Em 1592, partiu de Goa a nau Chagas
capitaneada pelo Capitão-mor Francisco de Mello, sendo seu mestre Manoel Dias e
piloto João da Cunha. Cedo a Chagas se juntou a outras duas naus portuguesas
provindas de Cochim, a Santo Alberto - capitaneada por Julião de Faria
Cerveira - e a Nossa Senhora da Nazareth - comandada pelo Capitão Braz
Correia.
Todas as três naus vinham carregadas em excesso, como era uso na Carreira da
Índia, tanto com mercadorias valiosas - como os famosos bizalhos de
pedraria (ou seja, sacos de pedras preciosas e semipreciosas) - como de
fidalgos, pessoas nobres e gente do povo. O atraso na partida, o excesso de
carga e a tormenta habitual encontrada ao largo do Cabo da Boa Esperança
obrigaram à separação da frota e à arribada da nau Chagas a
Moçambique, onde teve de invernar. A nau Santo Alberto não foi tão
afortunada e viu abrir-se-lhe o costado, pelas picas de proa, entrando
tanta água que nem o alijamento de parte da carga, nem a evacuação da água com
recurso às bombas, a baldes e a barris conseguiu impedir a nau de se afundar
cada vez mais. A tripulação a fê-la encalhar na costa, num naufrágio tornado
célebre por uma narrativa de João Baptista Lavanha na História Trágico-Marítima
de Bernardo Gomes de Brito.
Algo de semelhante aconteceu com a Nazareth. Com efeito, por gozar de
reputação de grande navegabilidade e por possuir uma tripulação capaz e
experimentada - coisa rara naquele tempo - esta nau tinha sido muito procurada
pelos passageiros de retorno ao Reino. Tal facto levou a que um excesso de
pessoas viajasse na nau, com o consequente excesso de mercadoria embarcada.
Sobrevindo-lhe um temporal, a nau abriu pelas picas e delgados da proa,
desfazendo-se-lhe as ligações em vários locais, saindo a estopa e o calafate do
cavername, o que ocasionou a entrada de água para o interior da nau. Com
grande custo, a tripulação conseguiu chegar a Moçambique onde encalhou a nau,
procedendo de imediato à descarga das suas mercadorias.
A partida de Moçambique
Os sobreviventes da nau Santo Alberto, os passageiros da nau Nossa
Senhora da Nazareth e a maior parte da sua carga foram então acolhidos a
bordo da Chagas, a única sobrevivente da armada de 1592.
O excesso de carga e de passageiros - mais de 270 escravos e 130 portugueses -
era tanto que parte do convés ficava por vezes submerso, o que levava a que a
nau, ainda no porto, fizesse já água. Apesar deste contratempo, a nau conseguiu
dobrar o Cabo da Boa Esperança, tendo no entanto a tripulação que alijar parte
da mercadoria para compensar a contínua entrada de água para o porão.
Entre seguir para a ilha de Santa Helena, como era usual, ou seguir para o
porto de São Paulo, em Angola, o Capitão optou por esta última hipótese
devendo-se tal escolha à imposição de el-rei Filipe II que, por lhe constar
estar a ilha infestada de corsários ingleses, lhe interditava por
regimento a ida a Santa Helena.
Em Angola, a nau fez a aguada e embarcou ainda mais escravos que sofreram
conjuntamente com os portugueses os tormentos infligidos pelo escorbuto. Esta
doença, na época conhecida pelo nome de mal de Loanda - por se fazer
sentir mais intensamente nas calmarias frequentes naquelas paragens - provocou
a morte de quase metade da gente, ficando o resto tão debilitado que pouca
utilidade tinha para o governo e defesa da nau.
Segundo o regimento real, a embarcação deveria avistar a ilha do Corvo e seguir
então para Lisboa o que, contra a vontade do capitão que suspeitava da presença
de corsários nas imediações do Corvo, acabou por se fazer sob pena de se
amotinar a tripulação, estava sequiosa dos víveres frescos que eram apanágio
das ilhas - a ida às ilhas dos Açores tornou-se ainda mais premente quando
Diogo Gomes Gramaxo e Luís Leitão fizeram o inventário dos mantimentos que se
encontravam a bordo e concluíram que não seriam os suficientes para chegarem
até Lisboa.
Prevenindo-se para o que desse e viesse, o capitão aprestou a nau para a guerra
e obteve dos passageiros a promessa de que, se por acaso encontrassem inimigos,
antes fariam arder a nau do que a renderiam, evitando o que sucedera à
nau Madre Deus que fora capturada pelos ingleses dois anos antes, na
ilha do Corvo. Segundo a ordem de batalha estabelecida pelo capitão, a popa era
controlada por Dom Rodrigo de Cordova, a proa ficava a cargo de António das
Póvoas e o convés era defendido por Braz Correia, o antigo capitão da nau Nazareth.
A batalha ao largo do Faial
Chegada à vista do Corvo, a nau não conseguiu ancorar nas suas imediações
devido ao vento contrário que se fazia sentir e encaminhou-se para o Faial, a
caminho da Terceira. A 22 de Junho de 1594, a tripulação avistava três náos
grossas, conhecidas logo por Inglezas, de uma tonelagem não inferior a 300 e
todas com um armamento superior ao da nau portuguesa, com grossa artilharia de
bronze e canhões de bater.
Ao meio-dia, a batalha teve o seu início durando por mais de 24 horas. Durante
a primeira parte do confronto, os ingleses atacaram em primeiro lugar a popa da
nau - que sentiam desguarnecida de artilharia - o que levou a que se aí
instalasse de noite uma peça de artilharia. À falta de artilheiros
experimentados, o próprio Braz Correia e Nuno Velho Pereira vieram guarnecer as
peças do leme que vinham recolhidas desde Luanda, pela morte dos seus
artilheiros legítimos devido ao escorbuto.
No dia seguinte e pelo fraco impacto que as suas descargas de artilharia tinham
sobre o desenrolar da batalha, o comandande inglês Lord Cumberland decidiu
fazer a abordagem da nau portuguesa. Para tal, fez deslocar a sua Almiranta
para a popa, a Capitania para o meio da nau e a sua própria embarcação para o
ataque à proa da Chagas.
Durante a fase da abordagem, a refrega aumentou de intensidade, disparando-se
todas as peças de artilharia, todos os mosquetes e atirando-se, de parte a
parte, panellas e alcanzias de fogo, dardos e pedras, caindo de toda a parte
muytos mortos e feridos. O ar estava tão carregado de fumo que os
faialenses apenas ouviam os ecos da batalha, escondidos que estavam os
beligerantes nas nuvens espessas provenientes dos disparos e dos mil e um
pequenos incêndios que faziam pasto das naus em confronto.
O fim da Chagas
Rechaçadas por três vezes as investidas dos ingleses, a tripulação via diminuir
a cada passo a sua pequena força que era, no início da batalha, de cerca de
setenta portugueses e cinco escravos mais experimentados nas lides da guerra no
mar. Finalmente, a nau sofria o seu golpe final com o incêndio do coxim do
gurupés, que fazia a guarda da vela do traquete. Este coxim, seco do sol e
impregnado de alcatrão, cedo fez propagoar as chamas à maior parte da nau,
ardendo no espaço de poucos minutos toda a mastreação e todo o aparelho da nau.
Desenganados de se salvarem, os portugueses começaram a abandonar a nau,
lançando-se ao mar em jangadas e paus, onde a maior parte foi morta a
sangue-frio pelos ingleses que se encontravam a bordo de lanchas.
A maioria, que não sabia nadar, acabou por se afogar tal como aconteceu com
Dona Luiza de Mello e sua mãe que, após escaparem do naufrágio da nau Santo
Alberto e da viagem de cerca de 300 léguas pelo interior africano,
acabaram por dar à costa na ilha do Faial, afogadas e unidas uma à outra por um
cordão de São Francisco com que se tinham atado a bordo.
Ao entardecer, o fogo chegou à casa da pólvora e a nau foi ao fundo, no meio de
uma grande explosão, levando com ela toda a carga preciosa de três naus da
Índia. Da parte dos ingleses morreram cerca de 90 homens durante a batalha,
entre os quais um Almirante, e ficaram feridos cerca de centena e meia. Das
cerca de 400 pessoas a bordo, escaparam apenas 13 que foram recolhidas por uma
das lanchas inglesas, e que foram Nuno Velho, Braz Correia, o ex-guardião da
nau Nazareth, Gonçalo Fernandes, o estrinqueiro António Dias, o
soldado Pedro Dias, dois calafates, dois marinheiros e cinco escravos. Os dois
primeiros foram levados para Inglaterra, onde foram mais tarde resgatados por
três mil cruzados, e todos os outros foram desembarcados nas Flores.
Depois deste insucesso, a frota de Cumberland ainda tentou aprisionar a nau de
Dom Luis Coutinho, que regressou da Índia um mês depois do afundamento da nau Chagas.
Coutinho, que participara na batalha com o Revenge de Sir Richard Greenville
três anos antes e que escapara à tempestade de Setembro de 1591, deu-lhe
combate de uma forma tão feliz que lhe partiu o mastro do traquete com uma
pelourada e o enviou para Inglaterra, amargurado com a sua má sorte naquele
malfadado ano de 1592.
Passados mais de quatro séculos, ainda hoje repousam no fundo do mar, algures
ao largo do Faial, os restos da nau que se preferiu abrasada a tomada pelos
ingleses.
Para saber mais:
BRITO, Bernardo (1942) História trágico-marítima.
Barcelos: Companhia Editora do Minho.