A análise do levantamento
arqueométrico dos restos preservados de Angra D permitiu de imediato
estabelecer paralelos entre os métodos utilizados na sua concepção e construção
e as prescrições de alguns dos textos e tratados da arquitectura naval ibérica
do período de transição do século XVI para XVII, tais como sejam o Livro da
Fábrica das Naus, do Padre Fernando Oliveira (1580), o Tratado de
Instrucción Nautica para el Buen Uso de Regimiento de las Naos, escrito
por Diego Garcia de Palacio (1587), o Livro Primeiro de Arquitectura Naval,
de João Baptista Lavanha (1608-1615) e o Livro das Traças de Carpintaria,
de Manoel Fernandes (1616).
Esta presunção é reforçada por outras características, menos evidentes nesta
fase dos trabalhos mas não menos relevantes, como o aumento da altura, medida
sobre a quilha, nas cavernas preservadas (que traduz o levantamento dos
côvados), bem como a utilização de malhetes para a união das cavernas
engraminhadas.
Tonelagem e dimensão das naus e galeões
Sobre o tamanho das naus da Índia são conhecidas inúmeras descrições. O Padre
Fernando Oliveira afirma a este respeito: (...) Em tempo delrey dom Manel,
& delrey Iohão seu filho, quando começou, & floreceo a uiagem da India,
teuerão carrego della homos singulares de entendimento e saber, & não
esquecidos do proueyto: (...) Desdaquelle tempo ateegora sempre se fez aquella
uiagem com naos de quinhentos toneys pera cima, & algumas doytocentos,
& de mil: & estas são, as que sempre fezerão milhores viagens, &
mays seguras: por que são estas mays senhoras do mar. (...). E continua: (...)
em nossos tempos, as mayores são as nossas da uiagem da India, & com rezão,
por q fazem a mayor viagem q se faz no mundo. E são estas de mil toneys pera
bayxo: (...).
Sobre a relação entre a tonelagem e o comprimento da quilha, avança: (...)
Por tanto quando pedem, ou mandão que lhe fação hua nao de seyscentos toneys,
sabem os carpenteyros, que hão de lançar a quilha de dezoyto rumos, dos quaes
resulta hua nao daquelle porte (...).
Por sua vez, João Baptista Lavanha, nos primeiros anos do século XVII,
considerava que, relativamente às naus da carreira da Índia: (…) na edificação
de uma Nao de quattro Cubertas para carga de 17 Rumos e ½ de quilha (que he o
comprimento mais conueniente para a grandeza das Naos deste porte) há mais
dificuldade que em todas as outras, (…).
Sobre estas naus Manoel Fernandez indica que (...) Primeiramente tera de
quilha dezasete rumos e meyo atee dezouto d esquadria a esquadria, e terâ
cento, e cinco palmos sendo de dezessete rumos e meyo (...).
Ora, em Angra D, tanto a quilha como a sobrequilha são constituídas por uma
série de troços de dimensões relativamente pequenas, ligados por escarvas
simples. Em relação às dimensões dos troços de quilha preservados pode-se
afirmar que o valor dos comprimentos dos empalmes assegurava certamente uma
sólida ligação entre si.
Relativamente aos autores coevos, importa referir que Lavanha é de opinião de
que se devem construir as quilhas em troços solidamente ligados: (…) quando
se achara Pao com todas as condições de que se pudera fazer a Quilha enteira e
couçes não conuinha ser senão de pedaços porque como as madeiras tirão por ella
se fosse enteira, estalaria e de pedaços da de sy quando he necesario, e não
quebra. (…) E como a Quilha nao posa ser enteira e aJa de ser de pedaços estes
se aJuntão ums com os outros com umas escaruas (…) e se pregão com pregos que
atrauesão toda a largura da madeira e reuitão da outra parte sobre umas chapas
de ferro a qual maneira de pregos se chamão anielados: (…)
Pelo contrário, Oliveira é a favor da utilização de madeiros com dimensões tão
grandes quanto possível para a construção das quilhas: (...) se for
possiuel, seja toda de hum pao: & senão, sejão bem liados, & pregados,
os que forem necessareos pera a fortificarem: (...) .
Mas este tipo de madeira não deveria ser fácil de obter. Sobre o grave problema
da falta de madeira capaz para a construção naval, o padre Fernando Oliveira
escreveu: (...) E por quanto esta madeyra he tão accommodada pera esta
fabrica, & necessaria nesta terra, & mays não temos outra ygual a ella
pera este mester, deuiassse poupar, & não permitir, que se gastem as
souereyras em caruão, (...). Aliás, quarenta anos mais tarde, mestre
Manuel Gomes Galego, em 1628, afirmava: (…) as madeiras de sovaro q hoje he
se cortão, não são de tanto comprimento pra que fiquem embaraçadas e liadas
huas com outras, como antigam.te herão (…) ao que oje se acha e he tão poyca
que em poucos anos se não achara pr.a se fabricarem naos (…).
Quanto à secção da quilha, verdadeira coluna vertebral da embarcação, Lavanha é
claro: (…) sãos e sem uento e laurem se muy bem de um palmo de largo e de
tudo o mais de palmo que puderem ter de alto porque o restante de palmo serue
para um encaxo que se entalha na ditta quilha, chamado Alifriz onde encaxa a
primeira taboa de forro da nao que se chama Risbordo (…). O palmo indicado
por Lavanha é o palmo de goa, uma medida geralmente utilizada na construção
naval portuguesa e correspondente a 25,667 cm. Três palmos de goa constituíam
uma goa e duas goas equivaliam a um rumo (que é igual 1,54 m).
Segundo Oliveira, (...) rumo (...) significa espaço de seys palmos, tomados
ao longo da nao, que he espaço em que se pode alojar um tonel. (...) e, mais à
frente, “(...) o rumo he a medida dhum tonel em comprido (...) & em largo
no meyo onde tem a mayor largura o tonel tem quatro palmos destes de goa. (...).
Já na construção naval espanhola utilizava-se, como medida básica, o codo
castellano, equivalente a 32 dedos ou 55.7 cm, ou o codo de ribera,
de 33 dedos ou 57.4 cm.
Em Angra D, as cavernas têm, em média, 22 cm de espessura - o que equivale a
cerca de meio codo, não havendo medida linear na metrologia portuguesa que
possa ter sido utilizada neste contexto- com espaçamento de igual valor entre
faces opostas de cavernas contíguas. A este respeito Oliveira refere: (...)
se hão de fazer nauegações grandes, como a da India, cumpre o liame ser forte,
assy pera sostentar o corpo da nao, & peso da carrega, como pera soffrer,
& aturar o trabalho da uiagem. Communmente se daa ao liame destes, grossura
de um palmo de goa em quadrado, hum palmo digo per cada quadra (...) .
Lavanha corrobora esta medida de um palmo de goa: (…) um palmo de grosura
de madeira (…) e serão os meyos, onde a Cauerna se aJunta com os Braços,
chamados covados(…). Parece-nos assim que Angra D se encaixa mais na
tradição espanhola de construção naval do que na portuguesa, facto que é aliás
corroborado pela espantosa quantidade de mercúrio que foi recuperada do
naufrágio e que era uma carga típica dos navios espanhóis do século XVI.
Construção do liame
Todos os braços se encontravam ligados às cavernas por malhetes salientes
(machos), típicos dos navios do horizonte cultural ibero-atlântico, técnica que
foi recomendada por Lavanha: (…) Lauradas estas madeiras como se ha ditto,
se embração no chão todas as (...) cauernas de conta com os seus Braços e
nelles acertadas as primeiras Aposturas, para o que se ha de ter em considerção
com os Couados asinalados nas Cauernas, e nos Braços, porque estes se hão de
aJuntar com muito resguardo e hão de uir ums sobre os outros muy ao Justo e so com
estas linhas dos couados se ha de ter conta, no embraçar os Braços com as
Cauernas. (…)E em umas e em outros se fazem umas emmoçaduras com que se
aJuntão; E asi deitada a Cauerna no chão; poem se lhe de uma e da outra parte
os braços Couado com Couado(…)
Lavanha explica minuciosamente como traçar os contornos das cavernas
gabaritadas a partir de um molde de madeira pré-concebido. Quando a
insuficiência da secção das madeiras não permite que se encoste o referido
molde em toda a extensão do perímetro a desenhar, recomenda a utilização de um
prumo: (…) E quando nas faces das dittas madeiras ouuer faltas (o que
soccede muitas uezes (…) usa se de um prumo pequeno... (…)
Para saber mais:
CASTANHEIRA, E., 1991, Manual de construção do navio de
madeira, Dinalivro, Lisboa
COSTA, L., 1997, Naus e galeões na Ribeira de Lisboa – a
construção naval no século XVI para a Rota do Cabo, Patrimonia Historica,
Cascais
LAVANHA, J. 1996, Livro Primeiro da Architectura Naval,
Academia de Marinha, Lisboa
PALACIO, D. G. 1944, Instrucción nautica para el buen uso
de regimiento de las naos, su traza, conforme la altura de Mexico (1587) ed.
fac-simile, Madrid
OLIVEIRA, M. 1989, Livro de traças de carpintaria com
todos os modelos e medidas para se fazerem toda a navegaçao, assi de alto bordo
como de remo traçado, Academia de Marinha, Lisboa
SOTO, J. 1988, Los barcos españoles del siglo XVI y la
Gran Armada de 1588, Editorial San Martin, Madrid