Como foi já escrito até à
exaustão, o porto de Angra, na ilha Terceira, Açores, não é dos mais seguros
para os navios que lá ousam ancorar.
Com efeito, desde o século XVI que se sabia que as fortes tempestades aqui
ocorridas eram, muitas vezes, oportunidade soberana para a ocorrência de
naufrágios. De acordo com o Padre António Cordeiro, o porto, apesar de ser
limpo de cachopos, & bancos de area, & firmão nelle as anchoras tam
seguramente, que nunca arrastão, & só se quebrando, desemparão o navio;
fica porèm este porto em direytura ao Sueste, a quem chamão lá o vento
Carpinteyro, porque algumas vezes he tão rijo, que se as amarras não são boas,
& de bom fio, as faz arrebentar, & dà com a embarcação no areal da
Prainha ou no Porto Novo. O que significa que, se o navio perdia as
amarras, perdia também as âncoras. E essase deverão permanecer, ainda hoje, nos
locais a que correspondiam os antigos ancoradouros da cidade.
Apesar da maior parte das embarcações permanecer à bolina, ao largo de Angra,
enquanto era reabastecida, navios havia que tinham de ancorar forçosamente no
interior do porto. Surgia logo a distinção de um ancoradouro por dentro das
fortalezas - ou seja, no interior da linha imaginária definida pelo
alinhamento da Fortaleza de santo António e da Fortaleza de São Sebastião - ou
por fora das fortalezas, a cerca de uma milha ao largo de Angra, em
fundos da ordem dos 60 metros.
No alinhamento do ancoradouro interior, fundeavam os navios mercantes de menor
porte, recorrendo cada um a 4 amarras. Para o interior do alinhamento, os
navios utilizavam apenas dois ferros, um a cerca de 30 metros de profundidade,
para a banda do mar, e outro a cerca de 15 metros de profundidade, para a banda
de terra. No exterior do alinhamento das fortalezas ancoravam os grandes navios
mercantes e os navios de guerra, especialmente a partir do século XVIII.
Âncoras e arqueologia
A âncora mais comum é a dita de Almirantado, desenvolvida em Inglaterra em
1841. Consiste numa haste de ferro, num cepo de madeira ou de ferro
perpendicular à haste e que se insere numa abertura da haste denominada noz. Do
extremo inferior da haste - a cruz - saem os braços em cujos extremos
existe um espartilhamento de forma triangular, a pata, que termina num
vértice denominado unha, sendo os outros dois vértices da pata
chamados de orelhas. Destes elementos, poucos serão grande utilidade
para a datação ou para a identificação dos navios a que pertenceram. No
entanto, a sua dimensão revela amiúde o porte do navio que os transportava.
Desenvolvendo-se entre os -50 e os -15 metros de profundidade, a plataforma
rochosa adjacente à encosta oriental do Monte Brasil, em Angra do Heroísmo,
constitui um terreno fértil em vestígios arqueológicos subaquáticos. Destes, os
mais evidentes são as largas dezenas de ferros - vulgarmente conhecidos por âncoras
- que, aqui e além, se encontram a diversas profundidades, tendo esta
aglomeração sido apelidada de cemitério das âncoras pelos
mergulhadores locais.
Com tipologias que abrangem o período cronológico compreendido entre o século
XVI e o século XX, estes fósseis directores constituem, na sua maioria,
testemunho silencioso das manobras desesperadas realizadas pelos navios em
apuros que, na iminência de naufrágio, cortavam as amarras que os prendiam ao
fundo e largavam pano para a fuga em direcção ao alto mar, escapando assim aos
ventos suestes que, inopinadamente, se levantavam junto à ilha.
Outros revelam os erros de ancoragem cometidos por capitães inexperientes que,
ignorando a natureza vulcânica da plataforma, viram os seus ferros
irremediavelmente perdidos nas reentrâncias rochosas do fundo. Uma ínfima parte
poderá ainda resultar de fenómenos de naufrágio, tanto mais que alguns destes
ferros apresentam características invulgares no que toca à sua disposição e
localização.
O projecto de intervenção
Devido à natureza do campo arqueológico, necessário se tornou recorrer ao uso
de mergulhadores experimentados em mergulho profundo. Concomitantemente,
qualquer operação decorreu dentro dos limites impostos de modo a evitar o
recurso a patamares de descompressão. Assim, de modo a caracterizar este campo
arqueológico, foram localizados e posicionados três ferros, entre a batimétrica
dos -15 e -20 metros, que servirão, posteriormente, para a determinação dos
restantes. A determinação da posição dos restantes foi feita por triangulação e
de acordo com factores de correcção que visavam ultrapassar as dificuldades
introduzidas pelo declive rochoso que apresenta, neste local, ângulos
compreendidos entre os 50º e os 90º.
Cada ferro foi identificado alfanumericamente, sendo registados os parâmetros
de profundidade, orientação e dimensões da haste, da unha e da pata.
Simultaneamente, os ferros posicionados foram desenhados e fotografados
individualmente, sendo posteriormente localizado em carta a posição do contexto
arqueológico.
Os resultados obtidos poderão vir a apontar para sítios potenciais de naufrágio
ou para a existência de um outro campo, semelhante a este, em zona mais
profunda situada a sudeste da encosta do Monte Brasil. A existência deste
segundo campo, por enquanto ainda hipotética, terá tido origem nos
procedimentos de ancoragem seguidos na época, facto que é, aliás, confirmado
por cartografia náutica contemporânea. Em todo o caso, após a conclusão da
campanha, o contexto arqueológico ficará perfeitamente definido, podendo mesmo
vir a ser utilizado como reserva arqueológica visitável, se assim for decidido.
Para saber mais:
CASTANHEIRA, E. 1991, Manual de Construção do Navio de
Madeira, Dinalivro, Lisboa
CORDEIRO, António 1717, Historia das Ilhas a Portugal
sugeytas no Oceano Ocidental, Lisboa
FRUTUOSO, Gaspar 1963, Saudades da Terra, vol. VI,
Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ponta Delgada
GREEN, Jeremy 1980, Maritime archaeology applications for a
programable calculator, International Journal of Nautical Archaeology
(1980), 9.2: 139 - 145
LINSCHOOT, Jan. 1609, Histoire des Navigations, Jan
Evertz Cloppenburch, Amsterdam
PIMENTEL, M. 1819, Arte de Navegar e Roteiro, Typ. de
António Rodrigues Galhardo, Lisboa
PORTZAMPARE, U. 1830, Description Nautique de l’Archipel
des Iles Açores, Imprimerie Royale, Paris
STONE, D. 1993, Sailing Ship Artifacts of the 19th Century,
Underwater Archaeological Society of British Columbia, Vancouver
VILLALOBOS, B. 1990, Luz de Navegantes donde se hallaran
las derrotas y señas de las partes maritimas de las Indias, islas y tierra
firme del mar oceano, Fac-simile da edição de 1592, Museo Naval de
Madrid-Universidad de Salamanca, Madrid