Introdução
Paulo Monteiro
 
O presente relatório preliminar visa dar a conhecer o todo o processo de execução dos trabalhos de escavação e remoção dos destroços dos navios convencionalmente designados por Angra C e Angra D, ocorrido durante a intervenção de escavação de Emergência na Baía de Angra do Heroísmo, entre 1 de Abril e 28 de Julho de 1998, no âmbito do projecto de construção de uma marina nesse trecho de costa.
A importância histórica da baía de Angra do Heroísmo, como ponto de passagem obrigatório das rotas transatlânticas - de que são exemplo disso os numerosos naufrágios aí ocorridos , em número superior a nove dezenas - obrigou a uma atenção redobrada por parte das entidades responsáveis, dada a provável existência de vestígios arqueológicos aí depositados. Durante a prospecção arqueológica subaquática realizada, entre Setembro de 1996 e Fevereiro de 1997, na zona de implantação do molhe de protecção ao Porto de Recreio de Angra do Heroísmo, a equipa interventora, associada ao Museu de Angra do Heroísmo, localizou três naufrágios de relevante valor arqueológico.

Os três naufrágios correspondiam a dois cascos de madeira, convencionalmente designados por Angra C e Angra D - ambos com referenciais de base dados por datações por radiocarbono que apontavam estatisticamente para os séculos XV/XVI, querendo isto apenas dizer que seria menos provável que a verdadeira data se situasse fora dessas balizas temporais - bem como partes da estrutura do Run'Her, um navio de casco de ferro naufragado em 1864, junto ao edifício da Alfândega.

O Run Her foi identificado como um furador de bloqueio, datando da guerra civil americana. O seu naufrágio ocorreu a 5 de Novembro de 1864, na consequência de um erro de manobras, tendo sido o único blockade runner afundado na Europa.

Angra C foi datado pelo radiocarbono como sendo dos finais do século XV/ XVI, tendo sido detectada uma extensão de destroços de cerca de dezasseis metros, estando soterrado aproximadamente sob dois metros de sedimentos, constituídos por lodo e areias finas. De Angra D, datado igualmente pelo radiocarbono como sendo da primeira metade do século XVI, apenas foi localizado um bordo de dez metros e meio, pertencente a um casco em madeira, posicionado por sob a caldeira do Run'Her.

Obtidos estes resultados com a prospecção, as entidades responsáveis encontraram-se na obrigação de salvaguardar estes testemunhos do património arqueológico subaquático, tendo de avançar para uma segunda fase de intervenção, também de emergência, que fosse capaz de promover a escavação, o desmantelamento e a remoção de ambos os naufrágios de madeira, já que se optou por não proceder ao salvamento dos destroços do Run'Her.

Nesta segunda fase de intervenção, a metodologia aplicada consistiu na escavação completa dos sedimentos que cobriam os restos dos dois navios de madeira, onde se incluiu o desenho da respectiva planta bem como a fotografia de todos os pormenores significativos de ambos os destroços, que estavam situados exactamente no alinhamento do futuro molhe de protecção da Marina. Posteriormente, procedeu-se à sua desmontagem, peça a peça, de modo a deixar o local livre para a continuação das obras. Duas alternativas se colocaram então, quanto ao local de depósito transitório de todas as peças.

Na primeira alternativa, todas as peças desmontadas seriam depositadas transitoriamente num outro local da baía de Angra, abaixo dos 15 m de profundidade. Na segunda alternativa, as peças mais importantes do ponto de vista científico-documental, nomeadamente as que constituíam o liame - elementos do cavername, quilha, e sobrequilha - seriam levadas para um local à superfície, onde seriam transitoriamente preservadas e pormenorizadamente estudadas numa fase ulterior.

Dado que não foi possível encontrar, em tempo útil, um local à superfície suficientemente amplo e seguro para o armazenamento transitório das referidas peças e tendo igualmente em conta o ritmo acelerado de trabalho imposto à equipa pela situação criada aquando do atraso verificado na sua criação e operação, ritmo esse incompatível com um registo arqueológico subaquático acurado e completo, foi decidido optar pela implementação da primeira alternativa.

Esta opção veio a reduzir substancialmente os prazos de execução da fase terminal da intervenção, uma vez que o processo de transporte e armazenagem no fundo do mar foi bastante expedito, tendo todas as peças sido transportadas em 3 etapas.

Os cuidados que levaram à manutenção de Angra C e Angra D em meio submerso justificam-se pelo facto de madeira constituinte destes naufrágios estar, à altura da descoberta, submersa há vários séculos. Como todos os materiais de origem orgânica, a madeira apodrece, quando em contacto com a água, sob o ataque combinado de factores químicos e biológicos. Se a imersão for prolongada, para além desta deterioração, a madeira terá tido tempo de absorver água para o interior dos seus poros capilares. É por esta razão que a madeira encharcada não flutua, afundando-se tanto mais depressa quanto maior for o seu grau de encharcamento.

As principais causas da destruição da madeira são os ataques biológicos - causados por vermes xilófagos, como o Teredo navalis, por crustáceos ou por fungos e bactérias - e os ataques químicos - causados por factores tão diversos como a temperatura e o teor em oxigénio do local. Em geral, todas as madeiras sofrem um ataque bacteriano, o que leva à perda dos componentes celulósicos das suas células, ficando a sua estrutura severamente enfraquecida logo após a solubilização dos glícidos e dos sais minerais que estavam originalmente presentes.

Mesmo que o ataque bacteriano não seja grave, num determinado espaço de tempo ocorrerá sempre a hidrólise da celulose, restando apenas uma rede de lenhina, que manterá a estrutura original da peça de madeira.

No entanto, mesmo a própria lenhina virá a desintegrar-se com a passagem dos anos, aumentando cada vez mais os espaços intercelulares, que passam a ficar preenchidos por água. Apesar da perda da celulose não causar qualquer alteração significativa do volume da peça, esta ficará tão porosa que absorverá a água do mar, comportando-se como uma autêntica esponja.

O problema fundamental em se trazer para a superfície uma qualquer madeira encharcada é o de esta poder colapsar sobre si mesma, encarquilhando e retorcendo-se, ficando totalmente disforme. Dependendo do tipo de madeira e do ponto de saturação da fibra de que é composta, assim vão variar os fenómenos de colapso e de encolhimento, que se processam sequencialmente, de acordos com regras físicas derivadas das tensões superficiais que se geram pela evaporação da água do interior das células da madeira.

A principal causa do colapso - a grande distorção centrípeta das células, que quase conduz ao seu desaparecimento - são as tensões capilares que se geram nas células encharcadas e que levam à compressão da parede celular. O encolhimento começa logo que toda a água livre nos poros da madeira tenha sofrido evaporação, causando uma força compressiva no interior da madeira, levando ao estalar da peça e à diminuição do seu volume.

Para se conservarem madeiras encharcadas é, assim, necessário dar resposta a dois problemas: encontrar um meio para se incorporar na madeira um agente consolidante, capaz de lhe conferir resistência mecânica, após a remoção da água; e encontrar um meio capaz de remover toda a água em excesso no interior da madeira, sem que ocorra o encolhimento e o colapso da mesma. Para a conservação total das madeiras, existem vários métodos que são adoptados, conforme as circunstâncias.

O PEG (Polietileno Glicol) é um composto químico que pode assumir diversas densidades - que vão desde o estado liquido à consistência da cera, de que difere pelo facto de ser solúvel em álcool e na água - tendo sido o primeiro material utilizado na conservação de madeiras encharcadas. Durante o tratamento com PEG, a madeira é submetida a concentrações cada vez mais elevadas deste produto, de modo a que a água que contém seja expulsa e substituída pelo polietileno, que deverá atingir, no mínimo, uma concentração de 70%. Este tratamento tem como inconvenientes principais o tempo excessivo que leva - vários anos, por vezes - e os custos que acarreta, já que mil quilos de PEG custam cerca de 370 milhares de escudos.

Foi exactamente para obviar a estes custos que os conservadores desenvolveram um método de tratamento que substitui o PEG por açúcar refinado. A sacarose é administrada em quantidades crescentes até que o seu teor, no interior da madeira, seja de 70%.

Este método tem como inconveniente as condições especiais de armazenamento das madeiras posteriormente requeridas, já que a humidade relativa do meio ambiente nunca poderá ultrapassar os 70%, sob pena do açúcar se dissolver para o exterior da peça.

Outro método consiste em substituir a água no interior da madeira por resina de pinheiro, previamente dissolvida em acetona aquecida a 52ºC. Tem como vantagens o facto de produzir artefactos secos e facilmente manuseáveis.

No entanto, continua a ser um processo caro e apenas aplicável a pequenas peças de madeira. Um método químico final é o que resulta da acção conjugada de um álcool e da acetona, em que a rápida evaporação do álcool, logo após a expulsão da água pela acetona, leva a que as tensões superficiais sejam desprezáveis, ficando a madeira íntegra, com uma densidade e cor próximas das originais.

Um método físico de conservação das madeiras consiste na imersão das mesmas em PEG a 20%, seguida de tratamento em câmara frigorifica especial. Este tratamento tem como inconvenientes o facto de só poder ser aplicado a peças de pequena dimensão, bem como o elevado custo da câmara frigorifica.

Como acima ficou exposto, a hipótese da recuperação, para a superfície, dos naufrágios Angra C e Angra D, hipótese levantada aliás por grande parte da população que evidencia o desejo natural de observar in loco os dois naufrágios, será difícil de concretizar, a breve trecho. Com efeito, Portugal não está preparado para proceder à conservação de dois cascos, de 15 e 32 metros de comprimento, quer a nível material, quer a nível financeiro. Veja-se o caso da Suécia, que recuperou o navio Wasa, afundado em 1628 no porto de Estocolmo. O Wasa foi submetido a tratamento por PEG, desde 1961 até 1972, continuando ainda hoje em conservação, reservando-se só para esse tratamento um terço do orçamento total do Ministério sueco da Cultura.

É por isso essencial que as madeiras desses naufrágios estejam sempre emersas em água de modo a que a informação arqueológica vital que contêm não seja perdida, pelo colapso e encolhimento que sofreriam se viessem à superfície por mais de duas horas.

A segunda fase de intervenção
A intervenção iniciou-se no mês de Abril com uma equipa de dezasseis elementos sob a responsabilidade do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS), e desenvolveu-se no seguimento da fase de prospecção realizada entre Setembro de 96 e Fevereiro de 97. Todo o processo decorreu no âmbito de um protocolo celebrado entre o Instituto Português de Arqueologia (IPA), pela Direcção Regional da Cultura (DRC) e a Junta Autónoma do Porto de Angra do Heroísmo (JAPAH), tendo sido financiado por estas duas últimas entidades.

Treze meses passados, e por inércia das entidades regionais ligadas à obra, deu-se início aos trabalhos da Intervenção de Emergência da Baía de Angra do Heroísmo com uma equipa de nove arqueólogos e sete assistentes, sob a responsabilidade do CNANS e sob a coordenação operacional dos signatários, com vista à escavação e remoção dos destroços para fora da área de localização do futuro molhe da Marina, e dentro das limitações existentes, recolher o maior número de informação sobre os dois contextos arqueológicos.

I Inicialmente previsto o término dos trabalhos de intervenção para o final do mês de Junho, atendendo à continuação da construção do molhe indevidamente iniciado já no mês de Março (interrompido já sobre a área de dispersão de Angra D), estes trabalhos prolongaram-se pelo mês de Julho devido à grande dimensão do casco encontrado.

Características dos sítios arqueológicos
Angra C e Angra D encontravam-se depositados na baía de Angra do Heroísmo a uma profundidade de cerca de 7 metros e distando 50 metros da orla da cidade, estando orientados de oeste para leste, paralelamente à costa, e distando aproximadamente 8 metros um do outro. O dois naufrágios encontravam-se cobertos por idêntico tipo de sedimento. No entanto as suas condições de deposição eram diferentes já que Angra C se encontrava sob uma espessa camada de areia e lodo com cerca de 180 cm, com muito poucas pedras de lastro, enquanto que em Angra D era ainda possível observar algumas das suas estruturas junto à caldeira do Run' Her, encontrando-se as restantes depositadas sob uma camada compacta de pedra de lastro do próprio navio.O fundo desta zona é composto fundamentalmente por areias e lodo, que estão sujeitos à dinâmica da agitação marítima.

Plano da escavação
Devido às diferentes características de deposição dos dois sítios arqueológicos houve necessidade de recorrer a diferentes abordagens para a sua escavação.

Angra C
No caso de Angra C todos os esforços iniciais foram aplicados na remoção da grande quantidade de areia que estava sobre o casco, de modo a se poder avaliar a verdadeira dimensão dos destroços. A 17 de Abril, terminados os trabalhos de limpeza, iniciaram-se os trabalhos de escavação, mais cuidados, já no contexto arqueológico do próprio navio. Nesta altura iniciaram-se os trabalhos de registo: desenho, cotas e fotografia, com a colocação no terreno de quatro quadrículas com 2 X 2 metros cada uma. Estas quadrículas faziam parte de uma só estrutura que, soldada entre si, cobria um total de 8 metros quadrados, tendo ainda a vantagem de poder marcar com fidelidade um alinhamento de 8 metros, por possuir pés móveis e ajustáveis a diferentes cotas, para além de poder ser transportada facilmente

Esta estrutura móvel não só permitia uma sólida base de apoio, sempre que a agitação marítima não era muito favorável, como permitia também uma fácil referenciação em todos os trabalhos de registo. No terreno foram também implantadas, como pontos de referência, barras com cerca de 2 metros de altura, servindo de pontos fixos de triangulação e de cotagem. Foram colocadas 4 barras no sítio, identificadas como B1NW, B2NW e B3SW, B4SW. Convencionou-se que B1NW serviria como ponto 0 para a cotagem do casco.

O objectivo desta intervenção era o de remover todas as peças do navio, uma a uma, para fora da zona de implantação do futuro molhe. No entanto era necessário garantir que toda a informação sobre estes contextos arqueológicos fosse recolhida. Todas as peças de forro exterior, forro interior, cavernas, braços, quilha e fragmento de sobrequilha foram colocadas e acondicionadas numa estrutura do tipo "pallete" de 16 por 8 metros, em ferro e forrada a madeira.

Posteriormente, estes tabuleiros foram removidos, com o auxilio de bóias, por mergulhadores profissionais da JAPAH, e com a participação e orientação da equipa de intervenção, para fora da zona de implantação do futuro molhe da Marina.

Todas as peças do casco requereram um moroso trabalho de registo (inventariação, desenho de pormenor, fotografia, análise de pormenores de construção, etc.) encontrando-se desde então no fundo da Baía a 14 metros de profundidade, fora da zona de construção da Marina.

Angra D
Em Angra D foi necessário inicialmente remover as toneladas de pedra de lastro que recobriam o naufrágio, enquanto que eram implantados no terreno pontos de referência, uma vez que, logo de início e por entre estas camadas, eram localizados alguns artefactos pertencentes ao naufrágio. Deste modo foi implantado um sistema de corredores, que dividia toda a área dos destroços perpendicularmente ao eixo longitudinal, de 4 em 4 metros - L1BB e L1EB, L2BB e L2EB, L3BB e L3EB, L4BB e L4EB, L5BB e L5EB, L6BB e L6EB, L7BB e L7EB.

Nesta fase, a instalação de corredores potenciou o trabalho de remoção de lastro, permitindo uma grande mobilidade aos mergulhadores e deixando a área livre, ao mesmo tempo que garantia o necessário sistema de referências. A necessidade de criar corredores decorreu da grande extensão da mancha dos destroços e, ao mesmo tempo, da urgente necessidade de pontos de referência para identificar o espólio que surgia nestes níveis. Eram consideradas, em geral, apenas as áreas de referência mas, para casos de maior importância, eram utilizadas as barras colocadas nas extremidades, que funcionavam ao mesmo tempo com ponto de triangulação e cotagem.

Os mergulhadores da equipa dedicaram grande parte do tempo, nesta fase, ao transporte de pedra de lastro para fora da zona do casco, sendo auxiliados nessa tarefa por dois mergulhadores profissionais da JAPAH. A remoção das pedras de lastro teve de ser cuidadosa uma vez que, concomitantemente, se descobriram bolsas de vasa e areia com materiais arqueológicos. Todos os materiais localizados por entre as camadas de lastro eram recolhidos e identificados com o corredor a que correspondiam. O trabalho de remoção do lastro prolongou-se durante cerca de um mês ficando concluído por volta de 15 de Junho.

Com o casco perfeitamente visível e a sua extensão reconhecida, foi colocado no fundo um sistema que definia um eixo longitudinal ao longo de todo o casco, sendo fixado por um sistema de tensão que lhe garantia uma permanente horizontalidade.

Este eixo veio facilitar o trabalho de registo de cotas, de desenho e de fotografia (ver esquema n.º 7 em anexo). Foi também colocado o sistema de quadrículas, já utilizado em Angra C. Estas quadrículas foram colocadas no sentido longitudinal do casco (oeste - leste) sempre paralelas ao eixo (esquema n.º 3). Foi assim possível registar directamente todo o casco em desenho à escala de 1/10, à semelhança do que sucedera com Angra C.

Todas as peças de forro exterior, forro interior cavernas, braços, quilha, sobrequilha e balizas de reforço foram colocadas e acondicionadas em duas estruturas de ferro, forradas a madeira, com 16 por 8 metros de superfície. Posteriormente, estas estruturas foram removidas com bóias por mergulhadores profissionais da JAPAH, para fora da zona de implantação do futuro molhe da Marina, encontrando-se no fundo da baía a 14 metros de profundidade, junto à pallete de Angra C. As peças da carlinga do mastro encontram-se em tanques de água e ortofenil-fenol nos armazéns da JAPAH. Todas as peças do casco carecem de trabalho de registo de inventariação, desenho de pormenor, fotografia, bem como de análise de pormenores vitais de construção.

Concretização do plano
Nos quadros 3 e 4, que apresentam uma planificação da concretização efectiva de todos os trabalhos em Angra C e Angra D, podemos verificar o tempo de trabalho despendido em cada um dos sítios arqueológicos, e que foi proporcional à complexidade de cada um. Apesar do plano de trabalho ter sido pré-definido, foram ocorrendo situações inesperadas, às quais foi necessário responder, não esquecendo sempre a urgência do término dos trabalhos e o rigor científico que um trabalho arqueológico exige.

Angra C não ofereceu grande dificuldade, na medida em que o prazo por nós estabelecido se concretizou. Deve-se no entanto comentar-se que um atraso inesperado ocorreu no trabalho de registo em desenho à escala 1:10 do cavername, o que se deveu ao complexo sistema de cavilhagem, pois houve necessidade de se ter mais tempo para o finalizar - por um lado devido à complexidade do desenho e à necessidade de medição e posicionamento de todas as cavilhas de madeira - por outro lado pela dificuldade que surgiu na desmontagem do cavername, uma vez que foi necessário serrar uma a uma cada cavilha de madeira. Depois de todo o registo estar concluído iniciaram-se os trabalhos de desmantelamento pessoalmente orientados por Peter Waddel, do Serviço de Parques do Canadá, especialista neste tipo de intervenção. No decorrer de cada mergulho apenas era possível retirar, no máximo, duas três cavernas de cada vez. Logo que foi viável dispensar elementos dos trabalhos de Angra C, a equipa foi dividida para se iniciarem os trabalhos em Angra D.

Os trabalhos em Angra D mostraram desde o início ser bastante mais complexos, não só devido à grande extensão das estruturas que foram sendo postas a descoberto, mas também devido à grande quantidade de lastro compacto que sobre elas se encontrava. De facto, só depois do casco estar totalmente descoberto é que foi possível o reconhecimento das suas características e do seu estado de conservação e, assim, planear os trabalhos de registo arqueológico.

Por esse motivo, a meados de Junho, constatou-se ser humanamente impossível terminar os trabalhos a 30 de Junho, prolongando-se assim o prazo para 31 de Julho. Os trabalhos de registo de Angra D revelaram-se, no entanto, mais rápidos que os de Angra C. Com efeito apesar de Angra D ser duas vezes maior que Angra C, a maior simplicidade do seu sistema de cavilhagem permitiu um registo mais rápido.

Tirando vantagem do facto de todo o cavername de Angra D estar preservado por debaixo do primeiro nível de madeiras encontrado, optou-se pelo registo em manga plástica à escala 1:1, uma vez que este processo era menos moroso. Este método só se utilizou porque o cavername se encontrava todo ao mesmo nível, permitindo assim um correcto registo por inteiro, procedimento que foi adoptado igualmente em relação ao forro exterior (nível 3 de madeiras), um registo que foi concretizado em apenas um dia de trabalho.

Dos dois naufrágios, o mais demorado de desmontar foi, sem sombra de dúvida, Angra C, em que quase todas as peças utilizavam dominantemente a pregadura de madeira. O facto deste navio ter as suas as peças ligadas, não por pregos de ferro - que quase sempre estão reduzidos a óxidos de ferro - mas por sólidas cavilhas de madeira, aliado à descomunal dimensão das peças estruturais, com cavernas entre 30 e 40 cm de espessura, contribui sobremaneira para essa demora. Apesar de se ter admitido a possibilidade de se recorrer à serragem cuidadosa de peças - método utilizado em casos consagrados, como no navio romano da Madrague de Giens, ao largo de Toulon - apenas se procedeu a uma operação pontual, dessa natureza, em Angra D, com a serragem da quilha e sobrequilha, de modo a se poder içar todo o cadaste num só bloco.

Prazos
Os prazos assumidos no protocolo foram cumpridos, com uma margem folgada de 10 meses, pelo menos no que toca à libertação da área de construção de todo e qualquer impedimento arqueológico. Os trabalhos de intervenção ficaram concluídos a 28 de Julho, três dias antes do previsto pela equipa de intervenção. Os três restantes dias foram ocupados com os trabalhos de desmontagem do estaleiro e de embalagem dos equipamentos, para a sua devolução ao CNANS.

Conclusões
A Intervenção de emergência da baía de Angra do Heroísmo terminou, nesta segunda fase, com êxito, tendo sido cumpridos os objectivos a que se propôs e dando resposta imediata a um problema levantado pela prevista construção da Marina.

Colocada a hipótese de se virem a perder irremediavelmente informações sobre o património subaquático e consequentemente a vir a ser empobrecido o conhecimento da nossa história, esta intervenção pretendeu minorar, dentro dos prazos previstos para a construção da Marina, os efeitos da destruição do que se veio a revelar ser dois cascos de navios, provavelmente dos séculos XVI ou XVII, e assim recolher o maior conteúdo informativo sobre os mesmos.

É de salientar o esforço desenvolvido no terreno pelas equipas que produziram este trabalho uma vez que do tempo previsto no protocolo, este apenas se resumiu a quatro meses de trabalho efectivo, ficando concretizados os trabalhos de remoção dos cascos e respectivo espólio. Ficou, no entanto, por fazer todo o trabalho de conservação de materiais, a organização e classificação das informações recolhidas, o desenho de peças e o adequado acondicionamento do tumulus de Angra C e Angra D.

Ficaram ainda por concretizar operações de análise da dispersão dos destroços através de uma prospecção exaustiva da área de dispersão. Aliás, dado o adiantar da obra que se prolongou até se sobrepor mesmo sobre a considerada área de dispersão de Angra D, trabalhos que foram interrompidos a menos de vinte metros do casco, esta análise encontrava-se já irreversivelmente comprometida.

Será ainda de referir que a instalação da equipa nas condições mínimas adequadas a uma intervenção como a realizada foi negligenciada durante as cinco primeiras semanas, dos quatro meses em que operou, dificultando a gestão da equipa, o trabalho de registo diário necessário e, inclusivamente, os níveis de segurança e de higiene.

A equipa trabalhou sobre um calendário apertado, explorando os limites de segurança racionais, considerados na actividade de mergulho e efectuando um trabalho arqueológico responsável, embora permanentemente desconsiderado a nível local, em certos meios. De salientar que, apesar de todas as dificuldades sentidas, o apoio prestado pela JAPAH e foi efectivo e pronto, correspondendo quase sempre às solicitações da equipa quanto a necessidades ocasionais. O mesmo se pode dizer da DRC, que no limite das suas competências, apoiou e acarinhou este projecto ao mais elevado nível

Estratégias a tomar
A experiência recolhida nos casos dos destroços do Cais do Sodré , do Corpo Santo e da Ria de Aveiro A , cujos estudo preliminares só agora se concluíram, e de muitos outros à escala internacional, mostra que este tipo de investigação demora normalmente vários anos, em função dos meios disponíveis, sobretudo humanos e científicos. Com efeito, um estudo deste tipo implica o exame "à lupa" destes vestígios, registos sistemáticos por desenho e fotografia, análises, etc., antes das fases de estudo propriamente dito, de divulgação científica e de "extensão cultural".

Com o intuito de finalizar o estudo e o tratamento definitivos do património descoberto e de dar imediata continuidade aos trabalhos de registo de Angra C e Angra D, propõe-se o desenvolvimento das seguintes linhas de actuação:

1) Acondicionamento, protecção e salvaguarda biológica, mecânica, física e química dos elementos de casco de ambos os naufrágios, que se encontram há quatro meses no fundo da baía, sem protecção de qualquer espécie, em flagrante violação de toda e qualquer regra arqueológica, incluindo aquelas que vêm explicitadas em Convenções Internacionais de Salvaguarda do Património Arqueológico Subaquático, emanadas da UNESCO e do ICOMOS;

2) Implementação de medidas de conservação e restauro dos materiais que recolhidos nos dois naufrágios e que se encontram, neste momento e há quase quatro meses, em tanques com água, num dos armazéns da JAPAH, sem qualquer tratamento, podendo muitos destes vir a desaparecer por falta de cuidados de conservação específicos. Esta situação está também em flagrante violação de toda e qualquer regra arqueológica, incluindo aquelas que vêm explicitadas em Convenções Internacionais de Salvaguarda do Património Arqueológico Subaquático, emanadas da UNESCO e do ICOMOS;

3) Organização da documentação já existente recolhida durante a escavação. Transcrição de todos os plásticos 1:1 para documentação definitiva. Digitalização e modelização das linhas dos navios.;

4) Organização de todo o espólio recolhido, incluindo a sua devida inventariação;

5) Desenho do espólio recolhido;

6) Envio de amostras para análises nomeadamente espécies animais e vegetais recolhidas, bem como amostras das madeiras e das cerâmicas recolhidas, para fins de identificação geográfica e cronológica;

7) Organização de inventário das peças dos dois cascos de navio;

8) Desenho individual das peças dos dois cascos, para análise de pormenores de construção;

9) Elaboração do relatório final onde já possam ser apresentadas conclusões sobre estes dois navios e posterior publicação. De salientar que, perante a importância excepcional destes dois achados, a editora da Texas A&M University patenteou já o seu interesse em proceder a uma publicação, em língua inglesa, dos resultados finais desta campanha;

10) Execução de análises dendrocronologicas das madeiras de ambos os navios. A dendrocronologia é uma técnica de datação que se baseia, fundamentalmente, na seriação e na contagem dos anéis de crescimento que se desenvolvem aquando do crescimento das árvores. Como a flutuação das condições ambientais - frio intenso, secas, geadas, chuvas fortes, etc. - tende a manter-se constante para uma dada área geográfica, fácil é de prever que o padrão de crescimento dos anéis seja semelhante em cada uma das árvores existentes nessa região. A análise de sequências de anéis de crescimento dá resultados bastante precisos, podendo ir até ao intervalo de erro de um ano.

11) Re-acondicionamento das peças num tumulus localizado no fundo da baía, após estas terem sido integralmente registadas ao pormenor.


Proposta
Para a conclusão deste projecto é necessária a manutenção de uma equipa de quatro pessoas, pelo menos, durante dois anos, dispondo de locais e meios de funcionamento adequados - embora seja necessário prever, em acréscimo, nesta fase de conclusão do projecto, um acompanhamento obrigatório de conservação e restauro e, eventualmente, a orientação e o acompanhamento de um técnico especialista em registo de madeiras de cascos.

Nestes termos prevê-se que anualmente será necessário dispor de um orçamento na ordem dos 25.000.000$00, atendendo que 14.000.000$00 corresponderão aos encargos de pessoal (4 pessoas X 14 meses X 250.000$00 - o que, aliás, como se pode concluir, deixa uma margem apenas minimamente suficiente para os encargos de infra estruturação e de funcionamento do projecto.


Citation Information:

Paulo Monteiro,
1998, Relatorio Angra 98, World Wide Web, URL, http://nautarch.tamu.edu/shiplab/, Nautical Archaeology Program, Texas A&M University