A carta arqueológica subaquática dos Açores 

Paulo Monteiro

 

Situadas a meio caminho entre a Europa e o Novo Mundo, no centro de confluência dos ventos dominantes do Atlântico Norte, as ilhas dos Açores constituíram, desde o final da Idade Média, uma base de apoio à navegação europeia que regressava da Ásia, da África e das Américas.

Autênticas sentinelas atlânticas - lugar de abrigo e passagem obrigatória de navios e frotas de comércio ou guerra, onde se destacavam as armadas das coroas ibéricas, ajoujadas sob o peso da pimenta indiana ou da prata peruana - as nove ilhas do arquipélago português foram, muitas vezes, as testemunhas imperturbáveis do fim trágico de várias dessas viagens, em que fazenda, vida e honra se perdiam por entre a imprevisibilidade do mar e os actos de guerra próprios de uma nova ordem geopolítica mundial, que dava os seus primeiros passos na início da centúria de seiscentos.

Hoje em dia, mais do que mero folclore trágico-marítimo, as cerca de oito centenas de naufrágios das águas açorianas constituem um santuário intemporal do património cultural subaquático, património esse que só muito recentemente começou a ser cientificamente estudado.

Com efeito, data de 1995 a primeira tentativa de elaboração, no terreno, de uma Carta Arqueológica Subaquática do Açores (CASA), num projecto que veio a culminar, recentemente, num esforço conjunto entre a Direcção Regional da Cultura do Governo Regional dos Açores (DRC), o Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática do Instituto Português de Arqueologia (CNANS/IPA) e o Institute of Nautical Archaeology da Texas A&M University (INA).


Os Açores

Embora, à semelhança do que aconteceu com as ilhas Canárias, se possa admitir que o arquipélago dos Açores pudesse ser conhecido dos marinheiros da Idade Clássica, este só deverá ter sido oficialmente descoberto por volta de 1427, quando marinheiros portugueses de retorno da costa de África avistaram ilhas densamente arborizadas.

O arquipélago foi rapidamente povoado, durante a terceira década do século XV. Durante os sessenta anos seguintes, este grupo de colónias portuguesas situadas no limiar do mundo conhecido, constituiu a possessão mais ocidental da Europa.

Nos finais do século XV, duas monumentais viagens de descoberta ocasionaram uma alteração profunda no papel desempenhado pelas ilhas até então. A primeira destas viagens foi a de Cristóvão Colombo que em 1493 desembarcou na ilha de Santa Maria, naquela que foi a sua primeira viagem de retorno das Américas. A segunda viagem foi realizada por Vasco da Gama que, aquando da descoberta do caminho marítimo para a Índia, acabou por arribar à ilha Terceira para aí poder tratar – e, mais tarde, sepultar – o seu irmão, Paulo da Gama.

A expansão extraordinária que a Europa conheceu subsequentemente, no tocante ao comércio, à navegação e à colonização de e para as Américas e Índias, transformou os Açores numa encruzilhada do Atlântico. Durante os 400 anos seguintes ancoraram nos portos açorianos navios à vela de todo o tipo, incluindo-se neste tráfego as pequenas caravelas e naus dos exploradores ibéricos, as naus portuguesas da Carreira das Índias transportando têxteis, porcelanas e especiarias da Ásia, os galeões espanhóis com ouro, prata e outros bens das Américas e navios mercantes de todas as nações marítimas da Europa. A riqueza que escalava estas ilhas atraía também corsários e piratas que pululavam nas águas açorianas e que reclamavam pesadas perdas por parte dos mercadores.

Durante os primeiros trezentos anos da história açoriana, a ilha Terceira funcionou como o centro governativo, religioso e comercial dos Açores. Este domínio da Terceira sobre as outras ilhas pode ser explicado pela existência de dois portos naturais na cidade de Angra do Heroísmo, na costa sul. Uma península natural, constituída pelo cone vulcânico do Monte Brasil, projecta-se da ilha num ângulo recto originando para leste o porto principal, a baía de Angra, e para oeste o porto secundário do Fanal, oferecendo protecção contra os ventos dominantes de oeste e possuindo um fundo de areia ideal para a ancoragem.

Durante o apogeu de Angra, como porto quinhentista e seiscentista, a baía encontrava-se regularmente ocupada por navios que se ocupavam em descarregar mercadorias, embarcar produtos locais ou em executar reparações. A baía não era um lugar totalmente seguro visto que se tornava uma armadilha para os barcos ancorados, quando o vento era proveniente do quadrante sueste e possuía grande intensidade.

Estes naufrágios eram tão comuns que os moradores de Angra costumavam referir-se ao vento de sueste como sendo o vento carpinteiro, por este arrojar à costa pedaços do madeirame de embarcações naufragadas, madeira essa que era utilizada na construção civil e no fabrico de mobiliário. Muitas destas madeiras aparelhadas ainda podem ser vistas nas paredes e tectos de muitas das habitações da cidade de Angra.

Em todo o caso, os Açores são, hoje, inquestionavelmente, um dos sítios mundiais de maior potencial arqueológico. O número e o tipo das embarcações naufragadas, durante cerca de cinco séculos, é imenso e nele se inclui muitas variedades de navios à vela do período da expansão colonial que nunca foram estudados por arqueólogos navais. Os naufrágios da das águas açorianas têm, igualmente, a capacidade potencial de vir a fornecer muitas respostas às questões que hoje em dia se levantam no que concerne à evolução do desenho e da construção naval em madeira, às práticas náuticas e aos circuitos de comércio e guerra naval pós-medievais.

Mas, se o potencial arqueológico é excepcional, excepcional é também o interesse que alguns dos naufrágios em águas açorianas suscitam nos meios da caça ao tesouro e da exploração comercial de destroços submersos. Com efeito, estimam-se em cerca de 250 os naufrágios ocorridos nos Açores e que se estimam ter tido a bordo bens de elevado valor venal, como sejam a prata, o ouro ou a porcelana, a maior parte deles em quantidades até agora ainda não recuperadas – pelo menos, oficialmente – em todas as operações de caça ao tesouro levadas a cabo em todo o mundo.

Ora, as quantias em jogo atraem esforços de salvamento - muitos dos quais mais não são do que o culminar de uma longa série de acções de recuperação realizadas desde o próprio acto de afundamento do navio, quando este ocorria em águas pouco profundas – que visam apenas fazer re-ingressar no circuito económico a carga perdida.

Nos Açores, depois de uma tentativa infrutífera para a implementação de uma lei regional que liberalizasse a recuperação de bens arqueológicos subaquáticos, em 1983 - prontamente declarada inconstitucional por parte do Tribunal Constitucional - os interesses dos caçadores de tesouros voltaram-se para o Governo da República, conseguindo mesmo a aprovação, em 1993, de um diploma que atingiu os mesmos fins, com cobertura a todo o território nacional.

No entanto, se algo houve a ganhar com a publicação da lei 289/93 - dita da caça ao tesouro - foi de facto o debate que se seguiu entre os defensores da salvaguarda e estudo do património cultural subaquático e os adeptos da sua liberalização e que contribuiu sobremaneira para a consciencialização do público em geral sobre a matéria em causa.


A Carta Arqueológica Subaquática dos Açores (CASA)

Ultrapassada pelos acontecimentos, e impotente para travar a liberalização das suas água e a consequente delapidação do seu património cultural submerso, a Região Autónoma dos Açores, através do seu Governo e da sua Assembleia, reconheceu que o património submerso jazente nas sua águas era fundamental no reconhecimento da memória colectiva das suas gentes e lugares. Contudo, a quantificação e a qualificação desse mesmo património estavam ainda por fazer. Com efeito, o potencial do património subaquático dos Açores era deduzido dos poucos relatos de naufrágios históricos mais conhecidos e das informações de carácter histórico, por vezes exageradas, erróneas ou até fraudulentas, apresentadas por algumas empresas de caça ao tesouro na sua procura de idoneidade científica.

Surgiam, assim, várias questões cruciais:

- quantos naufrágios existiam realmente em todos os Açores?
- qual ou quais as ilhas que apresentavam maior potencial arqueológico subaquático?
- estariam afundados galeões espanhóis com tesouros nos mares da arquipélago?
- estariam realmente todos os naufrágios açorianos em águas profundas, inacessíveis ao mergulho amador, como era aliás propalado pela maioria das empresas de caça ao tesouro?

Perante a ausência de respostas credíveis a todas essas questões, surgiu a necessidade, logo em 1994, de se proceder a um levantamento sumário do potencial arqueológico dos Açores em geral, e de cada ilha em particular.

A realização desse levantamento principiou, de facto, pela tentativa de conjugação de duas concepções diametralmente opostas: em primeiro lugar, a aproximação arqueológica, que nos leva do naufrágio in situ à sua contextualização histórica e arqueológica e, em segundo lugar, a aproximação histórica, que nos conduz da pesquisa documental à localização e identificação do naufrágio pretendido.

Apesar de ser relativamente infrequente a prática do mergulho amador em águas açorianas, a imersão diária de centenas ou mesmo de milhares de pescadores submarinos nas orlas costeiras de cada ilha faz com que seja relativamente frequente o achamento fortuito de bens culturais subaquáticos por parte destes.

Enquanto que no passado, muitos desses bens eram vendidos ou cedidos a coleccionadores particulares, a crescente sensibilização da população utente do mar para a importância da preservação e estudo do património cultural subaquático tem vindo a produzir os seus frutos, quer no domínio de uma igualmente crescente abertura de processos de achado fortuito quer na comunicação às autoridades competentes da posse ou do conhecimento de outros bens ou sítios da mesma natureza.

Foi, aliás, no resultado de acções de avaliação de achados fortuitos que foi recuperada uma colubrina francesa de bronze, datada aproximadamente de 1520 e submersa a cerca de 36 metros de profundidade ao largo do Monte Brasil, Ilha Terceira , e foi documentado e registado arqueologicamente um núcleo de cinco canhões de ferro, submerso a 14 metros de profundidade ao largo da Vila de Santa Cruz das Flores.

Em todo o caso, à medida que os achados fortuitos - ou, melhor dizendo, a sua comunicação a quem de direito - se vão multiplicando, um pouco por todo o espaço regional, a Direcção Regional da Cultura do Governo dos Açores (DRC) e o Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS) têm vindo a cooperar no que concerne ao estabelecimento de uma política de intervenção esclarecida, responsável, orientada pelo sentido das prioridades e assente em estruturas de futuro, nomeadamente no que se refere a acções de formação e de sensibilização, bem como ao desenvolvimento dos progressos científicos das disciplinas envolvidas e, grosso modo, a todas as orientações globais da lei 13/85 em matéria de fomento e conservação do património, na sua vertente mais alargada.

Com efeito, essa cooperação não se restringe apenas à problemática dos achados fortuitos. Nos últimos anos, a investigação arqueológica nas águas açorianas tem ultrapassado a ocasionalidade dos achados fortuitos e tem vindo a ser programada e faseada, embora caracterizandos-se ainda mais como uma acção de reacção a determinados factores do que como uma acção planeada e dirigida para determinados objectivos pré-determinados.

O projecto conjunto de investigação arqueológica subaquática, realizado pelo Institute of Nautical Archaeology e apoiado pela Universidade A&M do Texas (TAMU) e pela Direcção Regional da Cultura é disso exemplo. O projecto, iniciado em 1996, visou estabelecer um programa de custos moderadamente baixos na localização de naufrágios históricos. Após a equipa amadora de arqueologia subaquática, sediada em Angra do Heroísmo, ilha Terceira, e associada ao Museu da cidade, ter localizado em 1995 três naufrágios, o ano de 1996 foi visto como o início de um programa multi-anual, onde se pretendeu incluir projectos de prospecção e uma escola de campo de arqueologia naval destinada a voluntários e a estudantes dos dois países envolvidos.

Na seguimento da primeira acção de pesquisa organizada desenvolvida com a realização, por meios electrónicos, de uma prospecção subaquática da área norte da baía de Angra do Heroísmo, prestes a ser impactada pela construção do molhe de protecção da marina da cidade, foram descobertos três naufrágios até então desconhecidos – Angra C, Angra D e Run’Her (1864).

Partindo dos conhecimentos adquiridos nesse ano, o INA levou a cabo, em 1997, uma prospecção intensiva de toda a zona sul adjacente à cidade de Angra do Heroísmo, até uma profundidade de 36 metros, utilizando um sistema integrado de sonar de varrimento lateral (SVL), de magnetómetro de protões e de perfilador de sedimentos e com os alvos e os transectos posicionados por um Sistema Diferencial de Posicionamento por Satélite (D-GPS).

Dos três tipos de instrumentos utilizados, apenas o SVL se revelou verdadeiramente útil. Com efeito, os recentes avanços na tecnologia de utilização do sonar de varrimento lateral permitiram a incorporação deste instrumento de prospecção na investigação arqueológica, de uma maneira económica e logisticamente aceitável. Neste equipamento, o reboque do sensor foi feito por uma embarcação de investigação da Universidade dos Açores uma embarcação, a alguns metros acima do fundo marinho. À medida que o sensor atravessava a massa de água ia emitindo impulsos sonoros a uma frequência de 150 Hz. Os impulsos eram então reflectidos pelas irregularidades do leito marinho, que os enviavam como ecos de retorno para a superfície.

Os ecos, depois de convenientemente processados por um computador, forneciam uma imagem de qualidade quase fotográfica do fundo do mar. Os hipotéticos vestígios de naufrágios ou outras protuberâncias que se projectassem por mais de 10 cm para o exterior da superfície do leito marinho eram então registados e correlacionados com os dados gerados por outros instrumentos de detecção remota, para fins de análise e avaliação futura.

Auxiliarmente e pontualmente foram utilizados magnetómetros e perfiladores de sedimentos. O magnetómetro é um instrumento que analisa a duração e a intensidade das variações do campo magnético terrestre, registando as anomalias magnéticas causadas por compostos ferrosos, situados acima ou no interior do leito marinho sempre que as suas intensidades sejam superiores à média das variações para a região. Normalmente, o ferro, como sendo o metal mais utilizado na construção naval, surgiria, assim, sob a forma de anomalias magnéticas sempre que o magnetómetro se aproximasse da jazida arqueológica onde esse metal estivesse presente em quantidades razoáveis. No entanto, experiências de campo mostraram que a eficácia daquele tipo de instrumento é muito reduzida nos mares dos Açores já que o elevado teor em ferro das rochas vulcânicas que compõem os fundos marinhos causava um ruído de fundo perfeitamente inaceitável para os resultados pretendidos.

Finalmente, o último instrumento experimentado foi o perfilador de sedimentos por sísmica de reflexão, já utilizado em exclusividade na campanha de 1996, e capaz de determinar a presença de objectos soterrados nos sedimentos. Um perfilador é constituido por um sistema de alta resolução, a tempo real, de banda larga de FM, capaz de produzir perfis calibrados do subsolo pela emissão, através de um sistema activo de sonar, de um impulso energético de curta duração e de elevada energia e pela posterior detecção do respectivo eco de retorno.

Ao contrário do SVL, que mede áreas de cerca de 400 metros de largura, os perfiladores de sedimento são geralmente usados para interpretar a estrutura geológica do leito marinho bem como a actividade dos processos geológicos em curso nas zonas analisadas para o que realizam uma prospecção num plano perpendicular ao solo do leito marinho. Eventualmente, aquando de um uso mais delicado, os materiais de interesse para o arqueólogo, tais como a madeira, o bronze e o ferro e que possuem uma grande diferença de impedâncias em relação ao meio envolvente, serão relativamente fáceis de localizar. Contudo, mais uma vez, a natureza especial dos solos vulcânicos do subsolo marinho da Terceira invalidaram um aproveitamento integral do perfilador de sedimentos. Em todo o caso, a área coberta pelo SVL foi controlada ao metro graças ao equipamento de D-GPS, que integrava todos os equipamentos de prospecção ao computador de bordo.

Assim que todas as informações gráficas - sonar de varrimento lateral e perfilador de sedimentos - e numéricas - magnetómetro de protões - foram reunidas, o equipamento produziu um mapa tridimensional que apontou precisamente os pontos onde se registavam as anomalias mais intensas de sonar, de magnetismo e de ecos de subsolo e a que corresponderiam, eventualmente, sítios de naufrágios ou jazidas arqueológicas.

A verificação dessas anomalias foi parcialmente feita por equipas de mergulhadores, de modo a permitir a determinação concreta da existência de um determinado sítio de naufrágio e a obtenção simultânea de amostras do fundo marinho para futura correlação com a informação sísmica gerada pelo equipamento electrónico. Os resultados da prospecção geraram um ficheiro gráfico que se mostrou não só útil para os arqueólogos como também para outros cientistas, nomeadamente geólogos e oceanógrafos, já que os resultados da prospecção revelaram fontes hidrotermais e falhas sísmicas submarinas até então desconhecidas, ou na melhor das hipóteses, suspeitadas.

Em 1998, o projecto viu a sua acção alargada às três ilhas do grupo central, São Jorge, Pico e Faial. Durante cerca de 20 dias, uma equipa mista da DRC e do INA, deslocou-se de barco entre vários locais das ilhas do triângulo e localizou e delimitou quatro naufrágios históricos: um no Porto de Pim e dois ao largo do Monte da Guia - todos os três na ilha do Faial – bem como os destroços da fragata inglesa HMS Pallas, incendiada pela tripulação na Calheta, ilha de São Jorge, em 1783. Foi ainda delimitado o local do naufrágio da fragata francesa L’Astrée, afundada em 1796 ao largo de Santo Amaro, ilha do Pico.


A aproximação histórico-documental

Por mais bem sucedidas que tenham sido as intervenções arqueológicas realizadas nos Açores, estas desenrolaram-se sempre dentro de duas linhas de acção. Em primeiro lugar, enquadradas dentro de acções preventivas, prévias à alteração geomorfológica de determinadas faixas costeiras de que são exemplo as prospecções levadas a cabo no âmbito da construção da marina de Angra do Heroísmo, ilha Terceira, e no âmbito da ampliação da marina da Horta, ilha do Faial. Em segundo lugar, dentro de uma linha de planeamento que visava maximizar os achados, minimizando a área a cobrir pelos prospectores. Quer num caso, quer no outro, a metodologia usada – e, ad limine, a própria razão de ser dos projectos de prospecção – baseou-se em informações históricas e na análise quantitativa e qualitativa do potencial arqueológico de cada zona considerada.

Com efeito, o cerne da Carta Arqueológica Subaquática dos Açores é constituído por conjunto de dados, provindos das mais diversas fontes, que formam um Arquivo de Naufrágios Documentados nos Açores (ANDA). A construção do ANDA teve, e tem, por base a pesquisa documental, nomeadamente a realizada em variados arquivos regionais, nacionais e internacionais. De todas as fontes consultadas, citam-se abaixo as mais importantes.

1) Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo (BPADAH) - um arquivo muito importante para obtenção de dados relativos a naufrágios, nomeadamente no que se refere ao período da Capitania Geral (1777 – 1830), em que todas as informações relativas ao governo de todas as ilhas se encontram reunidas no mesmo espaço físico. Particularmente importantes são os maços documentais relativos aos Juizes de Fora, a entidade administrativa que, na Capitania Geral, tinha a jurisdição sobre os naufrágios ocorridos na costa açoriana. No que toca ao século XIX e XX, a BPADAH possui importantes colecções de jornais, nomeadamente os publicados na ilha Terceira. Possui ainda os Livros de Tombo das câmaras terceirenses e o arquivo paroquial das ilhas Terceira, Graciosa e de São Jorge, em que se destacam os registos de óbitos, importnates para a delimitação de desastres marítimos ocorridos na costa.

2) Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Ponta Delgada (BPADPD) - possui um fundo documental extremamente importante para a história açoriana do século XVI e XVII, o Fundo Ernesto do Canto (FEC), onde existem vários documentos da Provedoria das Armadas, embora dispersos. No que toca ao século XIX e XX, possui importantes colecções de jornais, nomeadamente os publicados na ilha de São Miguel, como sejam o Açoriano Oriental e o Persuasão. Possui ainda os Livros de Tombo das câmaras micaelenses e o arquivo paroquial das ilhas Santa Maria e São Miguel.

3) Biblioteca Pública e Arquivo Distrital da Horta (BPADH) - de pouca importância documental no que toca à investigação da ocorrência de naufrágios (o arquivo histórico foi qusede todo enviado para a fábrica de papel nos anos 60!). De relevante possui apenas os arquivos paroquiais das ilhas do antigo Distrito da Horta e os livros de tombo da Câmara da Horta. Importante, no entanto, para a documentação dos naufrágios dos séculos XIX e XX, é a sua colecção de jornais regionais – tais como a Democracia, o Faialense, o Telegrapho e o Correio da Horta.

4) Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) - especialmente importantes são as caixas de documentos relativos aos Açores, existentes desde as primeiras décadas do século XVII. Dispersas pelas caixas do Reino, do Brasil e da Índia existem ainda várias informações relevantes para a documentação de naufrágios em águas dos Açores.

5) Biblioteca da Ajuda (BA) - possui documentação importante, mas muito dispersa. Particularmente relevante é a informação relativa às várias Armadas da Índia e aos navios que delas se perderam nos Açores.

6) Arquivo Nacional da Torre do Tombo (AN/TT) - são particularmente importantes os documentos das diversas Chancelarias, nomeadamente os relativos às Chancelarias Filipinas. Ainda muito pouco pesquisado sob esta óptica, o AN/TT é de certeza, juntamente com o Archivo General de Simancas, um dos que maior potencial apresenta para o desenvolvimento do ANDA.

7) Arquivo Geral de Marinha (AGM) - de relativa importância e, mesmo assim, apenas útil para caracterizar alguns dos naufrágios ocorridos no século XIX.

8) Arquivos estrangeiros - onde avulta o Archivo General de Simancas (AGS) e o Archivo General de Indias (AGI), ambos em Espanha. Importantes são também o Public Record Office (PRO), na Grã-Bretanha, e os Archives des Affaires Étrangers, em França.


Conclusões

A informação proveniente quer de acções de prospecção quer da leitura analítica do ANDA permite um planeamento cada vez mais rigoroso no que se refere à gestão do património cultural subaquático dos Açores. Com efeito, a escassez dos recursos financeiros e operacionais disponíveis leva a que, cada vez mais, seja necessário saber para onde se vai, como se vai, o que se vai fazer e o que se pretende saber, com a máxima economia de tempo, meios e fundos.

Apesar do seu conteúdo documental estar sempre em constante actualização e enriquecimento, o valor primordial do ANDA reside na possibilidade de o seu estudo detalhado permitir às entidades gestoras do património cultural subaquático açoriano delinear estratégias e potenciar ao máximo as hipóteses de ver concretizados com sucesso os estudos arqueológicos futuros das jazidas localizadas nas águas dos Açores.


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Citation Information:

 

Paulo Monteiro,
2003, A carta arqueológica subaquática dos Açores, World Wide Web, URL, http://nautarch.tamu.edu/shiplab/, Nautical Archaeology Program, Texas A&M University