Batalhas e Naufrágios nos Açores (1591) 

Paulo Monteiro

 

No ano de 1577, Matthew Baker iniciou em Deptford a construção de um navio que viria a simbolizar a supremacia das armadas inglesas nos mares. Ao contrário dos galeões ibéricos este novo modelo de navio tinha castelos de proa reduzidos e um conjunto de linhas afiladas, o que o tornava não só mais rápido, mas também mais manobrável.

A este novo navio deram o nome de Revenge. Media de quilha 31 metros e tinha um comprimento total de cerca de 45 metros, estando o seu porte compreendido entre as 440 e as 500 toneladas. Na popa encontrava-se a cabina do capitão e o alojamento dos demais oficiais do navio bem como a casa do leme, a santa-bárbara - ou casa da pólvora - e os outros compartimentos de armazenamento de víveres. Na proa, encontrava-se o mastro do gurupés logo seguido do mastro do traquete, do mastro grande e do mastro de gata ou mezena.

O Revenge tinha duas cobertas de fogo, armando 42 canhões, todos em bronze. Na coberta inferior - com as suas escotilhas a cerca de metro e meio da linha de água - estavam localizadas 20 peças de artilharia, das de maior calibre (entre estas contavam-se 2 meios-canhões que disparavam projécteis de 15 quilos de peso e 4 canhões-pedreiros que disparavam balas de pedra com um peso de 12 quilos). Para além destas armas de grande calibre, o Revenge armava ainda na sua coberta inferior 10 colubrinas que disparavam projécteis de 9 quilos e 4 meias-colubrinas que disparavam balas de 4 quilos de peso.

A relação de número entre as colubrinas e as meias-colubrinas era excepcional já que era o inverso do que se passava com os outros navios da época. O Revenge possuía assim uma invejável capacidade de fogo. Na coberta inferior, as peças distribuíam-se de maneira que os canhões se situavam a meio navio, com as colubrinas alinhadas de igual modo - ficando, no entanto, 2 colubrinas à proa, para acções ofensivas, e 2 outras à popa, para acções defensivas. No convés superior, o armamento era mais reduzido, de modo a tornar centro de gravidade mais baixo e, consequentemente, o navio mais estável (no convés estavam 4 meias-colubrinas, 10 quartos de colubrina e vários berços anti-pessoal de pequeno calibre).

Três anos depois da sua construção, o Revenge combateu na baía de Smerwick como navio almirante da frota inglesa. Combateu igualmente, sob as ordens de Sir Francis Drake, a Invencível Armada, no ano de 1588, partindo de Plymouth, no ano seguinte, para atacar Portugal, também sob o mesmo comandante. Em 1590, o Revenge era o navio-almirante da frota de Sir Martin Frobisher, participando no bloqueio da costa espanhola, no intuito de capturar as naus ibéricas provindas da Nova Espanha.

Sir Richard Grenville

Nascido na Abadia de Buckland, no Devon, em 1542, Richard Grenville ficou órfão de pai aos três anos, quando este se afogou num naufrágio célebre, o do Mary Rose (recentemente escavado e recuperado em Portsmouth) .Da sua juventude obscura, sabe-se apenas que matou em duelo um homem chamado Robert Bannester e que foi admitido como estudante no Inner Temple, em 1559.

Grenville foi eleito para membro do Parlamento em 1563, tendo casado com Mary St. Leger em 1565. Depois do casamento parte em campanha contra os Turcos, tendo-se aliado aos exércitos do Imperador Maximiliano II. Em 1576 foi eleito xerife da Cornualha sendo investido cavaleiro no mesmo ano devido ao papel preponderante que assumiu no debelar do Catolicismo no oeste da Inglaterra.

Em 1585, Sir Richard Grenville fez a primeira de duas viagens à Virgínia, na América do Norte, após ter obtido consentimento da Rainha Elizabete I, no que foi ajudado pelo seu primo, Sir Walter Raleigh. É em Roanoke Island que Grenville implanta a primeira colónia inglesa na costa americana. Esta colónia veio a perder-se pouco tempo depois, gorando-se as aspirações colonialistas do cavaleiro inglês. Na viagem de regresso, Grenville ataca algumas localidades dos Açores.

Em 1588, Grenville fornece três dos seus navios para o combate contra a Invencível Armada, tendo ele próprio perseguido os navios espanhóis sobreviventes até às águas irlandesas. Em 1591, Grenville foi nomeado vice-almirante e, sob as ordens de Lord Thomas Howard, dirigiu-se aos Açores para capturar as naus espanholas.

Dirigia-se também, sem o saber, ao encontro da sua morte.

A expedição aos Açores

A 4 de Fevereiro de 1591, o Revenge embarca cerca de 90 barris de pólvora bem como 110 mosquetes e 70 arcabuzes. Para além deste armamento ligeiro, a tripulação estava ainda dotada de arcos ingleses e vários artefactos explosivos e incendiários.

Ainda em Londres, o navio recebeu cerca de 160 tripulantes, número que foi aumentado para 260 quando, em Março de 1591, o navio escalou os portos de Portsmouth e de Plymouth. O único oficial a bordo, para além de Grenville, era o capitão William Langhorn, responsável pela disciplina e comando dos soldados que se encontravam a bordo da embarcação.

O Revenge fazia parte de uma esquadra composta pelo Defiance, comandado por Lord Thomas, pelo Nonpareil, comandado por Sir Edward Denny, pelo Bonaventure do capitão Robert Cross, pelo Lion do capitão George Fenner, pelo Foresight, comandado por Thomas Vavascur, pelo Crane do capitão Duffield e pela barca Raleigh, capitaneada pelo comandante Thynne.

Os outros navios de conserva, de reduzida tonelagem, eram o Pilgrim, o George Noble, o Moon, o Elisabeth, o Diana, o Wasp, o Moonlight, o Dainty, o Swallow, o Vanguard, o Bellyngham, o Bostock, o Disdain e o Delight.

No final de Agosto, junto às Flores, esta armada de corsários aguardava, impaciente, a vinda da rica armada espanhola, provinda da Nova Espanha. No entanto, para sua surpresa, quem surgiu no horizonte não foi a armada da prata, mas sim a armada de guerra de Alonso de Bázan, que lhes tinha vindo dar caça.

A frota de defesa das ilhas

Com efeito, previamente avisado pelos seus espiões em Inglaterra da preparação da frota inglesa onde se incluía o Revenge, Filipe II ordenou, simultaneamente, à sua frota das Índias que permanecesse durante o Inverno de 1590 no porto de Havana, em Cuba e a Don Alonso de Bázan - filho do conquistador da ilha Terceira, Álvaro de Bázan - o regresso da sua frota de 40 navios ao porto da Corunha.

Esta frota de defesa (inovadora para a mentalidade conservadora da maior parte dos militares espanhóis da época que ainda acreditavam na força das galés mediterrânicas e na superioridade da abordagem sobre os combates de artilharia no mar) tornara-se uma componente essencial na defesa do território ibérico e na protecção das armadas provindas das possessões ultramarinas, desde que a Espanha vira derrotada a sua Armada Invencível em 1588. Com efeito, a partir daquela altura, as incursões militares ingleses tornaram-se mais arrojadas e a Espanha viu declinar a sua supremacia nos mares, em favor da nova potência marítima.

Para defender a sua ligação umbilical com os metais preciosos do Novo Mundo, Felipe II ordenou a construção de galeões de guerra, - conhecidos como os Doze Apóstolos, pelos nomes que vieram a tomar, entre os quais se contavam o San Felipe, o San Barnabe, o San Christobal, o San Pablo e o San Martin - a maioria dos quais integrava uma frota de defesa que, com base na costa espanhola, tinha como missão deslocar-se aos Açores anualmente, de modo a comboiar as frotas mercantes que ali se reuniam.

A força sob as ordens de Don Alonso Bázan consistia num grupo comandado pelo general Marcos de Aramburu, que tinha sob as suas ordens 11 navios, dos quais 7 eram galeões de Castela. Outros 2 eram flibotes holandeses - uma embarcação rápida, de linhas ligeiras e afiladas, à semelhança dos galeões ingleses - denominados León Rojo e Cavallero de la Mar. Os dois últimos eram navios de avisos, um dos quais era o San Francisco de la Presa. Na frota espanhola, existiam ainda 8 flibotes, que eram comandados pelo português Dom Luís Coutinho. Os galeões de Biscaia eram capitaneados pelo general Martin de Bretendona, coadjuvado pelos restantes oficiais que comandavam as restantes embarcações da armada: Sancho Pardo, António Urquiola, Bartolomé de Villavicencio e António Manrique.

Em 1591, Felipe II ordenou a partida desta frota do porto de Ferrol para a Terceira de modo a fazer face ao perigo que a armada inglesa representava para a frota da prata. O corsário inglês Lord Cumberland, que mantinha uma vigilância apertada sobre a movimentação desta frota avisou então Lord Thomas Howard - que permanecia desde Julho na paragem das Flores - da sua partida, através da pinaça Moonshine, comandada pelo capitão Middleton.

Bázan chegou à Terceira, a 30 de Agosto, e foi imediatamente avisado da presença da frota inglesa no grupo ocidental onde tinha causado toda uma série de desacatos e de pilhagens. O almirante espanhol partiu para Flores mas atrasou-se bastante devido ao tempo desfavorável que se fazia sentir no arquipélago.

No dia 8 de Setembro, Don Alonso de Bázan encontrava-se a cerca de quinze léguas da ilha das Flores. Pretendendo seguir imediatamente para a ilha, Bázan viu frustadas as suas intenções devido à quebra do mastro gurupés no galeão de Sancho Pardo. Alonso de Bázan viu-se assim forçado a mitigar o andamento, encontrando-o a madrugada do dia 9 ainda a cerca de 8 milhas de distância das Flores. O Almirante resolveu então contornar a ilha pelo lado oeste de modo a surgir perante as forças inglesas - que se encontravam ancoradas junto a Santa Cruz - como se viesse do ocidente, fazendo com que os ingleses confundissem a sua armada com a armada das Índias

O estratagema de Bázan resultou em cheio. Os ingleses rapidamente levantaram ferro e acometeram a frota desconhecida. Para seu espanto, em vez de encontrarem navios mercantes fracamente armados, os ingleses encontraram pela frente quatro dezenas de navios de guerra, sete dos quais de grande tonelagem.

A batalha inicial

Aquando do avistamento da frota desconhecida, provinda de oeste, a maior parte dos navios ingleses estava desguarnecida, com as suas tripulações em terra providenciando a aguada e o lastramento das embarcações. Desses tripulantes, uma grande parte encontrava-se doente, sendo portanto, inútil para a acção bélica que se avizinhava. Estima-se mesmo que cerca de 90 tripulantes do Revenge se encontrassem nessa situação. Pelo lado espanhol, é de crer que também estivessem incapacitados parte dos seus elementos, visto que estes se encontravam no mar, quase permanentemente, há mais de dois meses.

Perante o avistamento da frota inimiga, os comandantes ingleses ordenaram o corte das amarras e fizeram embarcar à pressa as suas tripulações. Grenville foi o último a deixar o ancoradouro, já que a sua tripulação demorou bastante a chegar ao Revenge.

Assim que se fez ao mar, Grenville constatou que tinha pela frente uma esquadra de guerra e não uma frota mercante. Com o vento a seu favor, os esquadrões de Sevilha surgiram a estibordo do Revenge e deram-lhe imediatamente caça. Às cinco da tarde, Marcos de Aramburu iniciou uma troca de salvas com os navios de Lord Thomas Howard e tentou mesmo abordar o Defiance. O mesmo tentaram fazer os galeões San Felipe e San Barnabé, mas debalde.

Uma primeira descarga de artilharia, disparada do Revenge, matou o oficial Jorge Troyano que seguia a bordo do galeão San Felipe, comandado por Don Claudio de Biamonte. Este encostou então a sua amura à do navio inglês e lançou uma corda de abordagem, por onde treparam dez soldados espanhóis. O Revenge afastou-se e a corda que os unia partiu-se, lançando os soldados que por ela desciam ao mar. Grenville disparou então as suas armas da coberta inferior. Carregadas com balas enramadas, destinadas a destruir o aparelho do inimigo, a descarga ocasionou avultados estragos, quer no velame, quer no cordame do San Felipe, que acabou por se afastar. Imediatamente, Bretandona fez lançar um ferro de abordagem, a partir do San Barnabé.

Entretanto, aproveitando-se do anoitecer, Lord Thomas Howard escapou-se com o resto da sua frota, sendo perseguido pelo galeão San Martin, a bordo do qual seguia um tercio lusitano e o Mestre de Campo, Gaspar de Sosa.

Grenville, preso ao San Barnabé, não o pôde acompanhar. A maior parte dos ingleses subiu então até aos seus castelos de proa e de popa, de onde disparou os arcabuzes e mosquetes, lançando mesmo granadas de mão para o interior do galeão espanhol.

Em ajuda deste, chegou então Marcos de Aramburu, que fez desembarcar homens para a popa do Revenge. Abalrou-o para esse efeito com a sua própria proa, que ficou destruída até à linha de água. Os espanhóis capturaram então a bandeira do navio inglês, matando alguns dos seus tripulantes e atingindo mesmo a zona do mastro principal. Entretanto, Aramburu afastou-se, com a água do mar a entrar às golfadas para o interior do seu navio e pediu ajuda ao resto da frota. Em seu socorro veio Don António Manrique, a bordo do galeão Ascención, que abalrou igualmente a proa do Revenge, logo seguido pelo português Don Luís Coutinho, que o secundou nessa acção.

A captura do Revenge

Nesta altura, era já noite cerrada. Don Alonso de Bázan fez reunir a sua esquadra ao redor dos três navios imobilizados. Às onze da noite, o próprio Grenville foi atingido por uma bala de mosquete. Enquanto se submetia a cuidados médicos, uma descarga de arcabuzes matou o cirurgião de bordo e feriu gravemente na cabeça o comandante inglês.

O Revenge tinha perdido toda a sua mastreação, enquanto que o navio de Coutinho se afundava durante a noite. O mesmo sucedia, durante a madrugada do dia seguinte, ao Ascención tendo-se salvo a maior parte dos seus tripulantes no navio de Bretandona. O galeão San Barnabé fora tão atingido que chegou mais tarde ao porto de Vigo quase sem velas nem âncoras.

Pela manhã, quase toda a pólvora do Revenge tinha sido gasta e todas as lanças estavam partidas. Do embate tinham resultado cerca de 40 mortos, estando ferida a restante tripulação com maior ou menor gravidade. Na coberta acumulavam-se cerca de 1.5 metros de água proveniente de três orifícios de bala localizados abaixo da linha de flutuação e atabalhoadamente remendados pelos carpinteiros de bordo. Do lado espanhol contaram-se mais de cem mortos, dois dos quais capitães, um deles Luís de San Juan, capitão de infantaria.

Grenville tentou então convencer o seu mestre artilheiro a fazer explodir o navio. No entanto, o capitão William Langhorn conseguiu persuadir o mestre da embarcação a render-se aos espanhóis. Depois de uma breve conferência a bordo da capitânia espanhola. Don Alonso de Bázan ofereceu então a vida e a liberdade aos ingleses em troca da sua rendição. A tripulação encerrou o mestre artilheiro numa cabina do navio - impedindo-o mesmo de cometer suicídio - e dirigiu-se então para bordo dos navios espanhóis. Grenville foi levado para bordo do galeão de Alonso de Bázan, onde veio a morrer, dos seus ferimentos, no dia seguinte.

Só quinze dias depois da batalha que dera a vitória a Alonso de Bázan, surgiu junto à ilha das Flores o remanescente da flota de la plata, comandada por Aparicio de Arteaga.

A frota das Índias

A frota da Nova Espanha partira de San Juan de Ulloa, no México, a 13 de Junho de 1591. Comandada por Ribera, esta frota de 22 navios fora atacada pelo corsário John Watts ao largo de Cuba e perdera dois dos seus navios. Tal já não era novidade, visto que o mesmo corsário tinha feito o mesmo a outros 7 navios espanhóis provenientes de Santo Domingo. À chegada ao porto de Havana, Ribera juntou-se à armada das Honduras e aos navios mercantes que Felipe II tinha mandado ali invernar. Das 120 embarcações iniciais, apenas 71 sobreviveram aos furacões e os corsários.

A 27 de Julho, a frota partiu finalmente de Cuba em direcção aos Açores. Durante a travessia do Atlântico novas tempestades fizeram naufragar mais 11 navios em alto-mar e ocasionaram avarias substanciais no resto da frota. A 14 de Setembro, chegaram às Flores os primeiros 11 navios da armada das Índias. Comandadas por António Navarro, estas embarcações tinham-se separado do corpo principal da frota cerca de 3 semanas antes. Após terem sido reabastecidos com água e víveres, estes navios juntaram-se à frota de Don Alonso Bázan. No dia seguinte, surgiram no horizonte os restantes 49 navios, sob o comando de Aparicio de Arteaga. Os espanhóis viam com desânimo a sua armada semi-destruída. Velas, cordame, provisões, tudo se encontrava estragado ou avariado.

Entretanto, a bordo do Revenge fora colocada uma tripulação mista de 70 homens, espanhóis e prisioneiros ingleses, comandada pelo capitão basco Landagorrieta. Don Alonso de Bázan resolveu então convocar, a 14 de Setembro de 1591, uma junta para se decidir o caminho a tomar:

- deveria a armada permanecer junto às ilhas e aguardar a chegada das fragatas vindas de Havana, com ouro e prata a bordo, bem como a arribada das naus portuguesas da Carreira das Índias, tal como fora instruído por Filipe II?

- ou deveria a armada partir imediatamente para a Terceira, de modo a que os navios danificados pudessem sofrer as reparações necessárias para fazer face à última etapa da jornada, e partir daí para o continente?

Foi decidido que a armada deveria cumprir o regimento régio, pelo menos até à data limite imposta pelo soberano: 5 de Outubro de 1591. Assim, enquanto que junto às Flores permaneciam algumas zabras e caravelas de sentinela, Don Alonso de Bázan partiu com o grosso da armada - 60 navios vindos da Nova Espanha e 36 da sua própria frota - para a Terceira, onde tencionava permanecer até à data acordada.

A tempestade

No entanto, o Homem põe e Deus dispõe. No dia seguinte, pelo meio-dia, o vento começou a soprar rijo de nordeste. Crescendo em intensidade e rodando para norte, o vento assumia já ao anoitecer características ciclónicas e continuava a piorar pela noite dentro. Ao amanhecer, Don Alonso de Bázan descobriu que com ele apenas permaneciam 10 navios. Toda a sua frota estava dispersa algures entre as Flores e a Terceira. Na manhã desse dia afundou-se junto ao San Pablo o navio Espiritu Santu, de São Domingo, tendo-se salvo apenas 1 dos tripulantes.

Por 3 dias e 3 noites soprou o vento furiosamente, agora vindo de oeste. Impelido por ele, Bázan não conseguiu ancorar em Angra, onde parte da armada tinha conseguido chegar miraculosamente, só conseguindo aportar à Praia, onde ancorou a 18 de Setembro. Aí, abrigado no interior da baía, o San Pablo foi inspeccionado e reparado por mergulhadores espanhóis enquanto se tentou, debalde, desembarcar 100 soldados no areal da vila.

Pouco tempo depois, o vento cresceu em intensidade e obrigou Bázan a deixar a Praia e a correr com o tempo, ao largo da ilha Terceira. Simultaneamente, em Angra, a situação não tinha melhor aspecto. Fustigados pelo vento ciclónico de noroeste, os navios viram as suas amarras romperem-se, uma a uma. Empurrados para o largo, muitos procuraram refúgio em São Miguel. Nessa noite 2 dos galeões de Bázan fizeram abalroamento.

Entretanto, o Revenge lutava futilmente contra as ondas, no que era acompanhado por Aramburu e Bertendona. Bázan acabou por não voltar à Terceira. Comandado pelos ventos, agora provindos de sudoeste, Bázan procurou refúgio em Lisboa, onde se reuniu a maioria das embarcações sobreviventes. As restantes foram sendo dispersas pelos portos de San Lucar de Barramena, Cádiz, Setúbal, Porto, Vigo e mesmo Bayonne.

Em plena tempestade, os ingleses continuavam no corso. Assim, os marinheiros do capitão Robert Flicke conseguiram saquear dois dos navios da Terra Firme, antes que estes se afundassem. Ao mesmo tempo, Manuel Paez, comandante do Caçada, um dos flibotes de Coutinho, recapturava um outro navio não conseguindo fazer o mesmo à Nuestra Señora de los Remédios que acabou por ser levada, como presa de corso, para o porto de Plymouth.

Os naufrágios

De encontro à costa norte da Terceira desfizera-se a nau-capitânia da frota mexicana, uma das mais ricas a afundar-se nesta tempestade.

A nau Santa Maria del Puerto afundou-se a menos de duas léguas da Terceira, sendo abandonada pela sua tripulação assim que a água no seu interior ultrapassou a capacidade de esgotamento das bombas.

O San Medel y Céledon foi visto, pela última vez, junto às Formigas.

A nau Madalena, do esquadrão de Urquiola, deu à costa na Terceira perdendo-se metade da sua tripulação.

Um patacho do mesmo esquadrão deu à costa na Graciosa, tendo-se salvo a artilharia e a tripulação.

Uma outra nau, a Vegoña de Sevilla, do esquadrão de Sancho Pardo, perdeu-se em mar alto, afogando-se cerca de 70 homens da sua tripulação de 200.

Duas outras naus naufragaram junto ao Topo, em São Jorge, tendo-se salvo quase toda a tripulação.

Junto a São Miguel naufragaram ainda duas naus das Índias e um galeão biscaínho.

Quanto ao Revenge, deu à costa na Terceira, junto à Serreta num local asperissimo. Da sua tripulação de emergência, apenas sobreviveu um homem, que morreu pouco tempo depois, dos ferimentos sofridos no naufrágio.

Ainda nesse ano, Suarez de Salazar aconselhava o Rei a proceder ao salvamento das peças do Revenge. Entre 1592 e 1593, procedeu-se à recuperação de 14 bocas de fogo, recorrendo-se a meios de recuperação subaquática ainda não totalmente esclarecidos. Para trás ficaram 7 peças que foram, em 1603, arrastadas por uma tempestade para uma profundidade menor, junto à costa, conforme o relatado pelo capitão de artilharia Pedro de Lumbieras. No ano seguinte, foram dispendidos cerca de 500 ducados com a recuperação dessas peças, essenciais para o suprimento da fortaleza de São Filipe. Quase 34 anos depois, a 4 de Julho de 1625, foram recuperadas outras duas peças. Para a tarefa, foi escolhido um artilheiro espanhol, Sebastiano Rivero, que participara já nas anteriores recuperações, tendo só ele recuperado 18 canhões. Uma destas peças era um meio canhão de bronze, com cerca de 40 quintais - 2 toneladas - de peso.

Para saber mais:

Carta de Christovão Soares de Albergaria ao Archiduque Alberto, 24 de Outubro de 1591, in Archivo dos Açores, Vol. II, 1880, Ponta Delgada
Documentação do Arquivo General de Simancas, GA l. 326, d. 21, d. 29, d. 36, d. 44, d. 45, d. 57, d. 202, GA l.626, Consiglio de Guerra
BUSHNELL, G. (1936) Sir Richard Grenville, George G. Harp & Co., Ltd., London
EARLE, P. (1992) Sir Richard Grenville and the Revenge, Collins & Brown Limited, 1992
FALCÃO, A. (1981) “Do Sucesso da Armada que foi às Ilhas Terceiras no anno de 1591”, in Arquivo dos Açores, vol. VI, Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ponta Delgada
LINSCHOOT, J.(1609) “Histoire de la Navigation”, Jean Evertz Cloppenburch, Amsterdam
MARTINEZ, R. (1988) “Las Armadas de Felipe II”, Editorial San Martin, Madrid
RALEIGH, W., A report of the trues of fight about the Isles of Açores, the last of August 1591, betwixt the Revenge, one of her Majesties shippes, and an Armada of the King of Spaine, Separata da Revista Insulana, Ponta Delgada
ROWSE, A. (1937) “Sir Richard Grenville of the Revenge”, Jonathan Cape, Londres
TEIXEIRA, M. (1971) A batalha da ilha das Flores - Sir Richard Grenville e o Revenge, BIHIT vol. XXV-XXVI, Angra do Heroísmo
TENNYSON, A., (1971) The Revenge: a ballad of the fleet in Poems and Plays, Warren, Oxford
WIGNALL, S. (1971) “Progress Report on the Forthcoming ‘International Marine Archaeological Expedition’ to the island of Terceira, Archipelago of the Azores” ”, BIHIT vol. XXV-XXVI, Angra do Heroísmo