A HMS Pallas, um navio experimental 

Paulo Monteiro

 

A 2 de Fevereiro de 1747, três navios de linha da Royal Navy capturaram o navio corsário francês Bellone. O corsário, apesar de estar armado apenas com 26 canhões e 12 berços de defesa anti-pessoal, contava com uma tripulação de 340 homens e com características de navegação verdadeiramente revolucionárias. Extremamente ágil e muito veleiro, o Bellone foi examinado pelos seus captores e engajado na Marinha Real Inglesa, entrando ao serviço a 8 de Abril do mesmo, sob o nome Bellona (mas, desta vez, armando 30 canhões).

Poucos meses mais tarde, a 5 de Maio de 1747, foi capturado pelo HMS Gloucester um outro corsário francês, o Deux Couronnes, de 639 toneladas. Mais uma vez, o navio capturado entrou ao serviço da Royal Navy a 29 de Maio, sob o nome de Ranger.

Como as linhas de desenho dos navios corsários capturados proporcionavam-lhes qualidades marinheiras tão notáveis que os supervisores ingleses que os examinaram resolveram não ter pudor algum em copiar a sua construção, dando origem assim a navios ligeiros, pouco armados, sem um verdadeiro convés onde jogava a artilharia. Assim, o corsário francês de 26 canhões Tyger, capturado a 22 de Fevereiro de 1747, veio a fornecer os planos para as primeiras fragatas inglesas, a Unicorn e a Lyme, ambas de 24 canhões - uma fragata legítima montava as suas peças no convés superior, não armando o porão interior que ficava, muitas vezes, abaixo da linha de água.

A Pallas, um navio experimental

Arqueologicamente falando, o naufrágio de um navio do século XVIII não é muito relevante, como é o caso do da fragata inglesa HMS Pallas, encalhada em Fevereiro de 1783, na baía da Calheta, ilha de São Jorge. No entanto, o caso muda de figura quando se trata do naufrágio de um navio experimental, um dos precursores de uma classe extremamente bem sucedida de navios de guerra. Com efeito, a Pallas foi a primeira embarcação de um novo tipo - o das fragatas que armavam 36 canhões. Quando foi construída deu origem às fragatas da classe Pallas.

Desta classe foram construídas, com os mesmos planos, mais duas fragatas: a HMS Brilliant e a HMS Venus. O seu desenho foi influenciado por dois navios capturados aos franceses: o corsário Tygre, já mencionado e a primeira verdadeira fragata francesa a ser tomada, ainda durante a guerra de 1739-48, a Embuscade (armava de 40 canhões e tinha 760 toneladas de arqueação e 132 pés de comprimento no convés; entrou ao serviço da Royal Navy sob o nome de Ambuscade, sendo classificada como um navio de linha na classe dos de 44 canhões).

No entanto, como classe experimental que era, a linha Pallas sofria de alguns defeitos que foram sendo corrigidos ao longo do período de vida útil das fragatas. Entre os defeitos mais graves encontrava-se a disposição das bombas, com a cisterna localizada no convés inferior. Tal tornava praticamente impossível a descarga da água, se o navio adornasse com o vento para qualquer bordo, já que esse convés, a meia nau, estava à linha da água. Para além disso, os seus cabos trabalhavam a partir do convés inferior, com cabrestantes dispostos em ambos os conveses principais, o que muito dificultava a manobra do navio.

A sorte das três fragatas foi muito diferente: a Brilliant foi vendido em 1776, já em tempo de paz, a Pallas encalhou em São Jorge e a Venus saiu de serviço em 1817, sendo desmantelada.

Pode-se dizer que a classe das fragatas de 36 canhões não foi muito feliz, já que desde 1757 até 1780, não mais se construíram navios deste tipo e os que se fizeram a partir de 1780, receberam canhões de 18 libras, ao invés dos de 12 libras armados pela classe Pallas (a razão deste insucesso terá sido o facto de as fragatas de 720 toneladas, oferecerem apenas 4 canhões de 6 libras a mais do que a classe de 32, com 670 toneladas, o que levava a que um navio mais pequeno, logo mais barato, pudesse fazer o mesmo trabalho que os navios de 36 canhões, mais caros).

O revestimento em cobre

O que torna igualmente interessante o naufrágio da Pallas é o facto de também ela ter sido experimentalmente revestida a cobre. Com efeito, o cobre era usado para manter os cascos dos navios relativamente livres de algas, logo mais rápidos e, acessoriamente, para protegê-los contra o teredo, o invertebrado marinho responsável pela destruição das madeiras do casco dos navios.

Até então, o forro exterior era feito com uma camada fina de madeira, sacrificial, por sobre uma camada de breu e de pêlo animal. Em meados do século XVIII, as primeiras experiências de revestimento das obras vivas de um navio por folha de cobre foram feitas na fragata Alarm, logo após a Guerra dos Sete Anos. Depois de dois anos de serviço nas Caraíbas, a Alarm foi examinada, descobrindo-se pela primeira vez que o problema da corrosão galvânica - os pregos de ferro do navio estavam corroídos pela acção do cobre do forro, com todos os perigos estruturais que isso implicava. A forragem de cobre foi, assim, abandonada.

No entanto, em 1775, a chegada a Inglaterra da chalupa Hawke, depois de uma viagem de 5 anos e evidenciando poucos problemas de corrosão (as cabeças dos pregos em ferro tinham sido cobertas por chumbo) levou a que o Almirantado renovasse o seu interesse pelo revestimento de cobre. Assim, no final de 1776, um navio de 32 canhões, quatro de 20 e uma chalupa tinha sido protegidos por cobre, sendo o casco primeiramente pintado com uma mistura de óxidos de chumbo e óleo de linhaça, ficando os terços de cobre fixados ao casco por pregos de liga cúprica.

Uma primeira tentativa de resolver o problema da corrosão galvânica, feita com o recurso a pregos de uma liga de cobre, zinco e ferro, fabricados por James Keir e Matthew Boulton, mostrou-se ineficaz. No entanto, a descoberta de que uma camada de papel, inserida entre os terços de cobre e o casco, servia para os proteger da corrosão galvânica levou a que, a partir de Maio de 1778, todos os navios abaixo de 32 canhões fossem cobertos por cobre verificando-se o mesmo, a partir de Julho, para todos os navios abaixo de 44 (em Janeiro de 1782, oitenta e dois navios de linha, quatorze de 50, cento e quinze fragatas e cento e duas chalupas estavam protegidos por cobre). No entanto, em Setembro de 1782, os navios franceses Ville de Paris (110 canhões) e Glorieux (74) bem como os britânicos Ramillies (74) e Centaur (74) afundaram-se numa tempestade ao largo dos Bancos da Terranova, causando 3500 mortos. A causa principal da tragédia que atingiu os navio ingleses parece ter sido a corrosão galvânica (simultaneamente, já desde 1782 que se tinha verificado que a folha de cobre não protegia suficientemente bem os navios contra o teredo).

No seguimento desse desastre, uma inspecção feita a três navios de 74 canhões, realizada em Julho de 1783, revelou que todos eles tinham as suas cavilhas em ferro muito corroídas. A partir dessa altura, o Almirantado resolveu suspender a cobertura em cobre dos navio.

Os problemas resultantes da corrosão galvânica só foram ultrapassados em Dezembro de 1783, por William Forbes e Thomas Williams que aperfeiçoaram cavilhas feitas de uma liga de cobre e zinco, suficientemente fortes para serem usadas na construção naval. As cavilhas, que só entraram em serviço em Agosto de 1786, chegaram tarde demais para a Pallas que, assolada pelo teredo e muito provavelmente com a maioria do seu tabuado solto pela corrosão das cavilhas que o seguravam, se viu obrigada a encalhar na Calheta para não se afundar em pleno Oceano.


Para saber mais:

GARDINER, R.
- (1975) – The First English Frigates. In The Mariner’s Mirror, 61:2. London: Society for Nautical Research, pp 163–172.
- (1977) – The Frigate Designs of 1755–57. In The Mariner’s Mirror, 63:1. London: Society for Nautical Research, pp 39–69.
- (1992) – The First Frigates: Nine-pounder & Twelve–pounder Frigates 1748–1815. London: Conway Maritime Press.
HEPPER, D. (1994) – British Warship Losses in the Age of Sail: 1650-1859. Paris: Jean Boudriot Publications.
KNIGHT, R. (1973) – The Introduction of Copper Sheathing into the Royal Navy, 1779-1786. In The Mariner’s Mirror, 59:3. London: Society for Nautical Research, pp 299–309.
SYRETT, D. (1976) – The Organization of British Trade Convoys During the American War, 1775-83. In The Mariner’s Mirror, 62:2. London: Society for Nautical Research, pp 169–181.
WEBB, P. (1996) – The Frigate Situation of the Royal Navy 1793–1815. In The Mariner’s Mirror, 82:1. London: Society for Nautical Research, pp 28–40.