O Veleiro Mais Veloz do Mundo Está a Apodrecer em Cascais  

Paulo Monteiro

 

Só agora se lembraram... ainda para mais com tanto barco português mais interessante para estudar... mas enfim, sempre é um princípio.

de CLARA VIANA, no Público de Quinta-feira, 16 de Outubro de 2003

Sob as águas da baía de Cascais, aquele que foi o veleiro mais de sempre tem vindo a apodrecer desde que, no dia 13 de Outubro de 1907, foi propositadamente afundado a tiros de torpedo. Há precisamente 96 anos. Tem sido uma agonia silenciosa a do "clipper" Thermopylae, um quase gémeo e rival do Cutty Sark: apesar de as suas aventuras continuarem a alimentar sonhos na Escócia, Austrália ou no Canadá, em Portugal, seu azarado destino final, o elegante veleiro permanece um ilustre desconhecido.

É a esta história infeliz que um grupo de elementos da Marinha pretende agora acrescentar um fim de tons diferentes, restituindo ao barco, nascido na Escócia em 1868, parte da dignidade que anos depois lhe foi retirada por Portugal. O princípio desta nova "epopeia" - cujos pormenores serão desvendados no próximo número da revista "National Geographic" - ocorreu recentemente debaixo do mar com a identificação do lugar exacto onde jaz o Thermopylae. Se tudo correr conforme o projectado, o segredo poderá a prazo ser partilhado através de um itinerário submarino que permita a observação do barco no lugar que tem sido a sua última morada.

Para já, a próxima etapa da operação passará pelo Museu Marítimo de Aberdeen, na Escócia: para o dia 3 de Novembro está anunciada uma conferência do seu conservador destinada a revelar as "últimas" sobre o mais famoso "clipper" construído nos estaleiros da cidade, cuja história e imagens têm lugar de relevo na instituição.

Na rota do chá com o Cutty Sark

Não por acaso: logo na sua viagem inaugural, em Novembro de 1868, o Thermopylae alcançou um recorde que ainda não foi batido por outro veleiro, fazendo o percurso entre Gravesend, na Inglaterra, para Melbourne, na Austrália, em apenas 60 dias. Os estaleiros de Aberdeen estavam de parabéns, já que a velocidade era o requisito essencial a um barco que, como o Thermopylae, se encontrava destinado a fazer a rota do chá entre Xangai e Londres. Por uma razão simples: ao chá transportado pelo barco que primeiro chegasse à Europa era atribuído o preço mais alto.

A estas corridas deve também a vida o Cutty Sark, que foi mandado construir com o objectivo expresso de derrotar o Thermopylae. Não teve êxito nesta missão, mas a rivalidade entre os dois navios alimenta ainda as histórias vividas no mar. Sobretudo aquela que dá conta da única vez em que ambos os veleiros zarparam de Xangai com a mesma maré. Foi a 18 de Junho de 1872. A viagem prolongou-se até Outubro e ia sendo fatal para o Cutty Sark, que perdeu o leme ao dobrar o cabo da Boa Esperança. Chegou a Londres uma semana depois do seu rival.

Para os "clippers", a rota do chá chegaria ao fim com a abertura do canal do Suez e a concorrência dos vapores, que a partir da década de 80 passaram a dominar este comércio. O Thermopylae foi desviado para o transporte de lãs australianas. A sua presença ainda hoje é recordada em Melbourne, onde está em curso a construção de uma réplica em tamanho natural.

Em 1890, o veleiro, com 65 metros de comprimento, três mastros e 948 toneladas de peso, foi vendido a um armador canadiano, Mais uma vez, o belo barco escocês deixou a sua marca: em 1983, a cidade de Vitória cunhou uma moeda comemorativa da sua chegada a estas paragens. No museu marítimo local subsiste ainda um grupo apelidado de Clube Thermopylae.

Vendido ao Governo português em 1895, o veleiro ganhou o nome de Pedro Nunes. Começou por ser um navio escola e acabou torpedeado ao largo de Cascais, durante uma demonstração naval realizada em benefício do rei D. Carlos. Nessa altura tinha já sido transformado num mero pontão para descarga de carvão. Triste fim para este senhor dos mares, que em Portugal perdeu de vez a sua primazia sobre o Cutty Sark.

Curiosamente, este veleiro também veio parar a mãos portuguesas no mesmo ano de 1895. Rebaptizado como Ferreira, navegou sob bandeira portuguesa durante 27 anos, mas teve a sorte de ser cobiçado por um velho capitão inglês, que o comprou e restaurou. Hoje o Cutty Sark está num molhe de Greenwich, onde tem sido visitado por milhões de pessoas.


A vida e morte de um príncipe dos mares

Junho de 1868- Os estaleiros de Aberdeen concluem a construção do Thermopylae

8 de Novembro de 1868- Parte para a sua viagem inaugural com destino a Melbourne, uma travessia que conclui em 60 dias. Foi o primeiro recorde, ainda não ultrapassado por outro veleiro.

10 de Fevereiro de 1869- Início da travessia entre Newcastle e Xangai. O percurso é feito em 28 dias. A duração normal da travessia nesses tempos era de 40 dias.

18 Junho a 11 de Outubro de 1872- De Xangai a Londres em competição directa com o Cutty Sark. O Thermopylae chega com uma semana de avanço.

1890- Vendido a um armador canadiano

15 de Fevereiro a 10 de Março- Faz a travessia entre Vitória, no Canadá, e Hong Kong em 23 dias

1895- Vendido ao governo português que o rebaptizou de Pedro Nunes e o transformou em navio escola

13 de Outubro de 1907- Transformado em pontão para descarga de carvão, é afundado ao largo de Cascais.


Um barco com nome de guerra

O veleiro mais rápido de sempre foi buscar o seu nome a um desfiladeiro na Grécia, onde ocorreu a primeira missão suicida da história militar. Foi em Thermopylae, Termópilas em português, que o rei Leónidas de Esparta optou por morrer, na companhia de 300 homens, às mãos do exército persa comandado por Xerxes. Diz-se que, com este sacrifício, terá evitado que a Grécia fosse para sempre condenada. Thermopylae significa "portas quentes". Nome que se deve às fontes de água mineral quente que existem no lugar.