O naufrágio da Nossa Senhora da Luz, 1615, Faial, Açores (I) 

Paulo Monteiro

 

AHU, Açores, 7 de Novembro de 1615
Carta do Contador da Fazenda da Terceira e Ilhas de Baixo [Manuel Pacheco de Lima] para o Rei [Filipe II] sobre a arribada da nau São Filipe à Terceira e do seu provimento.


Senhor

Em 5 do Presente aPareceo a vista desta ilha hua Nao que na grandeza pareseo ser da India ordenei o fosem reconhecer, veo o patram com reposta do capitam em que me avisava ser a Nao S. felipe de viaiem com muita gemte morta; e a viva tam doemte que não vinha de prestar asim no serviso comtinuo da bomba, como no ordinario da Nao, e que de mantimentos vinha tam nesesitado que não tinha nenhus, e me fasia a saber que se de tudo o não proviamos com brevidade não çoo a Nao não Podia seguir viaie mas antes toda a gemte estava amotinada pera avir amcorar neste porto. E porque o provedor da fasenda de Vossa Magestade e o corrregedor estam ausentes em outras ilhas em seu serviso, mostrei a carta ao bispo e ao mestre de camPo e a manuel do Camto provedor das armadas e por asemto que se fes foi ordenado fose socorrida a Nao com toda brevidade de todo o nesesario comforme a posibilidade da terra, na execusam do neguoçio ouve tanta diligensia, que ao manheser do dia seguinte e - 6 - do mes partio hu barco grande com mantimentos e ao meio dia outro com 23 homens pera o serviso da Náo, e a tarde outro em que foi o escrivão da Náo e despinseiro Satisfeitos com os mantimentos que levavão, e com muita abundancia que levarão a Náo a vender vai bastantemente provida, e aquella mesma noite desapareseu que oie 7 do mes não se tem vista della. O que aguora me dá Senhor mais cuidado he a Náo Capitaina que tendo asentado tomarem esta ilha por a muita nesesidade que tras, em dia de todos os Samtos 150 leguas desta ilha se apartarão e não temos vista della, pera cuio provimento estamos prestes, e se lhe metera dentro em 12 oras, e com igual cuidado se não comsente ficar se nada em terra.
Os doemtes que ficam são muitos e os mais delles muito mal, e como lhe impedimos ficarem fazendas ficam pobrissimos mas no ospital se tem cuidado delles, que pera semelhantes ocasions lhe dá Vossa Magestade 80$ cada ano.
Este pataxo vai com mea cargua, e por não lhe deixarmos tomar o reste lhe prometemos - 20$ - da fazenda de Vossa Magestade des mil se lhe deram loguo a demasia sendo Vossa Magestade servido se lhe paguem nesa çidade, o mesmo mestre dirá como procurei se fose loguo a iuntar com a Náo e aguora vai arriscado a encontra la. noso Senhor a Catolica peçoa de Vossa Magestade guarde. desta çidade de Amgra ilha terceira a 7 - de Novembro 1615

Manoel Pacheco de Lima


AHU, Açores, 20 de Novembro de 1615
Treslado do auto da junta em que se reuniram o Provedor das Armadas [Manuel do Canto de Castro] o Bispo de Angra [Agostinho Ribeiro] e o Mestre de Campo [Gonçalo Mexia] e em que se decidiram as acções a tomar realtivamente ao naufrágio da nau capitânia Nossa Senhora da Luz.


Treslado de hum Auto que o provedor das Armadas Nas ilhas mandou fazer sobre a junta que se fez com o Bispo e mestre de campo dom gonsalo mesia sobre o avizo que se manda a sua Magestade do naufragio da Nao Capitanja da jndia nossa senhora da lux de que era Capitam mor dom manoel Coutinho.

Anno do nassimento de nosso senhor Jeshus Christo de mil seissentos e quinze aos vinte dias do mes de novembro do dito anno na cidade d'Angra desta ilha terzeira nos paços Episcopaes, do senhor dom Augustinho Ribeyro Bispo deste Bispado de Angra E ilha dos assores do Conselho de sua magestade sendo elle presente E dom gonsallo messia mestre de Campo E castelhano do Castello sam filiphe do monte do brasil da dita çidade E governador da gente do presidio do dito Castello E bem assj Manuel do Canto de Castro fidalgo da casa del Rej nosso senhor provedor de suas Armadas Naos da jndia Mina E guiné em todas estas ilhas dos Assores E capitam mór em esta capitanja de Angra desta dita ilha hi por o dito Manuel do Canto de Castro foi dito e tratado com elles que elle tinha avizo de dom Manuel Coutinho capitam mór das Naos de viagem da jndia este presente anno por carta sua que presenteou porque o avizava em Como por caso fortuito a Nao capitanja nossa senhora da lux em que elle vinha tinha dado a costa em a ilha do faial junto a porto pim Costa da dita ilha onde elle ficava E que della sahia mujta fazenda pedindo lhe encaresidamente aCudisse Com toda a brevidade a dita ilha a mandar por em Cobro a dita fazenda Per assi Convir ao serviço do dito senhor, Como milhor Constava da dita carta pello que Elle como provedor que era das Armadas E Náos da jndia em todas estas ilhas tinha obrigasam de acudir ao avizo do dito capitão mor para nella Com o Corregedor que ja la devja estar segundo Recado seu tivera da ilha de sam george onde // Estava ao tempo do naufragio da dita Nao mandar aproveitar beneficiar E por em boa guarda a fasenda que se salvar da dita Nao, Artelharja E mais cousas della E mandar acudir E prover em todo o mais necessario principalmente per de presente não aver Causa mais urgente que o jmpidisse pois das Naos que se esperavão que eram tres huma que era sam Boaventura se perdera na viagem antes de dobrar o Cabo E a outra sam feliphe tomara este porto onde ele provedor a mandara prover E se tinha seya já chegada ao Rejno ou perto delle E agora se não esperava em esta ilha Armada alguma em que seja necessario sua assistensia pera a prover Pello que ficava livre a poder acudir a dita ilha como de feito estava embarcado pera ella esperando somente tempo E por sima de tudo era tambem muito jmportante avizar a sua Magestade do sucesso E naufragio da dita Nao, Como Por seu Regimento lhe era mandado faser E porque em Cousas E materjas tam jmportantes E de tanto pezo se nam podia tomar Rezolusão sem pareser dos ditos senhores Bispo E Mestre de Campo como pessoas tam jnteresantes no serviço do dito senhor lhes pedia E da parte do dito Senhor Requerja Como tam experimentados E zelosos de seu serviço assentasem com elle o que se devya faser nesta materja que mais Conviesse ao serviço do dito Senhor E praticado tudo Resolverão que o primejro era aviZarem a sua Magestade Com huma Caravella na forma do Regimento do dito provedor escrevendo todos de Conformidade ao dito senhor E segundaryamente eram de pareser que //
Elle Provedor fizesse a jornada a dita ylha do faial pera onde estava embarCado E aviZasse ao provedor da fazenda que estava em a ilha de sam Miguel que acudisse tambem a dita ilha do faial na forma do dito Regimento pera que alj Com o corregedor que se entende ja la estaria Conforme tem avizado da ilha de sam george donde o tomou este Recado pera ahi todos em Conformidade do dito seu Regimento tratarem da salvasam da fazenda da dita Nao, E beneficio della E que sendo necessareo desta ilha alguma Cousa os aviZassem pera de qua aCudirem com o que mais Convier ao serviço do dito Senhor de que mandaram faser Este auto em que todos assinarão E eu fernão feyo pitta escrjvão da fazenda E Armadas em estas ilhas que o escrevj o Bispo de Angra dom gonsalo messia Manuel do canto de castro o qual treslado de auto Eu fernão feyo pitta escrjvão da provedorya E Armadas em estas jlhas dos Assores tresladei bem e fielmente do proprio auto a que me Reporto E o subscrevj E Consertej com o provedor das Armadas manuel do Canto de Castro que aqui asinou Comigo em Angra aos xxj dias do mes de novembro de bj[tos] E quinZe anos pagou nada por ser do serviço de sua Magestade

ConCertado
Manuel do Canto Fernão Feyo pitta


AHU, Açores, 11 de Novembro de 1615
Cópia da carta do capitão mór da Armada de 1614 [Manuel Coutinho] ao Provedor das Armadas nas ilhas dos Açores [Manuel do Canto de Castro] sobre o naufrágio da nau Nossa Senhora da Luz, e pedindo a sua intervenção no salvamento da fazenda e socorro da tripulação.


Copia da Carta que dom Manuel Coutinho capitam mor das Naos da viagem da jndia escreveo da ilha do faial a Manuel do Canto de Castro provedor das Armadas E Náos da jndia em estas ilhas dos Açores

Sabado sette dias de novembro foi deos servido que a Nao nossa senhora da lux em que eu vinha por capitam mor fizesse naufragio nesta Costa do porto de porto de pim miseravel expectaculo pera ver e Contar vossa merse acuda loguo por serviço de deos E de sua magestade porque sera muito efeito de jmportansia suposto que o capitam mor da terra E Almoxarife E mais ministros da terra fazem mais do que pode E isto não tem mais que enCareser senão que acuda vosa merse E acuda porque he necessario pera a fazenda perdida E Remedio destes homens que aqui estam.
E ajnda que Eu não tenha servido a vossa magestade em nada mas fiado em sua boa Condisam E animo grande me atrevo a pedir lhe merses de que sera com esta hum Rol E lugar E comodidade de se poder fiar de mim sera mui grande beneficio E merse E sera mui grande pera mim E pagarei pontualmente a pe quedo na forma de se ordenar nosso senhor oje onze novembro de seissentos e quinZe dom manuel Coutinho. o qual treslado de Carta eu fernão feyo pitta escrjvão do provedor das Armadas em estas ilhas dos Asores tresladei da propria carta que ficou ao provedor manuel do Canto de Castro que aqui asinou E com quem a corri E a sobrescrevj E asinej aos xxj dias do mes de novembro de bj e xb annos

ConCertado
Manuel do Canto Fernão Feyo pitta



AHU, Açores, 14 de Novembro de 1615
Carta do Provedor das Armadas nas ilhas dos Açores [Manuel do Canto de Castro] ao Rei [Filipe II] sobre o provimento da nau São Filipe bem como do naufrágio da nau Nossa Senhora da Luz, na ilha do Faial, e das acções que tomou para o salvamento da fazenda.


Senhor

Com o pataxo que inviei de avizo da chegada da Nao Sam filippe a esta jlha escrevi a Vossa Magestade em como esta Nao se apartou vespera de todos os sanctos da Nao capitania Nossa Senhora da Lux de que vinha por capitão mor dom Manoel coutinho, e que a dita Nao ficava amainada couZa de 150 legoas a loeste desta jlha, e atravessada, como que lhe soccedera algum desastre. Sam filippe, E a Caravella não poderião arribar sobre a Nao por ser o temporal muy forte, E Sam filippe vir ainda mais piadoZa, de maneira que não podião ser bons a Ninguem, E se Deus a levou a salvamento a essa çidade (como confio) bem empregada foy minha diligençia, porque elles parecerão a vista deste porto 5ª feira 5. de Novembro, tratando de metter a Nao no porto, onde, sem falta, se entrava, não podera tornara a sair segundo os temporaes correrão, E se perdera, E pera este effeito vinha a gente aMotinada, E não obedeçião ao Capitão, E foy necessario, por minha ordem, uZar o patrão desta Ribeira de huma cautella, que fingindo os vinha anchorar, dobrou a Nao fora da ponta de Santo Antonio e descahiu de modo, que logo ficou gilaventeada do porto: jsto se acabou de fazer a mesma 5ª feira. A 6ª seguinte dia deu Deus huma calma, E tempo tam quieto, que pude prover esta Nao de muitos mantimentos e Refresco, E 50. homens da terra, E lhe deZembarquey ao pe de 70 homens quasi mortos, E isto andando a 7. e 8. legoas deste porto com tanta brevidade, que quando foy a boca da noute a Nao comessou de faZer sua viagem pera esse Rejno sobrevindo logo grande temporal, que durou 5. ou 6. dias, mas serviu lhe a Nao em popa; sera bem guiada com o favor de Deus.
Esta mesma noute da 6ª feira pera o sabbado chegou a Nao capitania milagroZamente a jlha do fayal, que esta 30 legoas a loeste desta jlha com 30 palmos de agoa; ja a artelharia quasi toda allijada, e muita fazenda so com a esperança de salvar as vidas invistindo a primeira pedra que achassem, E assim de noute invistirão a terra por huma Rocha alcantillada, onde quebrarão o garopes da Nao, que defendeu de não tocar o Costado onde se não podera salvar pessoa alguma; E discorrendo ao longo da Rocha a Nao, veyo alcançar huma anchora defronte do porto pim, onde lhe acudirão muitos barcos da terra, E dom Manoel procurando salvar alguma fazenda da Nao, tratou de não deixar deZembarcar a gente, que sustentassem as bombas, e gamottes ate amanhecer, E neste tempo veyo crescendo mais o mar, E temporal, e muita gente se lhe lançou aos barcos de maneira que a Nao veyo garrando sobre a amarra e veyo dar atraves nas pedras, onde em continente se fez em miudos pedaços, E o mar Lançou fora muita quantidade de fazendas: e da gente dizem que são mortas 150 pessoas. Dom Manoel foy o derradeiro, que quis sair da Nao cuidando se tivesse inteira, e Custara lhe a vida, porque o salvou hum Nadador ja meyo afogado, e sem acordo. Eu tive aviZo seu em o tempo dando lugar, que foy a 13 deste mes em que me dava conta de tudo, encareçendo me que acodisse a esta neçessidade logo fis conçertar huma caravella pera levar alguns buzios que mergulhem, E salvem alguma fazenda, E o patrão, E Carpinteiro, E outros ministros, E homens do mar pera que não fique por mim a salvação de alguma couZa se a Deus der.

Neste porto de pim ha huma grande praya onde a Nao fez Naufragio onde tem saido muita caixaria, e fardos que se a de adoçar as Roupas, e fazer se com ellas muitas diligençias, que avia eu mester, e os que me acompanhão cada hum çem olhos, mas não ficara nada por mim na diligençia, e lealdade, que devo.
O Corregedor destas jlhas estava mais perto na jlha de Sam George, e porque elle, e seos anteçessores são a pessoa que Vossa Magestade manda, que me assista particularmente nestes Negocios, e joão correa da Mosquita, que hora he Corregedor he hum ministro de que eu tenho muita satisfação, sendo avizado no mesmo Recado meu, tenho por Carta sua, que se arriscava a passar a jlha do fayal ainda que lhe custasse a vida pois estava della 7 legoas: mas correrão taes temporaes, que andava o mar tão brabo, que duvido podesse passar, posto que podendo, ainda que seia com grande risco de sua vida o tera feito. Eu fico embarcado a feitura desta a acodir a esta neçessidade, E daquella jlha avizarei a Vossa Magestade do estado de tudo: Resta agora, que Vossa Magestade me mande ordem se esta fazenda a de esperar na jlha do fayal, ou vir a esta jlha terzeira porque ha aqui duas couZas, huma o bollir com ella, e faZer outra escalla, E Custos, e perigo do mar; a outra que tenho por mais perigoZa a pouqua conta em que os imigos tem a jlha do fayal, que com muita façilidade a entrarão muy pouquos cossarios sem defensa, E sabendo que esta ahy esta fazenda probabelmente a acometterão.
Se Vossa Magestade he servido, que eu arme dous, ou 3. Navios com gente desta çidade, e passe a fazenda as caZas da Alfandega, E AlmaZens della fa lo ey, ou mande ver em que forma a poderey guardar, e do que Vossa Magestade assentar, me mande aviZar com tempo. E mande me Vossa Magestade escrever, que o sirvo muito bem, E ha muitos annos, E sou bem afortunado em seu serviço pella bondade de Deus. Não se me satisfaz dos conselhos com os avizos, e Repostas, que convem ao servisso de Vossa Magestade E assim me he neçessario mandar procurar huma Reposta de huma carta, como se fosse huma grande comenda: Governo me nestas couzas pellos Regimentos dos Reis passados, que Vossa Magestade não tem quebrados, e quando se fizera tudo o que contem Nelles, pode ser que forão as couZas mais a caminho, porque elles frequentavão muito esta Navegação, e tinhão muito pouquas perdas e perigos, e ca onde estou com o pouquo que sei, podera advirtir a Vossa Magestade de alguans [sic] couZas, que se não conseguem, mas não tenho authoridade para tanto. Deus goarde a Catholica, e Real pessoa de Vossa Magestade escrita em Angra da jlha terzeira a 14 de novembro de 1615

Manoel do Canto de Castro

 

 

Citation Information:

Paulo Monteiro,
2003, The Nautical archaeology of the Azores:
O naufrágio da Nossa Senhora da Luz, 1615, Faial, Açores (I), World Wide Web, URL, http://nautarch.tamu.edu/shiplab/, Nautical Archaeology Program, Texas A&M University.