As modernas garrafas de vidro,
utilizadas para o armazenamento e transporte de líquidos, tiveram a sua origem
na primeira metade do século XVII, em Inglaterra. Com efeito, foi graças à
alteração do combustível utilizado nas fornalhas dos vidraceiros - de carvão
vegetal para carvão mineral - que se tornou viável a produção do vidro
verde-escuro, de grande resistência e durabilidade.
Este novo tipo de material - provavelmente uma invenção de Sir Kenelm Digby,
por volta de 1630 - suplantou rapidamente a utilização de cerâmica na embalagem
de líquidos de natureza alcoólica (especialmente pelo facto da massificação da
sua produção acarretar uma menorização dos custos de produção). Assim, no final
do século XVII, existiam em Inglaterra 42 vidrarias que produziam, globalmente,
cerca de 3 milhões de garrafas por ano. O sucesso vivido pelos vidraceiros
ingleses incentivou o aparecimento de indústrias similares, um pouco por toda a
Europa.
O comércio naval
Grande parte desta produção era destinada à exportação para os territórios
americanos coloniais. Como era mais rentável expedir os líquidos alcoólicos -
tais como a cerveja, o vinho, a cidra, o gin, o whisky e o brandy - e os não
alcoólicos - como o óleo de castor e o vinagre - a granel, em barris, e não
engarrafados, as garrafas eram geralmente exportadas vazias, sem que fossem
embaladas.
Normalmente, as garrafas eram empilhadas no porão, logo após o embarque da
restante mercadoria transportada, sendo acamadas sobre palha bem seca. No
entanto, a partir da segunda metade do século XVII, assistiu-se ao embarque de
grandes quantidades de líquidos engarrafados, como sucedeu no caso do navio Rising
Sun, que partiu de Inglaterra para a Índia com cerca de 5 mil garrafas de
vinho licoroso, armazenadas em arcas, a bordo. Para além do transporte, as
garrafas desempenhavam simultaneamente um papel fundamental na maturação do
vinho, especialmente na do vinho do Porto.
Para suportar este tipo de transporte, muito demorado, era necessário que o
sistema de rolhamento fosse eficaz, de modo a evitar-se a evaporação do líquido
ou a entrada de ar no interior da garrafa. Como a cortiça se revelou ser um dos
materiais mais eficazes para este efeito, assistiu-se a um desenvolvimento da
indústria corticeira proporcionalmente paralelo ao do da indústria vidraceira.
Assim, as corticeiras portuguesas viram aumentar o escoamento dos seu produto à
medida que aumentava a capacidade de produção de garrafas de vinho.
De modo a evitar a quebra das garrafas e a assegurar a humidade constante das
rolhas - único factor capaz de impedir a boa selagem da garrafa - os navios e
as adegas passaram a apresentar calhas perfuradas, onde as garrafas eram
armazenadas de gargalo para baixo. As rolhas eram, geralmente, atadas através
de fios de cobre, formando-se uma laçada em forma de V que segurava firmemente
a rolha ao lábio do gargalo. Para maior segurança e estanquicidade, as rolhas
eram muitas vezes cobertas com cera, resina ou tecido, podendo mesmo ser lacradas
a chumbo, onde por vezes se gravava o nome do engarrafador e a data.
Cronologia das garrafas
É possível, através do formato do corpo da garrafa e do seu gargalo, criar um
corpo cronológico capaz de as situar no tempo, à semelhança do que foi feito
para as ânforas romanas e gregas. Para este efeito, recorre-se a amostras
provenientes de escavações arqueológicas, tanto terrestres como subaquáticas,
algumas delas ainda seladas e datadas.
Descobriu-se, assim, que o acabamento da garrafa - gargalo, lábio e diâmetro da
boca - era um indicador da sua idade. O mesmo ocorre, em menor grau, com a
forma do corpo principal da garrafa. Neste último caso, verificou-se que as
garrafas apresentavam, até 1730, um corpo globular, em forma de “bolbo de
cebola”, passando, a partir dessa data, a apresentar uma forma cilíndrica. Com
a introdução da forma cilíndrica, assistiu-se à produção de três tipos de
garrafa, que diferiam quanto à sua capacidade: 1155, 1136 ou 946 mililitros.
Graças a estes indicadores e a um conjunto de cerca de 2 dezenas de medidas
executadas sobre a garrafa, é possível datar, com uma certeza de 95%, garrafas
inteiras com uma margem de erro de 32 anos, ou fragmentos de gargalos, com uma
margem de erro de 64 anos (por exemplo, no decorrer da prospecção prévia à
construção do Porto de Recreio de Angra, foi recuperada uma garrafa intacta, a
que foi atribuído o registo nº A103. O artefacto em causa apresenta uma forma
globular, típica de garrafas anteriores a 1730, sendo muito provavelmente de
origem inglesa. No seu interior encontra-se uma rolha de cortiça o que leva a
crer que a garrafa foi perdida ainda cheia. À volta do gargalo, nota-se a
existência de um invólucro que serviu para a lacragem da rolha. Pelos dados
obtidos através da medição das diferentes partes da garrafa, calculou-se que a
mesma data da última metade do século XVII, muito provavelmente de 1670 -
1690).
Para saber mais:
HUME, I. 1970, A Guide to Artifacts of Colonial America,
Alfred A. Knopf, New York
JONES, O. 1986, Cylindrical English Wine & Beer
Bottles, 1735 - 1850, National Historic Parks and Sites Branch,
Environment Canada Parks, Ottawa
MORGAN, R. 1976, Sealed Bottles: their history and
evolution (1630 - 1930) , Midlands Antique Bottle Publishing,
Burton-on-Trent
ROBERTSON, W. 1976, A Quantitive Morphological Study of the
Evolution of Some Post-Medieval Wine Bottles, in Science and Archaeology,
nº 17, pp. 13 - 20
ZUPKO, R. 1977, British Weights and Measures: A History
from Antiquity to the Seventeenth Century, University of Wisconsin Press,
Madison