No dia 16 de Fevereiro de 1899, dava à costa, no sítio da Quebrada
Nova, na costa oeste da Ilha das Flores, uma embarcação desarvorada, de nacionalidade desconhecida
e, aparentemente, sem tripulação a bordo.
Após ter sido notificada, a Guarda Fiscal - representada pelo 2º Sargento António da Costa e
pelos soldados nº 36, 47 e 51 - dirigiu-se ao sitio do naufrágio, por
caminhos cheios de precipicios e isto ainda quando não chova porque chovendo ficam fechadas as comunicações.
Chegado ao local, o Sargento viu, encalhado à distância
de sessenta metros da rocha, pouco mais ou menos, um navio desarvorado e abandonado, tendo apenas os mastros reaes
pelos quaes se reconhece ter sido armado em galera ou barca, tendo a camara despedaçada em diversas partes,
a casa que serve de cozinha, corrida sobre o mastro de proa e a escotilha grande estampada.
Devido à agitação do mar, o sargento nada mais pode verificar. No entanto, no dia 19, o comandante
da força fiscal usou dos binóculos e aproveitando algumas
jazidas que o tempo deu, pôde ver que o navio se chamava Brillant e pertencia ao porto de Christiansand, na Noruega,
sendo a sua arqueação 733 toneladas. Com efeito,
o nome do navio encontrava-se na proa do lado de bombordo e o nome do porto a que pertencia na popa. O número
de toneladas que o navio arqueava encontrava-se inscrito na escotilha grande, através da qual se viam tábuas de pinho resinoso, de 4 centímetros de espessura.
O salvamento do naufrágio
Da carga do navio naufragado foram retiradas 6.247 vigas e barrotes
de diversas dimensões, 14.459 tábuas de espessura de 15; até 35 mm, 13.347 e 35 até
75 - 1.107, ignorando a quantidade de metros cúbicos contados não só no total como em cada
espécie.
De modo a melhor vigiar a área do naufrágio, para
evitar o mais possível que os objectos arrojados à praia e a carga.... sejam subtraídos, o Sargento Costa tinha debaixo das suas ordens, para além do três
soldados já referidos, um soldado de artilharia, que se achava com licença registada, e um remador
da Alfândega da Horta, ambos requisitados para fazerem serviço - devido à presença dos
quatro elementos da Guarda Fiscal na Quebrada Nova, os postos de Ponta Delgada e da Fajã Grande ficaram
sem vigia.
Para conforto dos seus homens, o sargento mandou construir duas
barracas, uma defronte do navio e outra a meio do rolo da Quebrada Nova, a fim do pessoal, nas suas horas de folga
poder descançar pois que para se ir onde hajam casas que seja em Ponta Delgada quer seja na Fajã
Grande, leva-se mais de duas horas a lá chegar.
No dia 24 de Fevereiro, o navio foi entregue pelo Chefe do Posto de Despacho ao
vice-cônsul de sua Magestade Britânica, nesta Ilha como representante dos donos e seguradores. O casco
e sobressalentes do navio produziram a quantia de a madeira salva, foi vendida por 12.800$00 reis.
Divergências monetárias
Para grande pesar da Guarda Fiscal, mais tarde surgiram questiúnculas quanto ao pagamento a se fazer aos
seus homens. Com efeito, o vice-cônsul prometera ao sargento um pagamento diário de 4.000 reis bem
como a cobertura de outras despesas feitas, tais como a construção das barracas e a sua iluminação,
pelo período de 56 dias em que durou o salvamento do naufrágio.
Assim, só o sargento tinha a haver 44.800 reis, para além dos pagamentos que teriam de ser efectuados
a dois cabos de polícia que tinham ido reforçar o contingente de fiscalização. Para
além da dívida, o sargento tinha ainda contratado um homem durante 14 dias. Este tinha-lhe ensinado
o caminho no dia 16 de Fevereiro, enquanto que no dia seguinte tinha ido a Santa Cruz buscar a correspondência
do paquete que ali tinha aportado e tinha regressado com a mesma a 18 do mesmo mês, situação
que se repetiu ao longo dos meses, pagando o sargento 6.000 reis por cada viagem de ida e volta.
Para além disso, António da Costa tinha assumido toda
a direcção do naufrágio, fiscalização e salvação de 16 a 24, pois
não havia ali empregado algum para a assumir e de 25 em diante a de fiscalização. Para cúmulo, as barracas deixavam entrar
muita chuva por cima por a junça não vedar, nascia-lhe abundância de àgua no solo, sendo
preciso estar de guarda chuva aberto. Como era Inverno, a chuva continuava sempre havendo dias em que estavam fechadas as comunicações
com Ponta Delgada e Fajã Grande.
No entender do 2º Sargento a injustiça era tanto maior já que, até 1 de Março,
só ele e o pessoal debaixo das suas ordens estavam no
local do sinistro, enquanto que o representante do vice-cônsul inglez e outros estavam debaixo de coberta
enxuta, na Povoação da Ponta da Fajã Grande, distante uns nove ou dez kilómetros. Como um azar nunca vem só, na madrugada de 1 de Março, o sargento
acordou com uma violenta pontada no lado esquerdo do peito,
isto devido à àgua que nascia debaixo das barracas apesar destas estarem bem alastradas com queirogas.
Devido à gravidade da sua situação, António da Costa, depois de ter levado um emplastro
sobre a pontada, foi transportado em uma maca para a freguesia
de Ponta Delgada e dali para Santa Cruz, tendo permanecido
acamado até 28 de Março, com uma e duas visitas
médicas por dia e medicamentos.
No entanto, mesmo distante, o Sargento recebia regularmente notas do soldado nº 47 que fora deixado a comandar
a operação de fiscalização. Este comunicava-lhe, além de outras ocorrências
que os cabos de polícia se queriam retirar em vista do
representante do vice-cônsul inglez e outros indivíduos assistentes ao naufrágio, lhe andarem
sempre a dizer que se fossem embora, porque não ganhavam nada e que ninguém lhe pagava só
se fosse o Sargento.
Apesar das notas em contrário enviadas pelo sargento acamado, os cabos da polícia foram-se embora,
de modo a que António da Costa teve de officiar por algumas
vezes ao regedor da parochia de Ponta Delgada e Administrador do Concelho de Santa Cruz, cujas respostas bem davam
a conhecer a pouca vontade de os fornecer.
Desalentado, o 2º Sargento concluía o seu relatório dizendo que o naufrágio só lhe dera bastantes consumissões e ruína da sua saúde e que tinha encontrado bastantes
espinhos no dezempenho do serviço de naufrágio, aonde a seu ver todos desejavam a ausência
da Fiscalização.
Para saber mais:
Livro da Correspondência do Destacamento da Guarda
Fiscal da Ilha das Flores Remetida ao Comando da Companhia
- Assento 1-A, p. 49
- Assento 2-A, p. 49
- Assento 3-A, pp 51 - 53
GOMES, F, 1984
Subsídios para a História da Ilha das Flores, Edição da Câmara Municipal das Lajes das Flores, Horta