O naufrágio da Nossa Senhora da Luz, 1615 (IV) 

Paulo Monteiro

 

BULHÃO PATO, R (1893) Documentos remettidos da India ou Livro das Monções publicados de Ordem da Classe de Sciencias Moraes, politicas e Bellas-Lettras da Academia Real das Sciencias de Lisboa e sob a direcção de Raymundo Antonio de Bulhão Pato socio da mesma Academia. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias. Tomo IV.


p. 1-2, Documento 787 - 17 de Fevereiro de 1616, Livro 10º, fólio 394

Alvara per que Vossa Magestade ha por bem que o Desembargador Gonçalo Pinto da Fonseca tire devassa do mau concerto que tiveram as naus, que o anno passado partiram de goa para este reino, e de virem sobrecarregadas como acima se contém; e valerá como carta, e não passará pela chancelaria; vai por tres vias.

Por carta de Sua Magestade de 27 de Janeiro de 1616

[Sobrescrito - Por el-rey - Ao viso-rey da India - 2ª via]

Eu el-Rey faço saber aos que este alvara virem que tenho entendido que pelo mau comcerto que tiverão as naus que, o anno passado de seiscentos e quinze, partiram do porto de Goa pera este reino, e por virem sobrecarregadas, em saindo d'aquella barra começaram logo a fazer agoa, o que foi causa de se perderem as naus Capitania e Sam Boaventura, e a Sam Philippe vir mui arriscada, e por esse respeito receber minha fazenda e meus vassallos notavel perda; e porque convem muito a meu serviço saber-se com a consideração necessaria de como se procedeo no concerto e carga das ditas naus, e se ouve culpa de alguem de partirem tarde, hei por bem e mando ao Desembargador Gonçalo Pinto da Fonseca tire devassa na conformidade d'este alvara, sabendo mui particularmente, a causa que houve pera as ditas naus virem sobrecarregadas e tam mal comcertadas, e partirem tarde, e como se procedeo no concerto e carga d'ellas como se refere; e depois de tirada a dita devassa a mande serrada por vias nas primeiras naus que pera este reino partirem d'aquellas partes, dirigida ao Conselho de minha fazenda, pera ver n'elle e prover no caso como mais convier a meu serviço; o que cumprirá sem duvida alguma, por este que valerá como carta e não passará pela chancellaria, o qual vai por tres vias. Francisco de Abreu o fez em Lisboa a xbij de fevereiro de seiscentos e desaseis. Diogo Soares o fez escrever. - Rey : - Luiz da Silva.



p. 370-372, Documento 628 - 6 de Fevereiro de 1616, Livro 9º, fólio 21

[Sobrescrito - Por el-rey - A Dom Jeronymo de Azevedo do seu conselho, viso-rey e capitão-geral do Estado da India. - 3ª via]


Dom Jeronymo de Azevedo, viso-rey amigo, eu el-rey vos envio muito saudar. Vendo a vossa carta feita nos Ilheus Queimados, estando embarcado na armada com que fostes ao Norte, em que me representaes as razões que vos moveram a fazer esta jornada, me pareceram todas mui dignas de ella se emprender, e de vos dar, per o bom modo com que vos dispozestes a isso, agradecimento, como o faço, certificando-vos que o que n'aquella occasião fizestes, se conforma muito com a opinião que de vós tenho, e com a confiança que faço de vosa pessoa. Espero em Nosso Senhor, que haverá sido servido de que fosse de tal effeito para tudo vossa assistencia ao que se pretendia conseguir com a dita armada, que se hajam composto muito como conviesse a meu serviço e a esse Estado, assi as cousas de Cambaia, como as guerras do Melique, para que com isso, postas de parte as dos reys naturaes, possaes converter as forças todas contra os estrangeiros, cujos accommettimentos obrigam a mór cuidado.
E posto que não tive nenhum aviso, por mar nem por terra, do sucesso de vossa jornada; como me escrevestes que mo enviarieis, de crer he que seria elle o que se deseja, e que as cartas que com esta nova haverieis despachado, deixariam de chegar por algum caso dos que costumam acontecer em tão largo caminho; e comtudo não posso deixar de vos dizer, que estou com grande cuidado d'este negocio, como o pede a grande importancia e calidade d'elle.

E porque na mesma carta me daes conta do tempo em que ahi chegaram as tres naus, das cinco de que foi per capitão mór Dom Manuel Coutinho, e o estado em que desembarcou a gente d'ellas, que tudo procede de partirem tarde; como tambem foi causa de se perderem tão desastradamente, camo sabereis, a capitaina do dito Dom Manuel e a nau São Boaventura, não se haverem despachado d'ahi a tempo conveniente; mandei aqui dar precisa ordem aos meus ministros per quem corre o apresto das ditas naus, que vencendo a difficuldade em que per falta das perdidas se achava minha fazenda, pozessem tal diligencia no aviamento das per que recebereis estas vias, que podessem partir na entrada de março, e que isto mesmo se fizesse sempre ao diante, como tenho por certo que se fará, prazendo a Deus: e para que de lá não haja descuido em partirem da volta, a seu devido tempo e quanto mais cedo puder ser, vos encomendo e mando apertadamente, que de tal maneira façaes d'aqui em diante entender no despacho das naus, que em todo o caso saiam d'esse porto, ou de qualquer outro em que carregarem, tomando poucos dias de janeiro, com qualquer carga que até então tiverem, para que assi se atalhem outras semlhantes perdições, como as de Dom Manuel, que teem causado as impossibilidades de minha fazenda, e o damno a meus vassallos e ao commercio d'essas partes, que considerareis, a que convem por todas as vias acudir com remedio efficaz. Escripta em Lsiboa a 6 de fevereiro de 1616. - Rey : - O Arcebispo primás.



Tomo III, p. 411, Documento 659 - 26 de Fevereiro de 1616, Livro 9º, fólio 90

[Sobrescrito - Potr el-rey - A Dom Jeronymo de Azevedo do seu conselho, viso-rey e capitão geral do Estado da India - 3ª via.]

Dom Jeronymo de Azevedo, viso-rey amigo, eu el-rey vos envio muito saudar. Tenho entendido que n'esse Estado houve queixas de se não darem logares nem licenças a muitos soldados velhos, que se vinham despachar a este reino, nas naus da armada de que veio por capitão mór Dom Manuel Coutinho, dando-se a alguns que ficaram n'essas partes que os venderam, e a outros que nas ditas naus vieram, que nunca me serviram; e que se não cumpriram muitas das licenças que deixastes passadas das ditas licenças dos ditos logares, quando fostes ao Norte, por ellas serem em mais cantidade que elles. E porque eu quero ser informado particularmente do que n'isto passou, vos encommendo e encarrego muito que na volta d'estas naus me aviseis d'isso com toda a clareza, para o saber, e mandar prover na materia o que houver por mais meu serviço; e n'estas vias vai provisão minha, por que hei por bem que vós provejaes os gasalhados das dittas naus, sem o vedor da fazenda intervir n'isso, na forma que por ella o vereis, para que, com a executardes, cesse qualquer duvida que no negocio podia offerecer-se. Escripta em Lisboa a 26 de fevereiro de 1616 - Rey : - O Arcebispo primás.

 

 

Citation Information:

Paulo Monteiro,
2003, The Nautical archaeology of the Azores:
O naufrágio da Nossa Senhora da Luz, 1615, Faial, Açores (III), World Wide Web, URL, http://nautarch.tamu.edu/shiplab/, Nautical Archaeology Program, Texas A&M University.