L' AstrÚe IV 

Paulo Monteiro

 

Correspondŕncia do Juiz de Fora da Ilha do Pico
Capitania Geral dos Ašores, BPADAH


1796

[└ margem] Respondida em 21 de Maršo de 1796


Excelentissimo e Reverendissimo Senhor, e Illustrissimo Senhor

No dia 16 do corrente, partesipei a Vossas Excellencia, e Senhoria, por hum Proprio, que inviei ß Villa do Topo de Sam Jorje / como ponto de aonde sai frequentemente barcos para essa Cidade / que no dia 29 de Janeiro passado, Naufragou na Costa do Norte desta Ilha, junto a hum lugar chamado de Santo Amaro, do termo desta Villa, huma Fragata Franceza denominada Astrea, que vinha da Ilha Guadelupe, para Franša, carregada de asucar, e cafÚ da Convenša§, trazendo 18 pešas dĺ artilharia de guarniša§, e 180 pessoas: Mas como ainda na§ terß saido daquelle porto algum barco, e tenho noticia que ßmanhŃ hade passar hum da Ilha do Fayal, para essa Cidade; vou novamente partesipar esta noticia a Vossa Excellencia Reverendissima, e Senhoria para que se dignem dar as providencias necessarias sobre este na§ experado acontesimento.

De toda aquella gente somente se salvara§ 57 pessoas; a saber 7 Inglezes, de 12 que vinha§ na Fragata como prizioneiros de guerra; e 50 Franezes; tudo Marinheiros, e alguns officiais de manobra; morrendo 123, entre os quais foi, o cappitam chamado Darbon, 4 officiais, dous Aspirantes, e athe hum General, chamado Chevron, que tinha sido governador da Ilha de Santo Eustaquio, e se recolhia para Franša estrupiado na guerra.

Procurara§ estas Ilhas, por trazerem agua aberta; que na§ podia§ vedar com sinco bombas, em que trabalhara§ de noute e dia, e com effeito depois que se avistou a Fragata athe a ocazia§ do seo Naufragio, continuamente pedira§ secorro, atirando muitas pessas de Artilharia da parte do mar, mas a braveza deste, nesse dia, na§ permettio que saissem barcos, athe que emfim fora§ dar ß Costa naquelle lugar, Cuja relaša§ mais indevidualmente refiro no sobredito primeiro officio.

No dia seguinte ao do Naufragio fui ao sitio delle, com hum Escrivam do meo cargo, para ver, e examinar O sucesso, e p˘r em boa arrecadaša§, e deposito, tudo aquillo, que se salvasse: Se bem que pouco tenha saido; a excepša§ de alguma madeira, vellas, Cabos, e ferragem, e algum cobre de que a Fragata hera forrada, que tudo fis p˘r em boa arrecadaša§, que se encontrou no meio de hum monte de vellas, e cabos que a forša do mar arrojou sobre humas Roxas. Tambem encontrei varios papeis para a Convenša§, os quais Logo remeti para a Secretaria de Estado dos Negocios do Reino, excepto alguns de que vinha§ dous exemplares hum dos quais enviei a Vossa Excellencia e Senhoria, com a dita primeira carta.

Fis logo enterrar os mortos, por evitar algum contagio; e depois de dßr as providencias, que me paresera§ necessarias, para se p˘r a Salvo tudo aquillo, que pudese sahir; recolhime para esta Villa, para onde fis conduzir os Francezes, que se salvara§; porque os Inglezes logo partira§ para o Seo consul do Fayal dos quais me remeteo recibo

Por espašo de des dias, que aqui se demorara§, trateios com homanidade, sem os meter em priza§ / e ainda que o quisesse fazer na§ hß nesta Villa cadeas, porque se demolira§, (palavra ilegÝvel) inteiramente / e contribuilhe o seu necessario sustento, quazi tudo ß minha custa, athe emfim vendo que elles na§ podia§ subsestir nesta Ilha, pela falta que hß nella dos generos da primeira necessidade; estive para os remeter para essa Capital, para que Vossa Excelencia e Senhoria determinassem a respeito delles, o que bem Reparasese, chegando a ter barco prompto para esse fim: Mas como o tempo se mudou, e elles tinha§ dado alguns indicios de que se atreveria§ a tentar a viagem, de Cadix, dispois que se virem no mßr Largo, em hum barco grande, principalmente se nelle forem os papeis que se salvßra§; resolvi-me a mandalos para o Fayal, com hum Precatorio derigido ao Doutor Juiz de fora daquella Ilha, para que nella os conservasse athe a ordem de Sua Magestade, ou de Vossas Excelencia e Senhoria, com aquella Siguranša, que lhe parecesse necessaria ß vista do estado de guerra, aonde fica§ como consta da sua resposta

Consta-me que se acha§ naquella Ilha em sua Liberdade, Somente com prohibiša§ de poderem della sahir para fora, e que lhe estß contribuindo com o necessÓrio sustento, e vestido, Vergio Pereira Ribeiro, Consul que foi da Franša, ainda que agora o na§ fßs como tal, porque deixou de o ser dipois da revoluša§ athe o prezente.

He o que se me offereše dizer a Vossas Excelencia e Senhoria Sobre este acontecimento: E pedir-lhes que se dignem determinar-me, o que devo fazer, do que se tem salvado, e ainda poderß salvar-se, porque me dizem que se tem visto muitas couzas no fundo do mar, e athe o fundo do casco da Fragata, com a primeira coberta, aonde Faso tenša§ de mandar mergulhadores para ver se encontra§ alguma couza de valor. Como tambem ao Doutor Juiz de Fora do Fayal o que deve fazer daquelles francezes e como os deve tratar, se como simples naufragantes ou como prizioneiros de guerra. Deos Guarde as Pessoas de Vossa Excelencia Reverendissima e Senhoria. Villa de Sam Roque do Pico 28 de Fevereiro de 1796

O Juiz de Fora da Ilha do Pico