No ano de 1577, Matthew Baker
iniciou em Deptford a construção de um navio que viria a simbolizar a
supremacia das armadas inglesas nos mares. Ao contrário dos galeões ibéricos
este novo modelo de navio tinha castelos de proa reduzidos e um conjunto de
linhas afiladas, o que o tornava não só mais rápido, mas também mais
manobrável.
A este novo navio deram o nome de Revenge. Media de quilha 31 metros e
tinha um comprimento total de cerca de 45 metros, estando o seu porte
compreendido entre as 440 e as 500 toneladas. Na popa encontrava-se a cabina do
capitão e o alojamento dos demais oficiais do navio bem como a casa do leme, a
santa-bárbara - ou casa da pólvora - e os outros compartimentos de
armazenamento de víveres. Na proa, encontrava-se o mastro do gurupés logo
seguido do mastro do traquete, do mastro grande e do mastro de gata ou mezena.
O Revenge tinha duas cobertas
de fogo, armando 42 canhões, todos em bronze. Na coberta inferior - com as suas
escotilhas a cerca de metro e meio da linha de água - estavam localizadas 20
peças de artilharia, das de maior calibre (entre estas contavam-se 2
meios-canhões que disparavam projécteis de 15 quilos de peso e 4
canhões-pedreiros que disparavam balas de pedra com um peso de 12 quilos). Para
além destas armas de grande calibre, o Revenge armava ainda na sua
coberta inferior 10 colubrinas que disparavam projécteis de 9 quilos e 4
meias-colubrinas que disparavam balas de 4 quilos de peso.
A relação de número entre as colubrinas e as meias-colubrinas era excepcional
já que era o inverso do que se passava com os outros navios da época. O Revenge
possuía assim uma invejável capacidade de fogo. Na coberta inferior, as peças
distribuíam-se de maneira que os canhões se situavam a meio navio, com as
colubrinas alinhadas de igual modo - ficando, no entanto, 2 colubrinas à proa,
para acções ofensivas, e 2 outras à popa, para acções defensivas. No convés
superior, o armamento era mais reduzido, de modo a tornar centro de gravidade
mais baixo e, consequentemente, o navio mais estável (no convés estavam 4
meias-colubrinas, 10 quartos de colubrina e vários berços anti-pessoal de
pequeno calibre).
Três anos depois da sua construção, o Revenge combateu na baía de
Smerwick como navio almirante da frota inglesa. Combateu igualmente, sob as
ordens de Sir Francis Drake, a Invencível Armada, no ano de 1588, partindo de
Plymouth, no ano seguinte, para atacar Portugal, também sob o mesmo comandante.
Em 1590, o Revenge era o navio-almirante da frota de Sir Martin Frobisher,
participando no bloqueio da costa espanhola, no intuito de capturar as naus
ibéricas provindas da Nova Espanha.
Sir Richard Grenville
Nascido na Abadia de Buckland, no Devon, em 1542, Richard Grenville ficou órfão
de pai aos três anos, quando este se afogou num naufrágio célebre, o do Mary
Rose (recentemente escavado e recuperado em Portsmouth) .Da sua juventude
obscura, sabe-se apenas que matou em duelo um homem chamado Robert Bannester e
que foi admitido como estudante no Inner Temple, em 1559.
Grenville foi eleito para membro do Parlamento em 1563, tendo casado com Mary
St. Leger em 1565. Depois do casamento parte em campanha contra os Turcos,
tendo-se aliado aos exércitos do Imperador Maximiliano II. Em 1576 foi eleito
xerife da Cornualha sendo investido cavaleiro no mesmo ano devido ao papel
preponderante que assumiu no debelar do Catolicismo no oeste da Inglaterra.
Em 1585, Sir Richard Grenville fez a primeira de duas viagens à Virgínia, na
América do Norte, após ter obtido consentimento da Rainha Elizabete I, no que
foi ajudado pelo seu primo, Sir Walter Raleigh. É em Roanoke Island que
Grenville implanta a primeira colónia inglesa na costa americana. Esta colónia
veio a perder-se pouco tempo depois, gorando-se as aspirações colonialistas do
cavaleiro inglês. Na viagem de regresso, Grenville ataca algumas localidades
dos Açores.
Em 1588, Grenville fornece três dos seus navios para o combate contra a
Invencível Armada, tendo ele próprio perseguido os navios espanhóis
sobreviventes até às águas irlandesas. Em 1591, Grenville foi nomeado
vice-almirante e, sob as ordens de Lord Thomas Howard, dirigiu-se aos Açores
para capturar as naus espanholas.
Dirigia-se também, sem o saber, ao encontro da sua morte.
A expedição aos Açores
A 4 de Fevereiro de 1591, o Revenge embarca cerca de 90 barris de
pólvora bem como 110 mosquetes e 70 arcabuzes. Para além deste armamento
ligeiro, a tripulação estava ainda dotada de arcos ingleses e vários artefactos
explosivos e incendiários.
Ainda em Londres, o navio recebeu cerca de 160 tripulantes, número que foi
aumentado para 260 quando, em Março de 1591, o navio escalou os portos de
Portsmouth e de Plymouth. O único oficial a bordo, para além de Grenville, era
o capitão William Langhorn, responsável pela disciplina e comando dos soldados
que se encontravam a bordo da embarcação.
O Revenge fazia parte de uma esquadra composta pelo Defiance,
comandado por Lord Thomas, pelo Nonpareil, comandado por Sir Edward
Denny, pelo Bonaventure do capitão Robert Cross, pelo Lion do
capitão George Fenner, pelo Foresight, comandado por Thomas Vavascur,
pelo Crane do capitão Duffield e pela barca Raleigh, capitaneada
pelo comandante Thynne.
Os outros navios de conserva, de reduzida tonelagem, eram o Pilgrim, o
George Noble, o Moon, o Elisabeth, o Diana,
o Wasp, o Moonlight, o Dainty, o Swallow, o
Vanguard, o Bellyngham, o Bostock, o Disdain
e o Delight.
No final de Agosto, junto às Flores, esta armada de corsários aguardava,
impaciente, a vinda da rica armada espanhola, provinda da Nova Espanha. No
entanto, para sua surpresa, quem surgiu no horizonte não foi a armada da prata,
mas sim a armada de guerra de Alonso de Bázan, que lhes tinha vindo dar caça.
A frota de defesa das ilhas
Com efeito, previamente avisado pelos seus espiões em Inglaterra da preparação
da frota inglesa onde se incluía o Revenge, Filipe II ordenou,
simultaneamente, à sua frota das Índias que permanecesse durante o Inverno de
1590 no porto de Havana, em Cuba e a Don Alonso de Bázan - filho do
conquistador da ilha Terceira, Álvaro de Bázan - o regresso da sua frota de 40
navios ao porto da Corunha.
Esta frota de defesa (inovadora para a mentalidade conservadora da maior parte
dos militares espanhóis da época que ainda acreditavam na força das galés
mediterrânicas e na superioridade da abordagem sobre os combates de artilharia
no mar) tornara-se uma componente essencial na defesa do território ibérico e
na protecção das armadas provindas das possessões ultramarinas, desde que a
Espanha vira derrotada a sua Armada Invencível em 1588. Com efeito, a partir
daquela altura, as incursões militares ingleses tornaram-se mais arrojadas e a
Espanha viu declinar a sua supremacia nos mares, em favor da nova potência
marítima.
Para defender a sua ligação umbilical com os metais preciosos do Novo Mundo,
Felipe II ordenou a construção de galeões de guerra, - conhecidos como os Doze
Apóstolos, pelos nomes que vieram a tomar, entre os quais se contavam o San
Felipe, o San Barnabe, o San Christobal, o San Pablo
e o San Martin - a maioria dos quais integrava uma frota de defesa
que, com base na costa espanhola, tinha como missão deslocar-se aos Açores anualmente,
de modo a comboiar as frotas mercantes que ali se reuniam.
A força sob as ordens de Don Alonso Bázan consistia num grupo comandado pelo
general Marcos de Aramburu, que tinha sob as suas ordens 11 navios, dos quais 7
eram galeões de Castela. Outros 2 eram flibotes holandeses - uma
embarcação rápida, de linhas ligeiras e afiladas, à semelhança dos galeões
ingleses - denominados León Rojo e Cavallero de la Mar. Os
dois últimos eram navios de avisos, um dos quais era o San Francisco de la
Presa. Na frota espanhola, existiam ainda 8 flibotes, que eram comandados
pelo português Dom Luís Coutinho. Os galeões de Biscaia eram capitaneados pelo
general Martin de Bretendona, coadjuvado pelos restantes oficiais que
comandavam as restantes embarcações da armada: Sancho Pardo, António Urquiola,
Bartolomé de Villavicencio e António Manrique.
Em 1591, Felipe II ordenou a partida desta frota do porto de Ferrol para a
Terceira de modo a fazer face ao perigo que a armada inglesa representava para
a frota da prata. O corsário inglês Lord Cumberland, que mantinha uma
vigilância apertada sobre a movimentação desta frota avisou então Lord Thomas
Howard - que permanecia desde Julho na paragem das Flores - da sua partida,
através da pinaça Moonshine, comandada pelo capitão Middleton.
Bázan chegou à Terceira, a 30 de Agosto, e foi imediatamente avisado da
presença da frota inglesa no grupo ocidental onde tinha causado toda uma série
de desacatos e de pilhagens. O almirante espanhol partiu para Flores mas
atrasou-se bastante devido ao tempo desfavorável que se fazia sentir no
arquipélago.
No dia 8 de Setembro, Don Alonso de Bázan encontrava-se a cerca de quinze
léguas da ilha das Flores. Pretendendo seguir imediatamente para a ilha, Bázan
viu frustadas as suas intenções devido à quebra do mastro gurupés no galeão de
Sancho Pardo. Alonso de Bázan viu-se assim forçado a mitigar o andamento,
encontrando-o a madrugada do dia 9 ainda a cerca de 8 milhas de distância das
Flores. O Almirante resolveu então contornar a ilha pelo lado oeste de modo a
surgir perante as forças inglesas - que se encontravam ancoradas junto a Santa
Cruz - como se viesse do ocidente, fazendo com que os ingleses confundissem a
sua armada com a armada das Índias
O estratagema de Bázan resultou em cheio. Os ingleses rapidamente levantaram
ferro e acometeram a frota desconhecida. Para seu espanto, em vez de
encontrarem navios mercantes fracamente armados, os ingleses encontraram pela
frente quatro dezenas de navios de guerra, sete dos quais de grande tonelagem.
A batalha inicial
Aquando do avistamento da frota desconhecida, provinda de oeste, a maior parte
dos navios ingleses estava desguarnecida, com as suas tripulações em terra
providenciando a aguada e o lastramento das embarcações. Desses tripulantes,
uma grande parte encontrava-se doente, sendo portanto, inútil para a acção
bélica que se avizinhava. Estima-se mesmo que cerca de 90 tripulantes do Revenge
se encontrassem nessa situação. Pelo lado espanhol, é de crer que também
estivessem incapacitados parte dos seus elementos, visto que estes se
encontravam no mar, quase permanentemente, há mais de dois meses.
Perante o avistamento da frota inimiga, os comandantes ingleses ordenaram o
corte das amarras e fizeram embarcar à pressa as suas tripulações. Grenville
foi o último a deixar o ancoradouro, já que a sua tripulação demorou bastante a
chegar ao Revenge.
Assim que se fez ao mar, Grenville constatou que tinha pela frente uma esquadra
de guerra e não uma frota mercante. Com o vento a seu favor, os esquadrões de
Sevilha surgiram a estibordo do Revenge e deram-lhe imediatamente caça. Às
cinco da tarde, Marcos de Aramburu iniciou uma troca de salvas com os navios de
Lord Thomas Howard e tentou mesmo abordar o Defiance. O mesmo tentaram
fazer os galeões San Felipe e San Barnabé, mas debalde.
Uma primeira descarga de artilharia, disparada do Revenge, matou o
oficial Jorge Troyano que seguia a bordo do galeão San Felipe, comandado por
Don Claudio de Biamonte. Este encostou então a sua amura à do navio inglês e lançou
uma corda de abordagem, por onde treparam dez soldados espanhóis. O Revenge
afastou-se e a corda que os unia partiu-se, lançando os soldados que por ela
desciam ao mar. Grenville disparou então as suas armas da coberta inferior.
Carregadas com balas enramadas, destinadas a destruir o aparelho do inimigo, a
descarga ocasionou avultados estragos, quer no velame, quer no cordame do San
Felipe, que acabou por se afastar. Imediatamente, Bretandona fez lançar um
ferro de abordagem, a partir do San Barnabé.
Entretanto, aproveitando-se do anoitecer, Lord Thomas Howard escapou-se com o
resto da sua frota, sendo perseguido pelo galeão San Martin, a bordo
do qual seguia um tercio lusitano e o Mestre de Campo, Gaspar de Sosa.
Grenville, preso ao San Barnabé, não o pôde acompanhar. A maior parte
dos ingleses subiu então até aos seus castelos de proa e de popa, de onde
disparou os arcabuzes e mosquetes, lançando mesmo granadas de mão para o
interior do galeão espanhol.
Em ajuda deste, chegou então Marcos de Aramburu, que fez desembarcar homens
para a popa do Revenge. Abalrou-o para esse efeito com a sua própria
proa, que ficou destruída até à linha de água. Os espanhóis capturaram então a
bandeira do navio inglês, matando alguns dos seus tripulantes e atingindo mesmo
a zona do mastro principal. Entretanto, Aramburu afastou-se, com a água do mar
a entrar às golfadas para o interior do seu navio e pediu ajuda ao resto da
frota. Em seu socorro veio Don António Manrique, a bordo do galeão Ascención,
que abalrou igualmente a proa do Revenge, logo seguido pelo português
Don Luís Coutinho, que o secundou nessa acção.
A captura do Revenge
Nesta altura, era já noite cerrada. Don Alonso de Bázan fez reunir a sua
esquadra ao redor dos três navios imobilizados. Às onze da noite, o próprio
Grenville foi atingido por uma bala de mosquete. Enquanto se submetia a
cuidados médicos, uma descarga de arcabuzes matou o cirurgião de bordo e feriu
gravemente na cabeça o comandante inglês.
O Revenge tinha perdido toda a sua mastreação, enquanto que o navio de
Coutinho se afundava durante a noite. O mesmo sucedia, durante a madrugada do
dia seguinte, ao Ascención tendo-se salvo a maior parte dos seus
tripulantes no navio de Bretandona. O galeão San Barnabé fora tão
atingido que chegou mais tarde ao porto de Vigo quase sem velas nem âncoras.
Pela manhã, quase toda a pólvora do Revenge tinha sido gasta e todas
as lanças estavam partidas. Do embate tinham resultado cerca de 40 mortos,
estando ferida a restante tripulação com maior ou menor gravidade. Na coberta
acumulavam-se cerca de 1.5 metros de água proveniente de três orifícios de bala
localizados abaixo da linha de flutuação e atabalhoadamente remendados pelos
carpinteiros de bordo. Do lado espanhol contaram-se mais de cem mortos, dois dos
quais capitães, um deles Luís de San Juan, capitão de infantaria.
Grenville tentou então convencer o seu mestre artilheiro a fazer explodir o
navio. No entanto, o capitão William Langhorn conseguiu persuadir o mestre da
embarcação a render-se aos espanhóis. Depois de uma breve conferência a bordo
da capitânia espanhola. Don Alonso de Bázan ofereceu então a vida e a liberdade
aos ingleses em troca da sua rendição. A tripulação encerrou o mestre
artilheiro numa cabina do navio - impedindo-o mesmo de cometer suicídio - e
dirigiu-se então para bordo dos navios espanhóis. Grenville foi levado para
bordo do galeão de Alonso de Bázan, onde veio a morrer, dos seus ferimentos, no
dia seguinte.
Só quinze dias depois da batalha que dera a vitória a Alonso de Bázan, surgiu
junto à ilha das Flores o remanescente da flota de la plata, comandada por
Aparicio de Arteaga.
A frota das Índias
A frota da Nova Espanha partira de San Juan de Ulloa, no México, a 13 de Junho
de 1591. Comandada por Ribera, esta frota de 22 navios fora atacada pelo
corsário John Watts ao largo de Cuba e perdera dois dos seus navios. Tal já não
era novidade, visto que o mesmo corsário tinha feito o mesmo a outros 7 navios
espanhóis provenientes de Santo Domingo. À chegada ao porto de Havana, Ribera
juntou-se à armada das Honduras e aos navios mercantes que Felipe II tinha
mandado ali invernar. Das 120 embarcações iniciais, apenas 71 sobreviveram aos
furacões e os corsários.
A 27 de Julho, a frota partiu finalmente de Cuba em direcção aos Açores. Durante
a travessia do Atlântico novas tempestades fizeram naufragar mais 11 navios em
alto-mar e ocasionaram avarias substanciais no resto da frota. A 14 de
Setembro, chegaram às Flores os primeiros 11 navios da armada das Índias.
Comandadas por António Navarro, estas embarcações tinham-se separado do corpo
principal da frota cerca de 3 semanas antes. Após terem sido reabastecidos com
água e víveres, estes navios juntaram-se à frota de Don Alonso Bázan. No dia
seguinte, surgiram no horizonte os restantes 49 navios, sob o comando de
Aparicio de Arteaga. Os espanhóis viam com desânimo a sua armada
semi-destruída. Velas, cordame, provisões, tudo se encontrava estragado ou
avariado.
Entretanto, a bordo do Revenge fora colocada uma tripulação mista de 70 homens,
espanhóis e prisioneiros ingleses, comandada pelo capitão basco Landagorrieta.
Don Alonso de Bázan resolveu então convocar, a 14 de Setembro de 1591, uma
junta para se decidir o caminho a tomar:
- deveria a armada permanecer junto às ilhas e aguardar a chegada das fragatas
vindas de Havana, com ouro e prata a bordo, bem como a arribada das naus
portuguesas da Carreira das Índias, tal como fora instruído por Filipe II?
- ou deveria a armada partir imediatamente para a Terceira, de modo a que os
navios danificados pudessem sofrer as reparações necessárias para fazer face à
última etapa da jornada, e partir daí para o continente?
Foi decidido que a armada deveria cumprir o regimento régio, pelo menos até à
data limite imposta pelo soberano: 5 de Outubro de 1591. Assim, enquanto que
junto às Flores permaneciam algumas zabras e caravelas de sentinela, Don Alonso
de Bázan partiu com o grosso da armada - 60 navios vindos da Nova Espanha e 36
da sua própria frota - para a Terceira, onde tencionava permanecer até à data
acordada.
A tempestade
No entanto, o Homem põe e Deus dispõe. No dia seguinte, pelo meio-dia, o vento
começou a soprar rijo de nordeste. Crescendo em intensidade e rodando para
norte, o vento assumia já ao anoitecer características ciclónicas e continuava
a piorar pela noite dentro. Ao amanhecer, Don Alonso de Bázan descobriu que com
ele apenas permaneciam 10 navios. Toda a sua frota estava dispersa algures
entre as Flores e a Terceira. Na manhã desse dia afundou-se junto ao San
Pablo o navio Espiritu Santu, de São Domingo, tendo-se salvo
apenas 1 dos tripulantes.
Por 3 dias e 3 noites soprou o vento furiosamente, agora vindo de oeste.
Impelido por ele, Bázan não conseguiu ancorar em Angra, onde parte da armada tinha
conseguido chegar miraculosamente, só conseguindo aportar à Praia, onde ancorou
a 18 de Setembro. Aí, abrigado no interior da baía, o San Pablo foi
inspeccionado e reparado por mergulhadores espanhóis enquanto se tentou,
debalde, desembarcar 100 soldados no areal da vila.
Pouco tempo depois, o vento cresceu em intensidade e obrigou Bázan a deixar a
Praia e a correr com o tempo, ao largo da ilha Terceira. Simultaneamente, em
Angra, a situação não tinha melhor aspecto. Fustigados pelo vento ciclónico de
noroeste, os navios viram as suas amarras romperem-se, uma a uma. Empurrados
para o largo, muitos procuraram refúgio em São Miguel. Nessa noite 2 dos
galeões de Bázan fizeram abalroamento.
Entretanto, o Revenge lutava futilmente contra as ondas, no que era
acompanhado por Aramburu e Bertendona. Bázan acabou por não voltar à Terceira.
Comandado pelos ventos, agora provindos de sudoeste, Bázan procurou refúgio em
Lisboa, onde se reuniu a maioria das embarcações sobreviventes. As restantes
foram sendo dispersas pelos portos de San Lucar de Barramena, Cádiz, Setúbal,
Porto, Vigo e mesmo Bayonne.
Em plena tempestade, os ingleses continuavam no corso. Assim, os marinheiros do
capitão Robert Flicke conseguiram saquear dois dos navios da Terra Firme, antes
que estes se afundassem. Ao mesmo tempo, Manuel Paez, comandante do Caçada,
um dos flibotes de Coutinho, recapturava um outro navio não conseguindo fazer o
mesmo à Nuestra Señora de los Remédios que acabou por ser levada, como
presa de corso, para o porto de Plymouth.
Os naufrágios
De encontro à costa norte da Terceira desfizera-se a nau-capitânia da frota
mexicana, uma das mais ricas a afundar-se nesta tempestade.
A nau Santa Maria del Puerto afundou-se a menos de duas léguas da
Terceira, sendo abandonada pela sua tripulação assim que a água no seu interior
ultrapassou a capacidade de esgotamento das bombas.
O San Medel y Céledon foi visto, pela última vez, junto às Formigas.
A nau Madalena, do esquadrão de Urquiola, deu à costa na Terceira
perdendo-se metade da sua tripulação.
Um patacho do mesmo esquadrão deu à costa na Graciosa, tendo-se salvo a
artilharia e a tripulação.
Uma outra nau, a Vegoña de Sevilla, do esquadrão de Sancho Pardo,
perdeu-se em mar alto, afogando-se cerca de 70 homens da sua tripulação de 200.
Duas outras naus naufragaram junto ao Topo, em São Jorge, tendo-se salvo quase
toda a tripulação.
Junto a São Miguel naufragaram ainda duas naus das Índias e um galeão
biscaínho.
Quanto ao Revenge, deu à costa na Terceira, junto à Serreta num
local asperissimo. Da sua tripulação de emergência, apenas sobreviveu um
homem, que morreu pouco tempo depois, dos ferimentos sofridos no naufrágio.
Ainda nesse ano, Suarez de Salazar aconselhava o Rei a proceder ao salvamento
das peças do Revenge. Entre 1592 e 1593, procedeu-se à recuperação de 14 bocas
de fogo, recorrendo-se a meios de recuperação subaquática ainda não totalmente
esclarecidos. Para trás ficaram 7 peças que foram, em 1603, arrastadas por uma
tempestade para uma profundidade menor, junto à costa, conforme o relatado pelo
capitão de artilharia Pedro de Lumbieras. No ano seguinte, foram dispendidos
cerca de 500 ducados com a recuperação dessas peças, essenciais para o
suprimento da fortaleza de São Filipe. Quase 34 anos depois, a 4 de Julho de
1625, foram recuperadas outras duas peças. Para a tarefa, foi escolhido um
artilheiro espanhol, Sebastiano Rivero, que participara já nas anteriores
recuperações, tendo só ele recuperado 18 canhões. Uma destas peças era um meio
canhão de bronze, com cerca de 40 quintais - 2 toneladas - de peso.
Para saber mais:
Carta de Christovão Soares de Albergaria ao Archiduque Alberto,
24 de Outubro de 1591, in Archivo dos Açores, Vol. II, 1880, Ponta
Delgada
Documentação do Arquivo General de Simancas, GA l. 326, d. 21,
d. 29, d. 36, d. 44, d. 45, d. 57, d. 202, GA l.626, Consiglio de Guerra
BUSHNELL, G. (1936) Sir Richard Grenville, George G.
Harp & Co., Ltd., London
EARLE, P. (1992) Sir Richard Grenville and the Revenge,
Collins & Brown Limited, 1992
FALCÃO, A. (1981) “Do Sucesso da Armada que foi às Ilhas
Terceiras no anno de 1591”, in Arquivo dos Açores, vol. VI, Instituto Cultural
de Ponta Delgada, Ponta Delgada
LINSCHOOT, J.(1609) “Histoire de la Navigation”, Jean Evertz
Cloppenburch, Amsterdam
MARTINEZ, R. (1988) “Las Armadas de Felipe II”, Editorial San
Martin, Madrid
RALEIGH, W., A report of the trues of fight about the Isles of
Açores, the last of August 1591, betwixt the Revenge, one of her Majesties
shippes, and an Armada of the King of Spaine, Separata da Revista Insulana,
Ponta Delgada
ROWSE, A. (1937) “Sir Richard Grenville of the Revenge”,
Jonathan Cape, Londres
TEIXEIRA, M. (1971) A batalha da ilha das Flores - Sir Richard
Grenville e o Revenge, BIHIT vol. XXV-XXVI, Angra do Heroísmo
TENNYSON, A., (1971) The Revenge: a ballad of the fleet in Poems and Plays,
Warren, Oxford
WIGNALL, S. (1971) “Progress Report on the Forthcoming
‘International Marine Archaeological Expedition’ to the island of Terceira,
Archipelago of the Azores” ”, BIHIT vol. XXV-XXVI, Angra do Heroísmo