A 24 de Janeiro de 1727, o galeão espanhol Nuestra Señora de las Angustias y San José,
capitaneado por Don Juan Hernandez Arnal, em conserva da armada do Tenente General Antonio Castañeta, largou
ferro do porto de Santa Cruz de Havana, em Cuba. A bordo seguia parte do espólio anual de ouro e prata das
minas de Potosí e do México. O galeão,
A 5 de Fevereiro, um período de mau tempo levou a que o se achasse separado do resto da frota pelas alturas
da latitude do estreito da Flórida. Um pouco antes de atingir as Bermudas, o recrudescer do temporal fez
com que o galeão ficasse sem a cabeça da árvore maior, o mastaréu, as enxárcias
e a roda do leme. Sempre açoitado pelo vento e já na paragem dos Açores, deu-se a queda dos
mastros do traquete e do gurupés, perdendo-se também as respectivas enxárcias e pares - por
esta altura, o galeão avançava apenas à custa da vela principal do mastro grande.
Entretanto, devido à violência do mar, o galeão abriu fendas no cavername e fexz água
aberta. De modo a evitar o afundamento, a tripulação aterrorizada alijou, borda fora, toda a artilharia
e demais objectos pesados tais como as âncoras ou os projécteis de ferro que traziam a bordo. Impelido
inexoravelmente pelo temporal, o Nuestra Señora de las
Angustias e San José foi - talvez devido a um acto de
intercessão da Virgem, a quem os 180 passageiros se dirigiram durante a toda a tormentosa viagem - amainar,
finalmente, à costa sudoeste da ilha das Flores, defronte da Ribeira do Loureiro, a 27 de Fevereiro de 1727.
Perante os pedidos de auxilio, um piloto do porto das Lajes das Flores sobiu a bordo e levou o navio até
à baía defronte da vila, ancorando-o. No entanto, devido à escassez de âncoras, de que
o galeão vinha falto, o mau tempo acabou por fazer derivar o navio para o largo onde acabou por se afundar
com quasi todo o precioso da sua carga.
A fundação da capela
Como reconhecimento pelo milagre divino responsável pela sua salvação, dois passageiros ilustres
do galeão, a senhora D. Francisca Alfonso Mogravelo laço
de La Veiga, viuva de D. Guilherme de Lavelloes Briga Diez, dos Escritos Reaes de el-rei catholico e governador
do real castello de S. Juan de Ulva, espector General da Nova Hespanha;
e o fidalgo D. José Dias de Quitiana, ambos hespanhoes
moradores na cidade de Cadix da provincia d'Andaluzia do reino de Hespanha,
resolveram doar duas mil patacas ao convento de São Boaventura de Santa Cruz das Flores e promover a construção
de uma capela nas Lajes.
A escritura da doação, assinada pelo tabelião Manuel Furtado de Mendonça a 2 de Maio
de 1727 em casa do Capitão Mor Diogo Pimentel de Mesquita, teve como testemunhas o Padre Cura António
Cardoso Fagundes e o Sargento Mor Roberto Pimentel de Mesquita. Os beneficiados foram representados pelo Sargento
Mor da vila de Santa Cruz, João Pimentel de Mesquita, que era simultaneamente síndico do Convento
dos religiosos de São Francisco e pelos padres Frei João da Trindade e Frei Dionísio das Angústias.
Como dotação para a futura capela, dedicada a Nossa Senhora das Angústias, os beneméritos
entregaram imediatamente uma imagem de Nossa Senhora das Dores, que tinha vindo a bordo do galeão naufragado,
e comprometeram-se a fazer vir de Espanha as imagens do arcanjo São Miguel, São Francisco Xavier,
Santo António, São José e São Francisco de Assis. Em contrapartida, os padres aceitantes
da doação comprometeram-se a celebrar quatro missas cantadas todos os anos, uma a 27 de Fevereiro,
em honra de São Leandro, arcebispo de Sevilha, outra no dia do Patriarca São José, outra no
dia de Nossa Senhora das Dores e a última no dia do Príncipe da Milícia, Senhor São
Miguel.
Dois anos depois, em 1729, a capela da Nossa Senhora das Angústias, erigida nas Lajes das Flores, ficou
terminada. A administração desta capela coube desde sempre à família Pimentel de Mesquita,
tendo sido a sua última proprietária Amália de Mesquita Pimentel. Actualmente propriedade
da Câmara Municipal de Lajes das Flores, é possível observá-la do exterior, no pequeno
cemitério da vila. Encontra-se encerrada ao público, ostentando uma enigmática placa, orientada
a norte, onde se pode ler a seguinte inscrição: "DPDMP 1729" - talvez D[?] P[imentel] D[e] M[esquita]
P[?]
A crer em certos autores contemporâneos - citados por Pedro da Silveira - a chegada do galeão espanhol
trouxe não só uma importante soma de dinheiro para as obras religiosas da ilha, como também
o contágio da sífilis. Com efeito, o capitão Georges Foster, que acompanhou Cook na sua viagem
de circum-navegação de 1772 a 1774, refere o facto as mulheres florentinas, obcecadas pelas riquezas
salvadas desembarcadas, terem mantido contactos demasiado íntimos com os tripulantes espanhóis donde resultou uma enorme epidemia em toda
a ilha com as funestas consequências daí advenientes. O que, a ser verdade, e a suceder poucos antes
da celebração do tratado matrimonial entre os infantes portugueses e espanhóis (e que levaria
ao duplo casamento de D. Maria Bárbara, filha de D. João V de Portugal, com o futuro Rei de Espanha,
Fernando VI; e do príncipe D. José com D. Mariana Vitória, filha de Filipe V de Espanha) não
terá sido lá muito simpático da parte espanhola....
Para saber mais:
MACEDO, A.,
1981, História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito
da Horta, vol. I, Fac-símile da edição
de 1871, SREC/DRAC, Porto
SILVEIRA, J.
- 1969, Anais do Município de Lajes das Flores, Anotados por Pedro da Silveira e Jacob Tomaz, Edição da Câmara
Municipal de Lajes das Flores, Lajes das Flores.
- 1990, Variações sobre um relacionamento interrompido: as Índias de Espanha e os Açores, Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo.
- 1995, Os Açores Ocidentais e as Índias de Espanha: algumas marcas, in O Faial e a Periferia Açoriana nos Séculos XV a XIX, Núcleo Cultural da Horta, Maia