João da Gama Pimentel Barata, um
dos maiores eruditos contemporâneos da arquitectura naval portuguesa, referia
na introdução ao seu estudo O Tratado das Naus e Galeões Portugueses de
1550-1640 que o traçado dos navios da segunda metade do século XVI e do
inicio do século XVII é mal conhecido porque a documentação técnica é escassa.
Aliás, só a partir da segunda metade do século XVII, lá para o final, há dados
técnicos que permitem conhecer perfeitamente os navios da época, pois todo o
largo período de mais de mil anos que vai até final do século XVI constitui um
hiato na arqueologia naval. Melhor se conhecem os navios egípcios, gregos e
romanos que um galeão quinhentista, porque até hoje ainda não houve a fortuna
de se descobrirem no fundo dos mares e em locais acessíveis os restos de navios
do século XVI, ao contrário do que sucede com os navios da antiguidade.
O eminente especialista, conhecedor como ninguém das fontes clássicas da
arquitectura naval portuguesa, cuja mais erudita expressão se encontra em
Fernando Oliveira, João Baptista Lavanha e Manuel Fernandes, assinalava assim a
completa ausência de testemunhos arqueológicos de navios portugueses descobertos
e estudados, numa ocasião em que, em todo o mundo, as descobertas de navios
antigos se multiplicavam e a jovem disciplina da arqueologia subaquática
começava a desenvolver-se e a prestar uma contribuição decisiva para o avanço
dos conhecimentos neste domínio.
O panorama das descobertas arqueológicas referentes a navios de origem ou
tradição ibérica iria modificar-se substancialmente a partir da década de 70,
na qual viria a falecer Pimentel Barata. Com efeito, a partir desta data, cerca
de uma dezena de destroços de navios afundados atribuíveis a esta tradição
viriam a ser descobertos e estudados em diversos pontos do globo.
Estes casos - quase todos datando do século XVI - iriam constituir a expressão
arqueológica de tudo aquilo que se conhecia à escala mundial sobre a referida
tradição ibérica ou ibero-atlântica de construção naval, até ao início dos anos
90. Estes casos eram os seguintes: Rye A e Cattewater (Reino Unido), Molasses
Reef, Highborn Cay e Western Ledge Reef (Bahamas), San Esteban (Texas),
San Juan (Canadá), Boudeuse Cay (Seychelles) e San Diego
(Filipinas).
Ora, quase todos eles correspondem a navios espanhóis. Constitui manifesta
excepção o caso dos destroços descobertos nas Seychelles, que se confirmou
indiscutivelmente pertencerem a um navio português dos meados do século XVI,
embora dele subsista escassíssima informação quanto à estrutura do navio
propriamente dita. De referir ainda que relativamente aos destroços do navio de
Cattewater, tidos como um exemplo típico da construção naval ibérica ou
ibero-atlântica, nada permitiu inferir o seu local preciso de origem ou de
construção.
Por sua vez, os casos de outros destroços de navios portugueses descobertos,
como o Santo António, afundado na Cornualha em 1527, o Santiago,
afundado em 1585 nas Bassas da India - canal de Moçambique, e dos São João,
São Bento, São Gonçalo, Santíssimo Sacramento e Nossa
Senhora da Atalaia do Pinheiro, afundados nas costas da África do Sul,
respectivamente em 1552, 1554, 1630 e 1647, não podem ser aqui considerados,
uma vez que também não incluem nenhumas partes significativas das estruturas
dos navios.
Embora mais tardios, por se situarem na segunda metade ou mesmo nos finais do
século XVII, haveria a referenciar os casos dos destroços do navio Santíssimo
Sacramento (dito B, atendendo ao navio supracitado, do mesmo nome, perdido
na costa sul-africana), afundado em 1668 na Baía (Brasil), e da fragata Santo
António de Tanna, afundada em 1697 em frente ao Forte de Jesus, em Mombaça
(Quénia), que foram objecto de exploração arqueológica.
No entanto, no primeiro caso, apesar de parcialmente existente, a estrutura do
navio propriamente dita não foi objecto de um estudo arquitectural aprofundado.
No segundo caso, em contrapartida, tiveram lugar diversas e cuidadas campanhas
de escavação arqueológica subaquática que incidiram nomeadamente no estudo do
casco. Conclui-se assim que, até aos anos 90, continuavam a não se registar
quaisquer achados de navios portugueses, susceptíveis de serem estudados
arquitecturalmente, anteriores ao século XVI, época em que se pode dar por
concluído um ciclo de cruciais transformações na história das técnicas de
construção naval europeias, iniciado no final da época medieval.
Este panorama seria significativamente alterado, a partir de 1994, com a
identificação e descoberta dos destroços dos navios, ainda inéditos ou em curso
de exploração, da Ria de Aveiro A, do Cais do Sodré (Lisboa) e do Corpo Santo
(Lisboa) aos quais se veio juntar, mais recentemente, o de São Julião da Barra,
correspondendo presumivelmente à nau Nossa Senhora dos Mártires.
De excepcional importância, nomeadamente devido à sua recuada datação
relativamente à maioria dos exemplares até à data conhecidos àescala
internacional, o navio do Corpo Santo, datado pelo radiocarbono do século XIV e
os da Ria de Aveiro A e do Cais do Sodré, ambos do século XV, constituem assim,
após Port-Berteau II, os mais antigos marcos da construção em esqueleto na
Europa atlântica e no mundo.
Para completar o painel faltava apenas um testemunho coevo da época do apogeu
da arquitectura naval portuguesa, nos planos científico, técnico e experimental
o século XVI, justamente a época que marca também o apogeu do domínio português
dos mares, e o inicio do seu declínio. A descoberta, o começo do estudo e a
identificação preliminar, mas com fortíssima presunção, dos destroços da Nossa
Senhora dos Mártires - a primeira nau portuguesa do extremo final do
século XVI que chega assim até nós - foram a resposta a esta questão.
Apesar da natureza fragmentária dos casos apresentados, do seu reduzido número,
e da fase de estudo preliminar em que se encontram, os destroços do Corpo
Santo, da Ria de Aveiro A, do Cais do Sodré, e da Nossa Senhora dos
Mártires, constituem um dos mais importantes e complementares conjuntos de
descobertas da arqueologia náutica e subaquática contemporânea e um
significativo contributo para uma pesquisa comparada que, desde já, transcende
o seu âmbito geográfico de origem.