A de Janeiro de 1796, a fragata
francesa l' Astrée, impelida pelo mau tempo aproximou-se perigosamente
da costa da ilha do Pico. A viagem tinha tido início a 1 de Janeiro de 1796, em
Guadalupe, nas Antilhas Francesas, com um carregamento de café e de açúcar
destinado aos mercados da metrópole e, a bordo, os 180 marinheiros, passageiros
e soldados de marinha estavam desesperados - há já vários dias e noites que as
5 bombas do navio mal conseguiam esgotar a água que não cessava de subir nos
porões.
O peso das 18 peças de artilharia que a fragata embarcava - 2 peças de calibre
12, doze de calibre 6 e quatro canhoens piquenos - em nada ajudavam à
flutuação do navio, o que levou a tripulação a lançar borda fora a maior parte
da artilharia, à excepção de dois canhões de calibre 6. Aflitos, os quase
náufragos continuamente pediram socorro, atirando muitas pessas de
artilharia da parte do mar; mas a braveza deste neste dia, não permettio que
saíssem barcos, athé que emfim furão dar à Costa naquelle lugar - entre o
afogamento inevitável em mar alto e a salvação provável na costa, a tripulação
decide lançar a fragata de encontro à costa da ilha.
No dia seguinte o Juiz de Fora da ilha do Pico, Luiz Correia Teixeira Bragança,
juntamente com o seu escrivão, Joaquim José da Rosa, chegaram ao sítio de Santo
Amaro onde constataram que a Fragata se tinha feito em pedaços e que o mar
(por ser neste Sitio o tempo muito tromentoso) logo levou consigo a mayor parte
da dita Fragata deixando unicamente hum grande monte de Cabos e algumas vellas
envoltas com huns bocados de mastros.
Entre estes destroços, flutuavam os corpos mortos dos infelizes que se tinham
afogado, num total de 123 pessoas. Os cadáveres deram à costa da ilha do Pico
durante vários dias e, entre eles contavam-se os do capitão da fragata,
Monsieur Darbon, quatro oficiais, dois aspirantes e o General Chevron, antigo
Governador da ilha de Santo Eustáquio, que recolhia a França, depois de ter sido
estropiado na guerra. Entre os 57 sobreviventes, que tinham conseguido
salvar-se em hum dos Escaleres da Fragata, contavam-se 7 ingleses que vinham por
prisioneiros de guerra a bordo da fragata.
Imediatamente, o Juiz fez enviar os sobreviventes para a vizinha ilha do Faial,
onde melhor oportunidade teriam de arranjar transporte para o continente
europeu. Fez também enterrar os mortos, para evitar algum contágio. Juntamente
com os sobreviventes, seguiram as malas que se puderam salvar do naufrágio, bem
como a documentação diplomática da Convenção francesa. No Faial, os ingleses
foram entregues ao seu Cônsul.
O salvamento
De pronto, o Juiz de Fora iniciou o armazenamento dos destroços arrojados à
costa e desencadeou mesmo várias tentativas de recuperação dos bens submersos
no casco soçobrado porque se tem visto muitas couzas no fundo do mar, athé
o fundo do casco da Fragata, com a primeira coberta aonde faço tenção de mandar
mergulhadores para ver se encontro alguma couza de valor. Todos os custos
destas acções foram suportados pela Fazenda Real que foi compensada, mais
tarde, pela venda em hasta pública dos destroços.
Entre os salvados encontravam-se parte da carga, tal como 2 barricas de
Café e huma barrica grande que servio de assucar bem como pertences
pessoais dos tripulantes tais como uma arca encourada que vinha aberta,
quebrada em hum canto, um caixam piqueno com dois fiadores de espada ambos de
ouro, uma bengalla de Cana da India e hum piqueno Castram de ouro francez e a
ponteira de prata, humas arecadas de ouro, que trazia um dos afogados, mais em
dinheiro duas pathacas francezas e tres moedas pequenas de prata, mais dois
fiadores de ouro que se acharam num Caixam, huma Biblia Ingleza, mais outro
livro tambem Inglez, que tem por titulo Cartas de Abelaro e Heluiza, mais hum
piqueno livro tambem Inglez, que mostra ser de Oraçõens cotidianas.
Foram recuperados também elementos do próprio navio em que avultavam 29
arrobas de Cobre do Forro da Fragata, 2 cabeças de bombas de bronze, 2 Femias
de bronze do leme, 1 pasta de Chumbo que pezou cinco arrobas, huma pessa de
artilharia de bronze, vinte moitoens que ainda podem servir, 2 espingardas
quebradas, huma pistola ordinaria, bem como vários cabos, amarras, velas e
estopa.
Seis meses mais tarde, os náufragos franceses embarcaram a bordo da frota do
Brasil após terem sido mantidos em represália, ou seja, sob a guarda
do Comandante Militar do Faial e sem que pudessem ter contacto directo com os
faialenses. No entanto, apesar do Juiz de Fora não saber o que devia fazer daquelles
Francezes e como os deve tratar, se como simples naufragantes ou como
prizioneiros de guerra, tanto mais que Portugal se encontrava aliado com a
Espanha em guerra contra a França. É de salientar, contudo, que durante meio
ano os prisioneiros foram tratados humanamente, à custa da Fazenda Real até ao
seu repatriamento.
Para saber mais, estão transcritos abaixo:
-Officio dos Governadores interinos d'Angra ao Ministro do Reino, sobre o
naufragio d'uma fragata francesa; 26 de Março de 1796 in Arquivo dos Açores,
vol. IX, Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 1982
-Officio dos Governadores interinos d'Angra ao Ministro do Reino, sobre
corsários francezes; 7 de Julho de 1796 in Arquivo dos Açores, vol. IX,
Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 1982
-Carta do Juiz de Fora da Ilha do Pico para os Governadores interinos d'Angra,
sobre o naufrágio da fragata francesa Astrea; 28 de Fevereiro de 1796,
Correspondência do Juiz de Fora da Ilha do Pico, Capitania Geral dos Açores,
BPADAH
-Treslado dos Autos de Inventário a que mandou proceder o Doutor Luiz Correia
Teixeira Bragança Juiz de fora em toda esta Ilha do Pico na ocaziam do Naufrágio
da fragata franceza, que deu à Costa neste lugar de Santo Amaro, 5 de Julho de
1796, Correspondência do Juiz de Fora da Ilha do Pico, Capitania Geral dos
Açores, BPADAH