Os destroços de ANGRA B 

Paulo Monteiro

 

Dos seis naufrágios detectados até agora no interior da baía de Angra, há um que se destaca pela sua fácil acessibilidade e pela importância dos seus vestígios. Trata-se do naufrágio não identificado, denominado ANGRA B, que poderá datar de inícios do século XVII, localizado junto ao cais da Figueirinha, e submerso a cerca de 5 metros de profundidade. Deste naufrágio, encontra-se apenas visível um aglomerado de pedras de lastro, com 15 metros de comprimento e 11 de largura. Do outro lado do recife, mais norte, encontra-se um outro aglomerado de pedras de lastro de menores dimensões, o que leva a supor que o navio tenha embatido no referido recife e se tenha partido em dois.

Por debaixo das pedras de lastro, encontram-se os restos do casco, onde se observam parte da quilha e um dos lados do navio, incluindo-se nestes destroços cavernas, tabuado interior e tabuado exterior. O naufrágio está orientado na direcção norte-sul e o seu elemento mais visível é a quilha. No seu extremo noroeste encontra-se uma pequena peça de artilharia de ferro, com cerca 1 metro de comprimento. Por entre as pedras de lastro, encontram-se expostos alguns artefactos, entre os quais destacamos vários fragmentos de cerâmica e várias balas de mosquete, em chumbo, pertencendo estas, aparentemente, a dois calibres diferentes de arma de fogo.

Um navio revestido a chumbo

Os restos da quilha medem cerca de 15 metros de comprimento, com 27 cm de altura e 17 cm de largura. Esta estrutura, devido à espessa camada de óxidos de chumbo que a recobre, aparenta ter sido recoberta por placas deste metal. Tal evidência è corroborada pela presença de várias destas placas perfuradas, encontrando-se mesmo, junto a elas, os pequenos pregos de bronze que as uniam à quilha, com cerca de 3 cm de comprimento e 0.4 cm de secção.

A prática de recobrir o exterior dos navios com folha de chumbo foi despistada até ao século IV AC, após ter sido confirmada na escavação do barco de Kyrenia. A sua utilização primária parece ter sido a de servir para garantir a estanquicidade das embarcações, como aliás a sua existência nas embarcações romanas lacustres de Nemi o prova. Só a partir do século XV se passou a sentir necessidade de se proteger a madeira dos navios contra a acção dos vermes xilófagos de águas quentes, nomeadamente do Teredo navalis.

A mais antiga referência que há quanto ao uso de revestimento de chumbo para protecção de cascos data de 1513, em que é emanada uma ordem real para que as caravelas espanholas com destino ao Novo Mundo fossem revestidas com chumbo, de modo a se prevenir o ataque do gusano. Esta prática circunscreveu-se praticamente à construção naval ibérica, salientando-se a propósito a recente escavação da nau Nossa Senhora dos Mártires, em que o local do naufrágio - São Julião da Barra - se encontra atapetado com centenas e centenas de placas de chumbo, quer de revestimento, quer de ligação.

Apesar de ser um metal relativamente barato, comum e de possuir boas propriedades metalúrgicas, o chumbo apresentava, do ponto de vista náutico, duas grandes desvantagens: aumentava espantosamente a resistência das naus ao andamento e era de uma grande fragilidade, soltando-se muito facilmente as folhas do casco, com as previsíveis consequências.

O esqueleto do navio

Na extremidade sul do naufrágio são regularmente expostas, pelo movimentos aluvionares, as extremidades de 10 cavernas que, por esse mesmo facto, se encontram parcialmente erodidas, especialmente junto à sua união com a quilha. Em média, as cavernas têm um largura de 13 a 25 cm e uma altura que ronda os 20 cm, estando espaçadas entre si de cerca de 40 cm. Aparentemente, estas peças eram ligadas por cavilhas de ferro, de secção quadrada de 1 cm, que se encontram agora desaparecidas. No entanto, a sua corrosão deixou impressas na madeira do casco as cavidades por elas ocupadas inicialmente.

O tabuado interior remanescente - onde assentava a carga e o lastro - é composto por pranchas com cerca de 26 cm de largura e 5 cm de espessura. Curiosamente, verificou-se que estas tábuas eram ligadas às cavernas através de cavilhas de ferro e de madeira. A ligação com cavilhas de madeira é assaz rara, havendo apenas um paralelo arqueológico no naufrágio espanhol, datado do início do século XVI, de Molasses Reef. Paralelamente às pranchas de tabuado interior foi detectada, igualmente, a presença de duas escoas - peças paralelas à quilha e que conferiam resistência longitudinal ao casco - com um espessura que variava entre 11.5 e 19 cm.

Quanto às pranchas de tabuado exterior - que constituíam os lados do navio e que estavam em contacto com a água do mar - possuíam uma espessura aproximada de cerca de 27 cm e uma espessura média de 5 cm, sendo muito similares, portanto, às pranchas internas. Aparentemente, estas peças eram ligadas às cavernas através 2 ou 3 cavilhas de ferro e 1 de madeira - uma forma de união comum das práticas navais dos séculos XVI e XVII. As cavilhas de madeira possuíam um diâmetro médio de 2.5 cm.

Lastro primário e secundário

Um dos aspectos mais interessantes deste naufrágio é precisamente a sua característica mais visível: o monte de lastro. Com efeito, após uma inspecção mais cuidada, nota-se que existem dois tipos de pedra de lastro: o normal, composto por blocos soltos, mais ou menos arredondados, de granito e calcário; e o consolidado, que se encontra por debaixo da primeira. Aparentemente, estamos em presença de um lastro primário - instalado aquando do lançamento do navio à água, tendo sido deitada, entre as cavernas, uma mistura liquida de areia, cal e gravilha que endureceu depois e foi, posteriormente, coberta pelas tábuas interiores - e por um lastro secundário, de menor dimensão que o habitual, o que tinha como vantagem o de se poder transportar mais carga no mesmo espaço, já que tinham sido aproveitados os espaços mortos entre cavernas para o equilíbrio do navio.

Esta característica parece apontar para se estar em presença de um navio espanhol, construído algures na Biscaia. Existem, quanto a este fenómeno, dois paralelismos arqueológicos: os naufrágios do Nuestra Señora de Atocha (1620) e do Nuestra Señora de Santa Margarita (1622). As dimensões do navio apontam, também, para uma embarcação de pequeno a médio porte, muito provavelmente situada dentro da categoria dos patachos.


Para saber mais:

CRISMAN, K & JORDAN, B. 1996, The Lead-Sheated Wreck at Porto Novo - a preliminary report, Institute of Nautical Archaeology, College Station
HAWKINS, R. 1933, The Observations of Sir Richard Hawkins, The Argonaut Press, Londres
L’ HOUR, M., LONG, L. & RIETH, E. 1989 The wreck of an ‘experimental’ ship of the ‘Oostindische Companie’: The Mauritius (1609), The International Journal of Nautical Archaeology and Underwater Exploration (1989) 19.1: 65
McKEE, E. 1976, Identification of timbers from old ships of north-western European origin, The International Journal of Nautical Archaeology and Underwater Exploration (1976) 5.1: 3 - 12
OERTLING. T. 1989, The Molasses reef wreck hull analysis: final report, The International Journal of Nautical Archaeology and Underwater Exploration (1989) 18.3: 235
PERKINS, R 1983, “An analysis of lead musket shot from the wreck of an early 18th century man-of-war”, The International Journal of Nautical Archaeology and Underwater Exploration (1983) 13.4: 339 -342
STEFFY, J. 1994, Wooden Ship Building and the Interpretation of Shipwrecks, Texas A&M University Press, College Station