipa en el agua, por que no le queda donde
escorar. Para se superar este inconveniente, traçava-se igualmente un arco
de círculo, com um terço da manga como raio, e prolongava-se este,
posteriormente, a partir do nível máximo da manga, com duas linhas rectas de
comprimento não superior a 2 codos.
As proporções dos navios seguiam também regras matemáticas precisas. Existiam
três métodos básicos para o cálculo destas proporções: o método as-dos-tres,
já referido sumariamente, em se repartiam as medidas em terços, sextos e doze
avos, e que foi usado, pelo menos, até 1587; os trazados por el quinto,
precursor do actual sistema métrico, e as proporciones de base dieciséis,
com repartições em meios, quartos, oitavos e dezasseis avos.
Para saber mais:
GONZÁLEZ, F. 1992, Le galion espagnol in Pour la Science,
nº 182, Décembre, pp: 90-101
MARTINEZ, R. 1988, Las Armadas de Felipe II,
Editorial San Martin, Madrid
SERRANO, J. 1991 Arquitectura de las Naos y Galeones de
las Flotas de Indias, tomos I e II, Ediciones Seyer, Malaga
SOTO, J 1988, Los barcos españoles del siglo XVI y la Gran
Armada de 1588, Editorial San Martin, Madrid