A Revolução Francesa, ocorrida
na última década do século XVIII, levou ao germinar de duas vagas de fundo que
viriam a atravessar todo o século XIX: os movimentos liberais e os movimentos
nacionalistas.
Aproveitando essa boleia e incentivadas pelo exemplo da luta independentista
entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos da América, as colónias espanholas da
América Latina começaram também elas a revoltar-se a partir do ano de 1808.
A Espanha de então - tal como Portugal, que tinha no Brasil o mesmo problema -
era um país limitado pelos interesses económicos da Santa Aliança e da
Grã-Bretanha. Este último país tinha uma posição sobre os acontecimentos na
América do Sul claramente ligada aos interesses económicos de determinados
estratos da sua população, que viam os novos países em emergência como
potenciais mercados onde colocar os excedentes das suas manufacturas, e
simultaneamente, como fonte de matéria-prima para as suas indústrias.
Era a opinião britânica vigente que, se o monopólio comercial da Espanha sobre
as suas colónias viesse a terminar e se estas se viessem a abrir ao restante
comércio europeu, a Grã-Bretanha, graças à sua posição económica privilegiada
de nação pioneira da industrialização, seria a potência mais beneficiada pela
independência de países com o México, a Colômbia, o Peru e a Argentina.
Foi basicamente por esta razão que a Grã-Bretanha encorajou os movimentos
revolucionários latino-americanos, fornecendo não só capitais, como também
permitindo que alguns dos seus oficiais - como o almirante Cochrane, comandante
ad-hoc da frota insurgente chilena- se colocassem ao serviço das
colónias revoltadas. O apoio da Grã-Bretanha viria-se a oficializar-se em 1825,
com o reconhecimento dos novos Estados do México, da Colômbia e da República da
Argentina.
A revolução argentina
De início, os combates pela independência travaram-se em terra. Com o crescente
domínio marítimo imposto pela Espanha, as juntas revolucionárias passaram a
recorrer à guerra de corso no intuito de recolher proventos e de conduzir as
linhas de comunicação da potência colonizadora à exaustão. Para comandar os
navios corsários, as juntas escolheram aventureiros das mais variadas
nacionalidades, bem como alguns dos ex-soldados e marinheiros de Napoleão que
se tinham abrigado na América Latina - entre 1816 e 1817, o movimento insurrecto
do México recorreu mesmo a corsários provenientes de Nova Orleães, entre os
quais se contava o famoso pirata francês Lafitte.
Numa primeira fase, de 1812 a 1814, a maior parte desses corsários
estabeleceu-se em Cartagena de las Indias, de onde procedia à sangria do
movimento mercantil espanhol. Após a perda desta cidade, em 1815, os corsários
transferiram a sua actividade para Santo Domingo, onde resistiram às tentativas
espanholas de recuperação da parte oriental da ilha.
A Argentina era também uma das colónias revoltosas. A sua luta naval iniciou-se
no rio da Prata, em 1810, com o comandante maltês Azopardo a liderar uma
flotilha fluvial que operava contra as pequenas embarcações de cabotagem. Um
ano mais tarde, o bombardeamento de Buenos Aires e o ataque feito pela frota
espanhola sediada em Montevideu levaram à destruição total da frota rebelde.
Quatro anos depois, em 1815, o Governo de Buenos Aires tinha, graças à boa
vontade de alguns armadores argentinos, quatro navios a fazer uma guerra de
corso ao tráfego espanhol - ou, na falta destas presas, aos seus aliados.
Durante três anos, os ataques às possessões espanholas prosseguiram, culminando
as acções navais dos revoltosos no saque de San Carlos de Monterrey, a capital
da província da Nova Califórnia.
O império espanhol, velho de séculos, desmoronava-se assim, tanto no mar como
em terra. Para desgosto de Fernando VII de Espanha, dá-se em 1817 a ocupação
definitiva de Montevideu e da Província Cisplatina pelas tropas portuguesas,
num movimento que culminaria, dois anos mais tarde, no domínio português de
toda a Banda Oriental até ao Uruguai.
Os Açores em 1818
A 13 de Agosto de 1817, os ecos da lutas americanas foram trazidos até à vila
da Horta pela fragata espanhola Esmeralda. Por ela se avisava o Governador
do Faial de que os insurgentes d’America hespanhola tinham deitado fóra
navios ao corso, os quaes já tinham feito algumas prezas proxima ao Cabo de S.
Vicente. Em face das inquietantes notícias, a escuna de guerra Constancia
e as três galeras que acompanhavam, a Commerciante, a Lord
Wellington e a Nossa Senhora da Luz, provenientes da Índia e com
uma carga considerável a bordo, prontamente se dirigiram para Lisboa, não sem
antes se reabastecerem de pólvora no Faial.
Quase um ano depois, a 27 de Junho de 1818, desembarcavam na Horta 27
pessoas Portuguezas pertencentes a dois Navios, que pelos Corsarios Insurgentes
foraõ tomados ao Oeste das Flores, vindos, hum do Rio de Janeiro, e outro da
Paraiba. Felizmente para estes pobres infelizes, a gente foi deixada
pelos ditos Corsarios em hum Bergantim Inglez, que seguia viagem da Costa d’
Africa para Londres. No total foram atacados, por corsários mexicanos,
quatro navios portugueses: a galera São João Baptista, os bergantins D.
João VI e Julia e a escuna Pomba Feliz.
Passados poucos meses, um outro corsário, desta feita argentino, viria a causar
grande alvoroço nas ilhas do Grupo Ocidental, levando mesmo António de Lacerda
Bulcão a discorrer fantasiosamente sobre o caso num dos seus Romances Originais,
publicado 60 anos depois do acontecimento.
Logo que teve notícia da presença de corsários independentistas junto às ilhas
do Grupo Ocidental, o Comandante de Milícias da ilha das Flores, Domingos Jozé
d’Avelar, medindo as poucas forças que há nesta Ilha, muito principalmente
pelas freguesias, deu Ordem para aquelles Portos do mar, que a Navios de
guerra, mandando huas Lanxas a terra fossem tratados com toda a attençaõ, e que
abaixo dos fortes se lhes desse o Refresco, que percizassem, pagando-os com
dinheiro, e que de forma nenhûa se dezembarquasse genero algum, nem passassem
Extrangeiros assima do forte para naõ vierem no Conhecimento da fraqueza das
freguesias, e que naõ podendo os Navios servirem-se com Suas Lanxas, fosse
Barco só com Sua equipagem, deitar-lhe a agua a bordo, ou outro qualquer genero
de que percizassem.
Tal expediente era, em face das inexistentes condições de defesa, necessário.
Com efeito, a ilha, verdadeiro tigre de papel, estava completamente
desguarnecida, com a pouca artilharia existente em más condições e com os
milicianos destreinados e mal equipados. O medo de que as acções dos
insurgentes argentinos e bolivianos - justificadas, no entender destes, pelas
intervenções militares portuguesas na guerra da Argentina e da Bolívia -
descambassem para a violência contra os insulares levava a que, a todo o custo,
se tentasse dar uma imagem de inexpugnabilidade da ilha, ao mesmo tempo que se
tentava contentar as suas necessidades, fornecendo-se-lhes os víveres e a água
que pediam regularmente.
O desembarque
No entanto, no melhor pano cai a nódoa. Assim, no dia 17 de Agosto vindo
hum Barco da Ilha do Corvo, com Carga, Veio do Este hua Escuna de guerra, e o
fez ir a Seu bordo, e tirando-lhe a Carga o mandou ao Porto de Ponta Delgada,
com seu Official, e Pratico, a pedir queria barco para lhe fazer agua, e que
queria tambem alguns Viveres, e dizendo-lhe o Commandante daquelle Porto que
Sim foraõ dar a Carga ao barco, e o despediraõ para este Porto sem Offensa; fez
agua naquella freguesia comprou huas Vitelas, Battatas, Lenha, e alguãs
Galinhas que tudo pagou com dinheiro.
Porém, o Commandante do Porto, que he o Capitaõ Francisco Antonio Alvares,
naõ cumprio com a Ordem do Governador da Ilha do Faial nem com a dele,
Comandante das Milicias, pois no proprio dia deixou ficar em terra hum
Official, e o Pratico e os Levou para Sua Caza, aonde dormiraõ, e me deu parte
dizendo que a Lanxa fora a bordo, e por ser tarde não Viera, e por isso Levara
os dous Extrangeiros para Sua Caza / o que naõ devera fazer, mas Sim mandallos
pôr a Bordo por hum Barco da terra / e immediatamente lhe mandei Ordem que de
forma nenhuã passasse Extrangeiros assima do forte o que ele naõ executou.
Para cúmulo, no dia 18 a noite Vieraõ dous Extrangeiros para Caza delle
aonde os teve até huã grande parte da noite que foi percizo, o corsario atirar
Pessas para aquelles homens se Recolherem para Bordo, que entaõ os mandou em
hum Barco, e se despedio naquella noite o dito Corsario, que era de duas Pessas
e hua de Piaõ, e tinha 40 Pessoas, e que Vinha de Boinos ares, com cuja
Bandeira esteve, e que era Evocado Boa lis.
Perante o claro desobedecimento das suas ordens, o Comandante das Milicias
chamou a Santa Cruz das Flores o Capitão Francisco Alves, que acabou por ser
Castigado para exemplo dos mais Officiaes, ficando prezo no forte Principal
desta Villa, evocado Saõ Francisco na Caza da Guarda dos Officiais até que o
Governador do Distrito se pudesse pronunciar, o que este não fez por algum
tempo levando a que a demora na prizaõ do Sobreditto Capitaõ, lhe tem servido
de emcommodo, visto que mora 4 leguas distante desta Villa, e he homem de
igdade avultada.
Em sua defesa, Francisco Antonio Alves, Capitão da Companhia das Ordenanças
formada na freguesia de Ponta Delgada da Ilha das Flores, alegou que no dia
26 de Agosto de 1818 aportando ao Porto daquella dita Freguesia huma Escuna de
Guerra dos Insurgentes, o Supplicante como oficial da guarda deixara passar
dois dos mesmos que pretendiaõ fazer agoa, e tinham por forssa Chamado a seu
bordo hum barco que vinha da Ilha do Corvo, fazendo lhes Carregar a Carga a
bordo do navio Corssario, o qual naõ deixavaõ, sem que primeiro de terra lhe
dessem barcos para fazer agoa, o Supplicante vendo o perjuizo da gente daquelle
barco tratou de llevar para Sua Caza dois dos mesmos Insurgentes a fim de com
boens modos, obter a liberdade daquelles, e lhe naõ fazerem algum insulto para
a terra, ainda que tinha ordem do seu Commandante para naõ deixhar passar
insurgente algum mas sim prestar-lhe aquelle secorro abaixo da fortelleza.
No seu entender o prosedimento do Supplicante naõ foi por falta de
Subordinaçaõ ao Seu Commandante, mas Sim pellos motivos que alegou, e fora
prezo no Castello de São Francisco na Vila de Santa Cruz. Paralelamente, surgia
no mesmo processo jurídico uma declaração conjunta do Comandante de Milícias ,
Domingos Jozé d’ Avelar, e do Tenente de Milícias da Ilha das Flores, Miguel
Francisco, que atestaram debaixo de juramento dos Santissimos Evangelhos, que
chegando os Extrangeiros o dito Capitaõ levou dous para Sua Caza, aonde
dormiraõ, e lhe Vendeo todos os Viveres, que compraraõ; e no dia 18 estiveraõ a
noite dous Extrangeiros, em casa do dito Capitaõ e atirando, o dito Navio huã
Peça, os foi hum Barco botar a bordo.
Terá existido o Almeida?
Não resta dúvida de que, em Agosto de 1817, terá aportado à ilha das Flores uma
escuna de corso dos rebeldes argentinos. O que nos parece menos claro são as
referências feitas por dois autores do século XIX sobre um caso semelhante, com
idênticas personagens e local de acção.
Assim, segundo Macedo, ia fornecer-se regularmente, às ilhas do Grupo
Ocidental, um corsário cognominado por aqueles povos de Almeida. Ao que parece,
este Almeida comandava um grande brigue guarnecido com 17 peças e 140
pessoas, o qual aprisionando uma escuna que sahira das Flores e sabendo que
nella vinha um filho do capitão mor - António Vicente Peixoto, futuro Barão de
Santa Cruz e deputado pelo Distrito da Horta - o fora deital-o na ilha com a
mais gente e bagagem, ficando só com o navio por saber que não era da ilha, e
desde então ali continuou a ir refrescar.
Segundo Bulcão, o corsário denominava-se Almeidinha e comandava um brigue de 18
peças, com uma de rodízio ao centro, tendo a embarcação uma equipagem de 160
pessoas. Segundo o mesmo autor, o seu comandante, Almeidinha, era um moço
de presença agradavel, valente e generoso, procurava sempre a ilha do Corvo
para fornecer-se do necessario, como farinha aves, carnes, e agua, pagando
prompta e generosamente tudo quanto recebia.
(Na sua narrativa, Bulcão conta como o corsário perseguiu e afundou uma escuna,
tendo-se salvo do naufrágio uma pobre viúva, moça ainda jovem e que viria a dar
o mote para uma pungente cena de amor e saudade de que o autor, mais à frente,
faz menção. Ao que parece, a jovem fora lançada na ilha Brava e os corvinos
teriam sido recompensados com 7:500 reis em ouro, dinheiro que viria a servir
para a compra dos cordões de ouro brasileiro, e jóias, que ornamentaram a
imagem da Nossa Senhora dos Milagres.)
Entre a escuna histórica, com três peças de artilharia e 40 pessoas, e o brigue
de Bulcão, com 19 peças de artilharia e 160 pessoas de tripulação, existe um
ténue fio condutor e uma exagerada dose de romance. Cabe ao leitor escolher a
verdade da sua preferência.
Para saber mais:
BPADAH
- Carta do Governador da ilha do Faial ao Governo em Angra sobre o
desembarque na Horta de 29 pessoas pertencentes a dois navios apresados por
navio corsário dos Insurgentes, 1 de Julho de 1818, Capitania Geral dos
Açores, M9, Ilha do Faial, Correspondência do Governador do Faial, 1811 - 1821,
BPADAH
- Declaração do Comandante de Milícias , Domingos Jozé d’Avelar, e do
Tenente de Milícias da ilha das Flores, Miguel Francisco, sobre o desembarque e
pernoita, na casa do Capitão da Companhia de Ordenanças da freguesia de Ponta
Delgada, de dois estrangeiros provenientes de um navio corsário dos
Insurgentes, 8 de Outubro de 1818, Capitania Geral dos Açores, M72, Ilha
das Flores, Correspondência de Diversos, 1817 - 1827, BPADAH
- Carta do Comandante de Milícias da ilha das Flores, Domingos Jozé
d’Avelar, ao Governador da Ilha do Faial sobre o desembarque e pernoita de dois
estrangeiros provenientes de um navio corsário dos Insurgentes, 10 de Outubro
de 1818, Capitania Geral dos Açores, M72, Ilha das Flores, Correspondência
de Diversos, 1817 - 1827, BPADAH
- Declaração do Capitão da Companhia de Ordenanças da freguesia de Ponta
Delgada da ilha das Flores, Francisco António Alves, sobre o desembarque e
pernoita, na sua casa, de dois estrangeiros provenientes de um navio corsário
dos Insurgentes, 10 de Outubro de 1818, Capitania Geral dos Açores, M72,
Ilha das Flores, Correspondência de Diversos, 1817 - 1827, BPADAH
BULCÃO, A., 1877, Collecção de Romances Originaes,
Typografia de Francisco P. de Mello, Horta
GUERREIRO, L., 1996, O Grande Livro da Pirataria e do
Corso, Círculo de Leitores, Lisboa
MACEDO, A., 1981, História das Quatro Ilhas que Formam o
Distrito da Horta, vol. II, reprodução fac-similada da edição de 1871,
SREC/DRAC, Angra do Heroísmo
PROENÇA, M., 1987, A Independência do Brasil - Relações
Externas Portuguesas 1808/1825, Livros Horizonte, Lisboa
ROSATI, J., 1962, Un Corsaire Argentin de Souche
Provençale, Neptunia, nº 65, 1º trimestre, Association des Amis du Musée
de Marine, Paris
VIEIRA, A., 1988, Da poliercética à fortificação nos
Açores - Introdução ao estudo do sistema defensivo nos Açores nos sécs. XVI
-XIX, Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. XLV, Angra do
Heroísmo