1858. Porto da Horta, Ilha do Faial, Açores.
Na manhã do dia 16 de Janeiro, o vento levantou-se ameaçador e foi crescendo de intensidade até
atingir o seu máximo na manhã do dia seguinte, Domingo.
No porto da vila achavam-se ancorados dezassete navios, entre os quais a escuna portuguesa Júpiter; a escuna americana de três
mastros Pathfinder,
do porto de Washington; as barcas, também americanas, Martha
Whitmore e North
Sea, esta última do porto de Nova Iorque; o brigue francês
Allah Kérin;
a escuna portuguesa Nereida;
o brigue, também português, Margarida Leonor e as escunas inglesas Lady
Ann, William
Morgan Davies e King
Alfred.
As embarcações ancoradas suportaram o forte vento de sudeste conforme puderam - apesar de todos os
navios terem correntes de ferro, a violência do mar era tal que estas se
esticavam por sobre a água como cordas de violino, provocando
o arrastar, lento mas inexorável, das embarcações fundeadas em direcção à
costa.
A primeira vítima do temporal foi a escuna Pathfinder. Na manhã do dia 17, esta foi arrastada até à zona
de rebentação, aonde uma série de três ondas mais fortes a fizeram embater na zona da
muralha, em frente da casa do Figueiredo, entre o Canto de Dona Joana e a Alfândega. Alguns cabos salva-vidas
foram então lançadas do alto da muralha, para a embarcação sinistrada, e por elas salvou-se
toda a tripulação - onde se incluía o seu comandante, o capitão White, um homem muito alto, do tipo saxónico
- que desceu para a segurança da praia que ficava defronte da muralha.
Pelas nove da manhã, a escuna Júpiter foi a segunda vítima. Embaraçado na sua manobra pela Pathfinder, que andava à
deriva, e sob perigo eminente de ser abalroado pela escuna, o navio português largou as correntes de amarração
e deixou-se abater para terra, onde se veio a desfazer perto da Alfândega, nuns rochedos que existiam numa
das suas extremidades. A sua tripulação salvou-se, também sem dificuldades de maior.
Às 11 da manhã, deu à costa a escuna Nereida, que garrava já desde o alvorecer. Após embater na Pedra dos Frades,
junto à Cruz, os quatro membros da sua tripulação que ainda se encontravam a bordo,
tiveram algumas dificuldades em escapar à fúria do mar - com efeito, o segundo homem a lançar-se
à costa foi apanhado pela rebentação e só muito a custo conseguiu ser salvo, juntamente
com os outros seus dois companheiros.
Pouco depois, rebentaram as correntes do Lady Ann, carregado de osso em pó, que acabou por embater na popa da Pathfinder, encalhada junto
à muralha. A sua tripulação saltou para esta última embarcação e de lá
foi recolhida pela população da vila.
Um pouco antes das duas da tarde, a tripulação do brigue francês Allah Kérin assustou-se e decidiu
tentar alcançar terra por intermédio do escaler do navio - uma loucura completa, conforme se verá.
Ao mesmo tempo que o escaler se inundava sob a força das vagas, o brigue desgovernado soltou-se das correntes
e derivoupara Norte. Três dos tripulantes do escaler conseguiram então voltar para bordo do brigue,
mas os outros não tiveram tanta sorte. Dois morreram afogados enquanto tentavam regressar ao brigue e outros
cinco foram naufragar na rebentação. Destes, um conseguiu subir pelo casco da Pathfinder, um outro foi salvo junto à
praia e os outros morreram. Um dos guardas da Alfândega foi também apanhado pela rebentação,
enquanto tentava ajudar os náufragos, e acabou por falecer mais tarde dos ferimentos sofridos.
Os naufrágios do dia 18
No dia seguinte dava à costa, junto à muralha, a escuna portuguesa Margarida Leonor, de onde se salvaram algumas
pipas de vinho. Um pouco mais tarde, o mesmo acontecia à escuna King
Alfred, junto ao Coice da Alagoa, perdendo-se todo o carregamento
de carvão que trazia a bordo. Ainda no mesmo dia, naufragaram a escuna inglesa William Morgan Davies, em frente da Ermida
da Nossa Senhora da Boa Viagem, e a barca americana North Sea, defronte do Poiso Novo, perdendo-se toda a sua carga de trigo e algumas toneladas
de madeira. Dos sete navios que sobreviveram aos naufrágios, o mais atingida foi a barca Martha Whitmore, que desmastreou.
A testemunhar toda a tragédia havia um desenhador, William M. Hunt. Hunt chegou à vila da Horta no
dia 18 e desenhou vários esboços, among them one
of the captain and crew being landed from the North Sea along the ropes stretched to the sea wall (existem três esboços que sobreviveram ao incêndio que, em
1873, destruiu o atelier de Hunt, fazendo desaparecer toda a sua obra).
Para saber mais:
Jornal Angrence
nº 1006, 1858, Angra do Heroísmo
DABNEY, R. 1895,
Annals of the Dabney Family in Fayal compiled by Roxana Lewis
Dabney, Press of Alfred Smudge & Son, Boston
MACEDO, A. 1981,
História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta, vol. II, reprodução fac-similada da edição de 1871,
SREC/DRAC, Angra do Heroísmo