O cemitério das âncoras 

Paulo Monteiro

 

Como foi já escrito até à exaustão, o porto de Angra, na ilha Terceira, Açores, não é dos mais seguros para os navios que lá ousam ancorar.

Com efeito, desde o século XVI que se sabia que as fortes tempestades aqui ocorridas eram, muitas vezes, oportunidade soberana para a ocorrência de naufrágios. De acordo com o Padre António Cordeiro, o porto, apesar de ser limpo de cachopos, & bancos de area, & firmão nelle as anchoras tam seguramente, que nunca arrastão, & só se quebrando, desemparão o navio; fica porèm este porto em direytura ao Sueste, a quem chamão lá o vento Carpinteyro, porque algumas vezes he tão rijo, que se as amarras não são boas, & de bom fio, as faz arrebentar, & dà com a embarcação no areal da Prainha ou no Porto Novo. O que significa que, se o navio perdia as amarras, perdia também as âncoras. E essase deverão permanecer, ainda hoje, nos locais a que correspondiam os antigos ancoradouros da cidade.

Apesar da maior parte das embarcações permanecer à bolina, ao largo de Angra, enquanto era reabastecida, navios havia que tinham de ancorar forçosamente no interior do porto. Surgia logo a distinção de um ancoradouro por dentro das fortalezas - ou seja, no interior da linha imaginária definida pelo alinhamento da Fortaleza de santo António e da Fortaleza de São Sebastião - ou por fora das fortalezas, a cerca de uma milha ao largo de Angra, em fundos da ordem dos 60 metros.

No alinhamento do ancoradouro interior, fundeavam os navios mercantes de menor porte, recorrendo cada um a 4 amarras. Para o interior do alinhamento, os navios utilizavam apenas dois ferros, um a cerca de 30 metros de profundidade, para a banda do mar, e outro a cerca de 15 metros de profundidade, para a banda de terra. No exterior do alinhamento das fortalezas ancoravam os grandes navios mercantes e os navios de guerra, especialmente a partir do século XVIII.

Âncoras e arqueologia

A âncora mais comum é a dita de Almirantado, desenvolvida em Inglaterra em 1841. Consiste numa haste de ferro, num cepo de madeira ou de ferro perpendicular à haste e que se insere numa abertura da haste denominada noz. Do extremo inferior da haste - a cruz - saem os braços em cujos extremos existe um espartilhamento de forma triangular, a pata, que termina num vértice denominado unha, sendo os outros dois vértices da pata chamados de orelhas. Destes elementos, poucos serão grande utilidade para a datação ou para a identificação dos navios a que pertenceram. No entanto, a sua dimensão revela amiúde o porte do navio que os transportava.

Desenvolvendo-se entre os -50 e os -15 metros de profundidade, a plataforma rochosa adjacente à encosta oriental do Monte Brasil, em Angra do Heroísmo, constitui um terreno fértil em vestígios arqueológicos subaquáticos. Destes, os mais evidentes são as largas dezenas de ferros - vulgarmente conhecidos por âncoras - que, aqui e além, se encontram a diversas profundidades, tendo esta aglomeração sido apelidada de cemitério das âncoras pelos mergulhadores locais.

Com tipologias que abrangem o período cronológico compreendido entre o século XVI e o século XX, estes fósseis directores constituem, na sua maioria, testemunho silencioso das manobras desesperadas realizadas pelos navios em apuros que, na iminência de naufrágio, cortavam as amarras que os prendiam ao fundo e largavam pano para a fuga em direcção ao alto mar, escapando assim aos ventos suestes que, inopinadamente, se levantavam junto à ilha.

Outros revelam os erros de ancoragem cometidos por capitães inexperientes que, ignorando a natureza vulcânica da plataforma, viram os seus ferros irremediavelmente perdidos nas reentrâncias rochosas do fundo. Uma ínfima parte poderá ainda resultar de fenómenos de naufrágio, tanto mais que alguns destes ferros apresentam características invulgares no que toca à sua disposição e localização.

O projecto de intervenção

Devido à natureza do campo arqueológico, necessário se tornou recorrer ao uso de mergulhadores experimentados em mergulho profundo. Concomitantemente, qualquer operação decorreu dentro dos limites impostos de modo a evitar o recurso a patamares de descompressão. Assim, de modo a caracterizar este campo arqueológico, foram localizados e posicionados três ferros, entre a batimétrica dos -15 e -20 metros, que servirão, posteriormente, para a determinação dos restantes. A determinação da posição dos restantes foi feita por triangulação e de acordo com factores de correcção que visavam ultrapassar as dificuldades introduzidas pelo declive rochoso que apresenta, neste local, ângulos compreendidos entre os 50º e os 90º.

Cada ferro foi identificado alfanumericamente, sendo registados os parâmetros de profundidade, orientação e dimensões da haste, da unha e da pata. Simultaneamente, os ferros posicionados foram desenhados e fotografados individualmente, sendo posteriormente localizado em carta a posição do contexto arqueológico.

Os resultados obtidos poderão vir a apontar para sítios potenciais de naufrágio ou para a existência de um outro campo, semelhante a este, em zona mais profunda situada a sudeste da encosta do Monte Brasil. A existência deste segundo campo, por enquanto ainda hipotética, terá tido origem nos procedimentos de ancoragem seguidos na época, facto que é, aliás, confirmado por cartografia náutica contemporânea. Em todo o caso, após a conclusão da campanha, o contexto arqueológico ficará perfeitamente definido, podendo mesmo vir a ser utilizado como reserva arqueológica visitável, se assim for decidido.

Para saber mais:

CASTANHEIRA, E. 1991, Manual de Construção do Navio de Madeira, Dinalivro, Lisboa
CORDEIRO, António 1717, Historia das Ilhas a Portugal sugeytas no Oceano Ocidental, Lisboa
FRUTUOSO, Gaspar 1963, Saudades da Terra, vol. VI, Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ponta Delgada
GREEN, Jeremy 1980, Maritime archaeology applications for a programable calculator, International Journal of Nautical Archaeology (1980), 9.2: 139 - 145
LINSCHOOT, Jan. 1609, Histoire des Navigations, Jan Evertz Cloppenburch, Amsterdam
PIMENTEL, M. 1819, Arte de Navegar e Roteiro, Typ. de António Rodrigues Galhardo, Lisboa
PORTZAMPARE, U. 1830, Description Nautique de l’Archipel des Iles Açores, Imprimerie Royale, Paris
STONE, D. 1993, Sailing Ship Artifacts of the 19th Century, Underwater Archaeological Society of British Columbia, Vancouver
VILLALOBOS, B. 1990, Luz de Navegantes donde se hallaran las derrotas y señas de las partes maritimas de las Indias, islas y tierra firme del mar oceano, Fac-simile da edição de 1592, Museo Naval de Madrid-Universidad de Salamanca, Madrid