A construção naval espanhola 

Paulo Monteiro

 

A construção náutica de tradição ibero-atlântica, fulcral para o movimento dos Descobrimentos Marítimos, tanto espanhóis como portugueses, apoiava-se no século dezasseis num vasto conjunto de conhecimentos empíricos e científicos.

Na raíz da diferença entre as duas escolas ibéricas de fabricação de naus, encontravam-se as medidas básicas de medição, o rumo português ou a vara espanhola. No caso espanhol, as medidas de construção naval baseavam-se na vara castelhana (0,8359 m), donde derivava o palmo (0,209 m), o dedo (0,0174 m), o codo de ribera (0,5573) e o .

As medidas principais pelas quais se procedia ao traçado das embarcações espanholas do século XVI eram a medida da manga, que se entendia como sendo o comprimento máximo da caverna mestra, e a medida da quilla, que estando el navio en astillero, ó carena, se medirá de codillo á codillo - a proporção da medida interior da quilha era a de três vezes a da manga, em navios de manga inferior a doze codos. Se a nau tivesse uma manga superior a doze, então a quilha passaria a aumentar dois codos por cada codo de manga que ultrapassasse a dúzia.

De acordo com Tomé Cano - construtor naval espanhol que publicou o seu tratado sobre a Arte Para Fabricar, Fortificar y Aparejar Naos de Guerra e Merchante em 1611 - a medida da manga era primordial para a construção naval já que dela se han de sacar y se han de formar las demás que ha de tener para la buena proporción que en los tamaños y en la grandeza ha de llevar.

A manga media-se de babor á estribor, por lo mas ancho de la Cubierta principal, ora esté en lo mas ancho de la Nao, ora esté mas arriba, ó mas abaxo, y se medirá por la superficie superior de la Cubierta, pegado á ella, y de tabla a tabla. Juntamente com a manga, as medidas do plan - largura da base no navio, junto à caverna mestra - e do puntal - altura medida desde o plan até à primeira coberta - definiam irreversivelmente o traçado da secção mestra do navio, bem como a tonelagem da embarcação.

Os construtores navais espanhóis, uma vez definidas pelo armador as medidas da manga, do plan e do puntal, lançavam os galeões de acordo com a regra do as-dos-tres, em que a envergadura máxima do plan da caverna mestra era sempre a de um terço do valor máximo da manga. Logo após a deposição da primeira caverna - a cuaderna maestra - sobre a quilha, o carpinteiro naval procedia à fixação das cavernas de conta, as últimas das quais se denominavam almogamas ou redeles, e a partir das quais se levantavam os delgados de proa e de popa.

As cuadernas de cuenta eram traçadas a partir do perfil da caverna mestra, sendo o seu valor exprimido pelo número de madeiras que havia entre os redeles, bem como pelo número de espaços - as claras - existente entre essas mesmas madeiras. Assim, um navio de 12 codos (6,9 m) de manga e de 36 codos (20,7 m) de quilha tinha 33 cuadernas de cuenta, constiuídas por uma caverna mestra, 17 cavernas ordinárias e 16 espaços entre cavernas.

Entre os redeles ficavam os medios do navio, com a caverna mestra colocada sensivelmente a meio dos medios. A partir do redel de proa ficava o tercio de proa ou amura, e a partir do redel de popa ficava o tercio de popa ou quadra. Era exactamente para dar continuidade aos delgados que o plan das cavernas de conta sofria uma elevação, tanto à popa como à proa, elevação essa denominada astilla.

Apesar de todas as cavernas de conta serem feitas à imagem e perfil da caverna mestra, os sucessivos estreitamentos da manga e do plan de cada caverna originavam um estreitamento gradual do navio, desde a caverna mestra até cada extremidade da embarcação. No plano vertical, as cavernas iam-se igualmente elevando, emulando o progressivo crescimento da astilla.

O comprimento total do navio era dado pela eslora, que se definia entre os planos verticais compreendidos imediatamente a seguir à roda de proa e ao cadaste. A soma dos comprimentos da quilha e dos lanzamientos de proa e de popa davam também o valor da eslora.

O lanzamiento de popa media-se desde o canto interior da base do cadaste, junto à quilha, até ao canto externo da cadaste, onde este se unia com o nível da coberta. O lanzamiento de proa tinha um valor igual ao do puntal, ou seja, era metade do da manga.

O traçado geométrico

A secção transversal das naus espanholas era, a mais das vezes, traçada a compasso, em arco de círculo de raio igual a metade da manga. No entanto, tal traçado dava origem - de acordo com vários tratadistas de arquitectura naval contemporâneos - a naus con muy poco lastre lo qual no puede ayudar en cosa alguna el aguante de el baxel, porque antes le consume al plan y sus movimientos serán los mismos que tendra una Pipa en el agua, por que no le queda donde escorar. Para se superar este inconveniente, traçava-se igualmente un arco de círculo, com um terço da manga como raio, e prolongava-se este, posteriormente, a partir do nível máximo da manga, com duas linhas rectas de comprimento não superior a 2 codos.

As proporções dos navios seguiam também regras matemáticas precisas. Existiam três métodos básicos para o cálculo destas proporções: o método as-dos-tres, já referido sumariamente, em se repartiam as medidas em terços, sextos e doze avos, e que foi usado, pelo menos, até 1587; os trazados por el quinto, precursor do actual sistema métrico, e as proporciones de base dieciséis, com repartições em meios, quartos, oitavos e dezasseis avos.


Para saber mais:

GONZÁLEZ, F. 1992, Le galion espagnol in Pour la Science, nº 182, Décembre, pp: 90-101
MARTINEZ, R. 1988, Las Armadas de Felipe II, Editorial San Martin, Madrid
SERRANO, J. 1991 Arquitectura de las Naos y Galeones de las Flotas de Indias, tomos I e II, Ediciones Seyer, Malaga
SOTO, J 1988, Los barcos españoles del siglo XVI y la Gran Armada de 1588, Editorial San Martin, Madrid