O naufrágio do Lakeside Bridge (1920) 

Paulo Monteiro

 

Na noite de Natal de 1920, ao largo dos Açores, a tripulação do vapor americano Lakeside Bridge constatou horrorizada que, debaixo de grande temporal, o navio tinha perdido o hélice. Impotente para se mover pelos seus próprios meios e impelido pelas grandes vagas características das nossas ilhas atlânticas, o vapor acabou por ir dar à costa da Terra do Pão, na ilha do Pico.

Façamos um retrocesso no tempo e desloquemo-nos até Setembro de 1917, mês em que o governo americano lançou um esforço titânico no sentido de se criar uma linha de montagem de navios mercantes, uma linha capaz de contribuir para o esforço da guerra que então se vivia e que exigia, cada vez mais, o transporte de pessoas, material e equipamento entre o continente norte-americano e o europeu.

Neste programa, foi adjudicada à Submarine Boat Corporation a construção dos estaleiros da United States Shipping Board Emmergency Fleet Corporation. Assim que foi terminada, em poucos meses, a nóvel companhia iniciou a montagem em série de navios pré-fabricados em que custo unitário de cada embarcação estava contratualizado em US$960.000.

Após o Armisticio da Primeira Guerra Mundial, o estaleiro de Newark Bay continou a produção, lançando à água, no mês de Outubro de 1919, o seu 817º casco - de todos os navios construídos pela Submarine Boat, este interessa-nos particularmente, já que o navio que dele saíu acabou os seus dias na Terra do Pão, ilha do Pico.

O Lakeside Bridge

Erigido no estaleiro nº 83 a partir de 20 de Junho de 1919, a quilha do casco EFC 817 foi colocada no dia 26 do mesmo mês. Originalmente destinado a chamar-se Kahnah, o vapor acabou por assumir o nome de Lakeside Bridge, sendo lançado à água a 31 de Outubro de 1919. Entregue à Shipping Board a 22 de Dezembro de 1919, o Lakeside Bridge - que arqueava 3.545 toneladas brutas - foi atribuido à rota de comércio Estados Unidos-França, sob pavilhão do armador Alexander Sprunt & Son.

A sua viagem inaugural, iniciada em Janeiro de 1920 com destino a Liverpool, foi marcada por alguns dissabores - com efeito, após encontrar uma tempestade a meio do Atlântico, o Lakeside Bridge sofreu uma ruptura numa canalização de óleo. O óleo que se derramou inundou algumas das anteparas do porão, provocando grandes estragos (no valor de US$2.000), na carga embarcada.

Transferido para a firma Robert Hasler & Company, o Lakeside Bridge foi inspeccionado, na doca seca de Newport News, a 27 de Setembro de 1920, por G. J. Anderson, do American Bureau of Shipping. Na inspecção, não só foram detectados cerca de 50 rebites defeituosos, que deixavam entrar água para o interior do vapor, como também se verificou que o veio do parafuso do hélice estava um pouco frouxo, apresentando-se a rosca desgastada em cerca de 3/32 de polegada. O inspector Anderson atribuiu, mesmo assim, um certificado de navegabilidade ao vapor, recomendando no entanto que os rebites defeituosos fossem substituidos e que o protector do hélice fosse removido de modo a se poder consolidar a sua fixação.

Após a sua partida da doca seca, o vapor foi colocado sob as ordens da firma Lykes Brothers & Company, navegando de Norfolk para Bremerhaven, na Alemanha, de onde partiu, a 16 de Dezembro de 1920, de regresso aos os Estados Unidos, mais precisamente para Galveston, Texas.

O naufrágio

Como já vimos, de 25 para 26 de Dezembro de 1920, o Lakeside Bridge de 3.200 toneladas e 39 tripulantes encalhou no sitio denominado Janela, na costa da Terra do Pão, ilha do Pico.
Os habitantes da localidade proxima do local do sinistro, em conjunção com o vapor Awendsaw que veio em socorro do barco sinistrado, conseguiram salvar toda a tripulação. Por ter sofrido logo grandes rombos que o inutilizaram por completo de navegar, o navio foi dado como completamente perdido.

A bordo permaneceu, até 30 de Dezembro, sozinho, o capitão W. M. Atkinson. Do navio, que vinha em lastro de areia, foram sendo salvos muitos objectos - mobilia, louça, roupas, medicamentos, conservas, fructas, etc., salvados esses que causaram grandes tentações nos picoenses - tendo mesmo de partir da ilha do Faial, a requisição da Shipping Board, uma força da Guarda Republicana, para evitar que fossem roubados.

Na noite de 2 de Janeiro o mar partiu, avante da ponte de comando, o vapor em duas metades, que prontamente se submergiram. Dois dias depois, a 4 de Janeiro de 1921, o Chefe do Posto de Despacho de 1ª Classe das Lages do Pico, o 2º Sargento José António de Oliveira, convidava todos os interessados a fazer as suas reclamações no prazo legal, no sentido de se arrematar os restos do Lakeside Bridge.

Alguns dias depois, o vapor Andalusia – alemão de origem, recebido pela Shipping Board como compensação de guerra e vendido por esta à firma Atlantic Adriatic Steamship Company – fez o repatriamento da tripulação para os Estados Unidos.


(Curiosamente, a maior parte dos tripulantes do Lakeside Bridge moveu uma acção contra a Shipping Board, alegando ter perdido os seus pertences pessoais no naufrágio, mas a instituição nunca lhes pagou, contra-alegando que não era da sua responsabilidade cobrir os prejuízos resultantes da negligência da própria tripulação.)


Para saber mais:

GOLDBERG, M. (1994) The Shipping Board’s “Agency Ships”: Part I – The “Sub Boats”. American Merchant Marine Museum, American Merchant Marine History Series, vol. IV.
Jornal A Democracia- 30 de Dezembro de 1920, 2ª série, nº 1343;
- 8 de Janeiro de 1921, 2ª série, nº 1347;
- 13 de Janeiro de 1921, 2ª série, nº 1349
- 20 de Janeiro de 1921, 2ª série, nº 1352