| Angra C |
| Paulo Monteiro |
Descrição geral do sítio arqueológico
O casco naufragado encontrava-se localizado a uma profundidade média de 7 metros, estando soterrado por
cerca de 1,5 a 2 metros de sedimentos, constituídos principalmente por lodos e areias finas. A natureza
móvel do fundo implicou um trabalho moroso no registo arqueográfico do casco, visto as operações
decorrerem normalmente com visibilidades bastante reduzidas, ocorrendo apenas excepcionalmente visibilidades superiores
a 2 metros.
Angra C.
A deposição constante de sedimentos provenientes dos efluentes domésticos e da natural suspensão
criada pelos trabalhos de escavação ocasionaram também o encobrimento dos troços já
escavados. Este facto - apesar de ter como vantagem a protecção das madeiras que se apresentavam
por sobre o sedimento - levou a que o reatar diário dos trabalhos de escavação fosse contraproducente,
visto ser necessário voltar a escavar grande parte do que até então ficara a descoberto.
Este problema só ficou definitivamente resolvido após a abertura de uma vala a cerca de três
quartos do perímetro do sítio, para o que se recorreu a um pontão de dragagem e a um rebocador
de alto mar, ambos pertencentes à empresa construtora do Porto de Recreio, Somague SA, que para o efeito,
por iniciativa da JAPAH e sob coordenação da equipa de arqueologia, fez operar uma bomba de escavação
de alto débito durante um fim-de-semana.

Angra Baía de Angra, com as bóias vermelhas e posicionarem ambos os
naufrágios
Os destroços de Angra C dispunham-se segundo um eixo orientado no sentido NE-SW, ao longo de cerca 14,75
m de comprimento e 6 m de largura máximos, correspondendo a uma área de vestígios com cerca
de 90 m2 de superfície. A escavação superficial completa e a sondagem ligeiramente aprofundada
nas extremidades permitiram verificar que a estrutura preservada correspondia efectivamente a um troço do
fundo de carena de um navio, com as suas partes laterais, aproximadamente simétricas, organizadas em torno
do eixo estruturante da quilha.
Os destroços em questão caracterizavam-se antes de mais pela sua importância e grandiosidade
- expressas nas dimensões dos seus diversos componentes; pela sua massividade - expressa nomeadamente pela
aparência compacta da suas estruturas transversais e longitudinais, que apresentavam uma organização
cerrada; e a manifesta dominância dos elementos de madeira na ligação entre as diferentes peças
da estrutura, que atingiam uma invulgar expressão quantitativa.
Quilha
A quilha de Angra C, presente apenas na sua extremidade SW, tem de secção uma espessura vertical
de 28 cm, e uma espessura transversal de 33 cm na sua parte superior, ao longo de cerca de 10 cm de altura, correspondente
à das suas faces laterais, estreitando a partir daí até à base, onde apresenta uma
largura de 16 cm. O fragmento de quilha sobrevivente tem uma extensão de 10,5 m de comprimento. Este valor
é substancialmente diferente do da quilha do Mauritius que apresentava um valor de espessura transversal
de 42 cm, mas muito semelhante à quilha do buertschip holandês de Lelystad - um naufrágio da
2ª década do século XVII - que apresentava uma espessura de 34 cm. A este valor correspondia
também a quilha do Dartmouth, um navio inglês construído em 1655.

Fotomosaico preliminar de Angra C.
O troço de quilha sobrevivente apresentava escarvas lisas, mas bipartidas, em ambas as extremidades, o que
aponta para um encalhe violento do navio, com o desmembramento resultante da quilha compósita pela sua parte
mais fraca, as escarvas. Uma das características mais evidentes que patenteia é a de não apresentar
nos topos superiores laterais quaisquer entalhes, ou alefrizes, para o encaixe das tábuas de resbordo. Em
compensação, no Mauritius havia, rasgados no topo da quilha, dois alefrizes, onde se inseriam as
duplas fiadas das tábuas de resbordo do duplo casco.
Sobrequilha
A estibordo da estrutura, no bordo noroeste do casco, junto da zona do braço 15, verificou-se a existência
de um segmento da sobrequilha - P1 (ver Planta nº 1, em anexo) - posicionado horizontalmente por sob o tabuado
exterior do casco, com a face inferior denteada, voltada para cima. A sobrequilha apresentava uma largura média
de 45 cm, com uma espessura de 15 cm na sua zona mais cavada. Por sua vez, os denteados apresentavam larguras de
cerca de 40 cm, tendo o rebaixamento uma altura de 7 cm, correspondendo o denteado à posição
que a sobrequilha ocuparia por sobre o eixo central das cavernas, no sentido da orientação da quilha.
Cavername
As características mais relevantes do cavername de Angra C são a grande dimensão da sua secção
e o apertado da sua malha, o que, aliado à invulgar intensidade da cavilhagem de madeira, lhe confere uma
aparência de excepcional robustez. Mais do que constituída por típicos pares braço-caverna
propriamente ditos, a estrutura transversal de Angra C caracteriza-se pela alternância entre estes dois elementos,
ao contrário do que é habitual encontrar em navios deste período, nomeadamente entre aqueles
que pertencem a uma tradição de construção naval ibero-atlântica.

Fragmento da sobrequilha.
As cavernas apresentam secções com uma espessura longitudinal (largura) máxima de 55 cm, mínima
de 24 cm, e média de 32,4 cm, e com uma espessura vertical (altura) máxima de 30 cm, mínima
de 20 cm, e média de 25,4. As cavernas variam no comprimento entre os 2 m (P3) e os 4m (P17/32). O espaço
que medeia entre cavernas varia entre os 25 cm e os 40 cm. Os elementos contíguos braço - caverna
encontram-se, por vezes, ligados por malhetes - sendo exemplo disso a caverna P7 com o braço P43 - que por
sua vez podem ser duplos, como acontece em C/B 4 e 12, a bombordo. Este tipo de ligação é
no entanto raro, verificando-se apenas naquelas duas das dez unidades transversais preservadas.
De referir que, nas peças emalhetadas, o malhete fêmea se encontra sempre do lado da caverna, enquanto
que o malhete macho se encontra sempre do lado do braço. De referir também que, num caso (C12), o
malhete fêmea olha para norte, enquanto que, no outro (C4), o malhete fêmea olha para sul. Parece verificar-se
que a solidez destas peças é garantida através do múltiplo e intenso sistema de pregadura
em madeira, nomeadamente utilizado obliquamente.
As cavernas apresentam de modo irregular - ou de acordo com um módulo ainda não determinado - uma
pregadura vertical por cavilhas de ferro, mais ou menos axial, que as fixa à tábua de hastilhas da
extremidade nordeste, à quilha e, presumivelmente, na maioria das vezes, à sobrequilha, pregadura
esta que por vezes é múltipla. Assim, a caverna C10 apresenta uma cavilha, a 11 e a 12 não,
a 13, três cavilhas, a 14, duas, a 15, uma, e da 16 à 20 não. Por sua vez, o espaço
axial entre as cavernas 17 e 18, no eixo dos braços, apresenta uma concreção axial correspondente
a uma cavilha de ferro e o espaço entre as cavernas 19 e 20 apresenta também, mas em perfeito estado,
o buraco de uma cavilha orlado de uma cavidade vestibular igualmente circular que atesta uma cavilhagem feita apenas,
provavelmente, entre a referida tábua de hastilhas e a quilha.
Cada caverna possuía um orifício central, o embornal, de secção rectangular, que a
atravessava a toda a largura e que servia para o escoamento das águas infiltradas nos espaços livres
por entre as cavernas. Na sua face superior, a maioria das cavernas apresenta, no eixo da quilha, um encaixe para
a sobrequilha com cerca de 40 cm de comprimento por 4,5 cm de largura - P61/74, P57/78, P65/80 e P17/32 - ou mesmo
dois encaixes - casos das cavernas P65, P63/72, P53/82, P19/86, P15/34, P13, P11/41 e P9. As outras cavernas -
P69, P68, P61/74, P7, P5/90. P3 e P94 - não apresentam qualquer entalhe na sua face superior e lateral.
Paralelamente às observações feitas anteriormente a propósito dos sistemas de ligação
e de fixação das cavernas, é de referir que diversos braços - casos dos par P38 e P37
bem como de P39 e P40, por exemplo - são compostos por duas peças de secção triangular
sobrepostas em inversão, de modo a configurarem em conjunto uma secção quadrangular. Os braços
apresentam secções com uma espessura longitudinal (largura) máxima de 34 cm, mínima
de 20 cm, e média de 26,8 cm, e com uma espessura vertical (altura) máxima de 35 cm, mínima
de 14 cm, e média de 23,5.
Tabuado de forro exterior do casco
As tábuas do forro exterior do casco possuem uma espessura que varia entre os 6 e os 8 cm, apresentando
Angra C uma dupla fiada de tábuas da mesma espessura, formando-se, assim, um duplo casco que recobria o
navio.
Tal como no naufrágio SL4, escavado em 1990 na Holanda, em Angra C a tábua de resbordo do lado oeste
não estava totalmente adjacente à face superior das cavernas, apresentando um rebatimento com cerca
de 10 cm de largura e 3 cm de profundidade, rebatimento esse que formava uma boeira desse lado da quilha.
Pares braço/caverna, após a remoção das pranchas do
tabuado interior
A largura ordinária das tábuas do forro exterior, à excepção das tábuas
de resbordo e das primeiras tábuas do forro do fundo, é de 30 cm, medida aproximadamente igual ao
pé inglês (30.48 cm). Não se encontraram quaisquer vestígios da existência de
terços do forro exterior de protecção, quer de placa de chumbo, quer de placa de cobre.
Tabuado de forro interior
Um dos aspectos igualmente salientes da estrutura é o da importância do seu chão interior,
expressa na extensão, largura e espessura das três longas tábuas contíguas que em cada
bordo cobrem simetricamente a estrutura do cavername. Estas tábuas têm entre 60 cm e 3,5 m de comprimento,
larguras entre 30 e 65 cm e uma espessura de 6 a 8 cm, idêntica à do tabuado do casco.
De referir que do lado de dentro deste chão, de cada lado do corredor axial correspondente à sobrequilha,
inexistente in situ, existia uma fiada de várias tábuas mais estreitas e menos espessas do que as
anteriores.
Cavena, apresentando o embornol central e uma escarva na face superior para receber
a sobrequilha
Estas tábuas de boeira, soltas e amovíveis - P28, P37, P101, P102 e P103 - serviam para a inspecção
do espaço livre entre cavernas, por onde corriam as águas infiltradas no porão do navio. Curiosamente,
as ligações feitas entre as tábuas do forro interior eram feitas, não topo a topo como
é normal, mas sim em escarva lisa ou lavada, como acontece na união das tábuas P21 e P22.
De referir que, entre duas das tábuas do forro interior - P21 e P23 - existia, talhada, uma abertura por
onde provavelmente se inseria o poço da bomba do navio.
Tábua de hastilhas
Acima do espaço que corresponderia à quilha, na extremidade nordeste da estrutura, observou-se uma
peça de dimensões consideráveis, com cerca de 75 cm de largura - valor que diminuía
progressivamente para o interior - e 4,5 metros de comprimento. Esta peça, tentativamente identificada como
uma tábua de hastilhas - uma peça única, entalhada para receber os pés das cavernas,
assentando sobre a quilha - percorria quase toda a metade da estrutura dessa extremidade, na sua zona axial. As
três primeiras cavernas desse lado sobrepunham-se a essa tábua de hastilhas, pelo que apresentavam
dos dois lados, simetricamente, um denteado de ressalto das suas partes laterais, onde se encaixavam na referida
tábua.

O desmantelamento de uma caverna
Na parte terminal da tábua de hastilhas eram observáveis, axialmente, os sinais da existência
de duas fortes cavilhas de ferro verticais. Com efeito, no espaço entre as cavernas 17 e 18 (no eixo dos
braços) existia uma concreção correspondente a uma cavilha de ferro (que não se pode
saber se ia até à sobrequilha) e, no espaço entre as cavernas 19 e 20, existia também,
mas em perfeito estado, o buraco de uma cavilha orlado de uma cavidade vestibular igualmente circular, o que atesta
uma cavilhagem feita apenas, provavelmente, entre a tábua de hastilhas e a quilha.
Pregadura
Outro dos aspectos mais notórios destes destroços é a impressionante quantidade de cavilhas
de madeira patentes à superfície das suas estruturas. Este tipo de pregadura é largamente
dominante, embora não seja exclusivo, uma vez que se encontra atestada a existência, aliás
rara, de pregadura de ferro, aparentemente constituída somente por cavilhas assegurando ligações
verticais - ou melhor, de ligação interna-externa ou vice-versa. Os pregos de ferro - um dos quais
foi recuperado - têm secção quadrada e aparentam possuir cabeça redonda como se pode
verificar pelas marcas deixadas nas madeiras.
Bordo oeste de Angra C. De notar a camada dupla de tabuado exterior
Numa contagem quase exaustiva, foram contadas no plano superficial cerca de 1300 cavilhas de madeira. Em contrapartida,
contaram-se apenas pouco mais de uma dezena de cavilhas de ferro, agrupáveis em duas categorias. A primeira
categoria engloba as cavilhas destinadas a assegurar ligações verticais axiais, a maioria das quais
correspondentes a cavernas propriamente ditas. Esta pregadura é, por vezes, múltipla. A segunda categoria
corresponde a cavilhas de reforço de partes não axiais, aparentemente dispostas aleatoriamente, excepto
no caso das cavilhas presentes nas duas extremidades da caverna C9, que são quase simétricas.
Espólio móvel
O espólio móvel é particularmente raro, atestando a turbulência do sítio, dada
a sua pouca profundidade. Merecem no entanto especial destaque um caldeirão de cobre, descoberto nas imediações
do bordo noroeste da estrutura, diversas solas de calçado, diversos fragmentos de cachimbos de caulino,
e um fragmento de porcelana chinesa, infelizmente não contextualizado com segurança, como as peças
anteriores.
O espólio de interesse arqueológico recolhido em Angra C, na sua grande maioria não estava
in situ, encontrando-se disperso em volta do casco ou sob este e em níveis de areia muitas vezes misturados
com artefactos actuais. Além deste pormenor, a proximidade de Angra D e a semelhança dos materiais
encontrados nos dois sítios, podem levar a conclusões diferentes das supostas para Angra D.

Traçado, à escala 1:1 dos detalhes das ligações feitas
entre as pranchas do forro exterior
Na sua grande maioria encontraram-se artefactos em couro, cerâmicas comuns, madeiras - na sua maioria aduelas
de barril - e rolhas de cortiça. No entanto existe uma percentagem de materiais encontrados selados no interior
do estrato arqueológico do casco, na sua maioria materiais orgânicos -sementes, cereais, nozes e ossos
- dos quais nada se pode concluir uma vez que ainda se encontram por quantificar e analisar.
Tipo de estratigrafia
Em Angra C não se pode propriamente falar de níveis estratigráficos uma vez que o tipo de
sedimento em que este casco se encontrava inserido era bastante dinâmico. Verificou-se, durante a escavação
e limpeza deste sítio, que os sedimentos aí encontrados, já no nível das madeiras,
estavam contaminados por artefactos de diversas épocas.
Os lixos actuais misturavam-se com materiais mais antigos, o que permitiu colocar a hipótese de, pela sua
proximidade com Angra D, estes poderem-lhe pertencer. A resposta a estas hipóteses só poderá
ser dada quando os materiais recolhidos na mancha de dispersão de Angra C forem analisados. No entanto,
existem determinados níveis, que por análise estratigráfica, se podem considerar como pertencentes
ao navio.

Desmantelando as pranchas do forro interior
Em Angra C, só o sedimento que se encontrava depositado entre cavernas estava selado. Apenas nestas zonas
foi possível encontrar materiais que podem ser associados à carga de Angra C, uma vez que se encontravam
muitas vezes selados debaixo de lodo compactos e de alguma pedra de lastro, por mistura com cerâmicas.
Extremidade nordeste de Angra C. De notar a tábua de hastilhas, ao centro.
Este corte estratigrafico, por exemplo entre os braços P48 e P86, é uma constante na deposição
entre cavernas. Podiam também encontrar-se alguns níveis de vasa bastante compacta, como foi o caso
do espaço entre as cavernas P70 e P66. Debaixo desta vasa compacta foi ainda encontrada uma peça
em madeira octogonal, que poderá corresponder a uma base do poço da bomba.
Durante a limpeza do espaço entre cavernas foram recolhidas amostras de cerâmicas - cerâmica
comum de pasta vermelha e fina - e materiais orgânicos - sementes, palhas, cereais, frutos secos - que, após
análise, poderão fornecer pistas para o período cronológico de vida deste navio, bem
assim como a sua origem e destino.
Lastro
O lastro do navio Angra C era constituído por pedras brancas, sedimentares calcárias, moderamente
angulosas e de dimensão variável, predominando as de 20/30 cm de diâmetro máximo, em
quantidade muito reduzida tendo em conta a dimensão aparente do navio.

Executando o fotomosaico do naufrágio
Discussão
O casco duplo
Um dos aspectos mais interessantes que resulta desta análise muito preliminar de Angra C é o facto
de este possuir um verdadeiro casco duplo. De acordo com o autor português do século XVI, Padre Fernando
Oliveira, as pranchas que revestiam exteriormente os navios deveriam ser conforme ao tamanho do nauio, & ao
mester em que há de seruir, & a uiagem q há de fazer: por que os nauios grandes, & os que
hão de fazer grãdes viagens & per mares brauos & os que hão de seruir em guerra, hão
mester costados fortes, de tauoado grosso, & dobrado, se comprir.
Ora, as tábuas do forro do casco de Angra C, com uma espessura que variava entre os 6 e os 8 cm, apresentam-se
sob a forma de uma dupla fiada de tábuas, da mesma espessura, formando verdadeiramente um duplo casco. Ainda
de acordo com Oliveira, o casco dobrado usava-se nas naus que faziam a Carreira da India sobre a galagala, servindo
não somente pera guardar a dicta galagala", mas tambem para impedir situações de água
aberta "que os nauios fazem muytas vezes, quãdo lhes o bater do mar tira o breu, & a estopa, & destapa
as fendas.
Suspeitamos, no entanto que este casco dobrado de que falava Oliveira, era utilizado em Portugal de forma diferente
à que encontramos em Angra C. Com efeito, suspeitamos que a segunda camada de casco seria uma camada sacrifical,
composta por tábuas de qualidade inferior, nomeadamente pinho, e de uma espessura menor, como acontece por
exemplo com o caso do Dartmouth. Este navio, naufragado em 1690, possuía uma camada sacrificial de pranchas,
com uma espessura de 13 mm, que ensanduichavam, entre elas e as verdadeiras tábuas do forro exterior, um
camada de calafeto, constituída por breu e pêlo animal.
Como paralelos arqueológicos relativos a navios com um forro duplo de casco exterior, temos o navio Scheurrak
SO1, presumivelmente datando da última década do século XVI, o Mauritius, afundado em 1602
na costa do Gabão e o Batavia, afundado ao largo da costa da Austrália em 1629.
No caso do Mauritius, um navio holandês naufragado em 1609, existia, para além de um duplo casco,
tal como em Angra C, uma terceira camada sacrificial de tábuas de pinho, com cerca de 3 cm de espessura.
No todo, este naufrágio possuía uma espessura total de casco exterior de 20 cm, com cada fileira
de tabuado exterior a possuir entre 8 e 9 cm de espessura. Aqui, tal como no caso do Batavia - que também
possuía um verdadeiro duplo casco - assume-se que o papel desempenhado pelo casco exterior era fundamental
para a resistência estrutural do navio, como referido anteriormente.
Parece-nos, assim, que esta característica nos faz aproximar Angra C mais da escola de construção
nórdica - de casco primeiro - do que da escola de construção naval ibérica - de esqueleto
primeiro. Acessoriamente, verifica-se que, de acordo com os dados dos tratados da época, a uma espessura
de casco desta natureza deveria corresponder um navio com um comprimento entre perpendiculares compreendido entre
100 e 120 pés (30,5 a 36,5 metros).
A pregadura
De acordo com Lavanha, um autor português da viragem do século XVI, a construção naval
ibérica recorria à pregadura de ferro, costumada entre nos. Apesar de haver inconvenientes no seu
uso, já que breuemente os gastava a ferrugem causada da humidaded do mar, Lavanha aconselhava o seu uso,
especialmente se fossem pregos forjados na Biscaia pella boa tempara que se daa ao ferro naquella Provincia, não
quebrando com ela a pregadura e reuitando onde he necesario como pella perfeição com que se laura,
e preço acomodado per que se tem.
Segundo este teórico, que conheceu bem a realidade da construção naval espanhola e portuguesa,
para remediar .o dano que causava o Teredo navalis - o verme xilófago que se alimentava da madeira dos barco
- convinha que na construção de navios não fosse utilizada a pregadura de pao, senão
de ferro, e bem temperada, forte e bem feita, porque entrado o Busano pello taboado do Nauio e furando o ao longo
de veya não encontrara cauilhas de pao, pellas quaes o atrauese, senão ferro duro, que não
roem os seus dentes.
Por outro lado, a fragilidade da própria madeira utilizada nas cavilhas usadas para a construção
das naus de maior porte desaconselhava o seu uso, já que, ainda de acordo com Lavanha, quando esta causa
do Bicho cesase, por outra tambem nos não podem suruir os tornos nas nosas Naos em que se nauega para a
Jndia procedida da grandeza della e grosura das suas Madeiras, Porque como seJa muita e conforme a ella aJa de
ser o comprimento dos pregos, sendo de pao, e hauendo de ter a grosura proporcionada à longura para serem
fortes, serão tão grosos que degolarão os seus buracos toda a madeira, ou quando se tiuer
nella resguardo serão desproporcionados e tão delgados que com qualquer mouimento quebrarão.
Lavanha reconhecia, no entanto, que em França, Hollanda Zelanda, Jnglaterra e em todas as outras partes
do Norte se utilizavam, no lugar de pregos de ferro, Souinas que são quavilhas de pao, os quaes valem pouco,
não se arrancão porque todos se acunhão são leues, não crião ferruJem,
e durão igoalmente com a outra madeira.
Vemos, assim, que no espaço ibérico, as cavilhas de madeira não eram utilizadas, pelo menos
a fazer fé nos tratados arqueológicos, já que a arqueologia subaquática tem demonstrado
que, pelo menos, a nível das ligações braço-caverna, estas cavilhas eram regularmente
usadas. No entanto, nunca ao nível do que é observado em Angra C. De acordo com L'Hour, o uso exclusivo
de cavilhas de madeira para fixar o tabuado é típico dos estaleiros navais holandeses.
Por outro lado, verifica-se que algumas das cavilhas de madeira foram adicionadas ao longo da vida do navio, tocando
muitas destas - ou seccionando mesmo - outras cavilhas que já existiam anteriormente. Esta adição
explica-se pela necessidade de tornar mais estanque um casco envelhecido, com algumas das suas madeiras ou cavilhas
mais ou menos soltas, o que pressupõem um navio envelhecido, já com alguns anos de navegação
e de reparação.
Lastro
Por comparação com outros paralelos arqueológicos, não deixa de ser surpreendente a
reduzida quantidade de pedras de lastro encontradas em Angra C. Tal facto aponta mesmo para que este navio fosse
lastrado igualmente com cascalho miúdo , ou shingle, como era prática corrente nos navios europeus
de origem setentrional, ingleses muito especialmente. Esse cascalho, pela sua maior mobilidade, teria sido arrastado
para outros locais da baía de Angra, durante o processo de naufrágio, de destruição
e estabilização subsequentes de Angra C, enquanto que as pedras de lastro, de maior dimensão,
permaneceriam in situ.
Escoas
O elevado número de escoas - ou mais propriamente de tábuas de forro interior mais espessas do que
o normal - encontrado em Angra C, era prática normal em navios holandeses do período considerado
- séculos XVI e XVII - servindo este pormenor estrutural como protecção da integridade do
fundo do casco da embarcação, no caso navio encalhar no leito marinho temporariamente - pelo menos
até à subida da maré, no melhor dos casos - situação que era corrente nos braços
estuarinos dos Países-Baixos.
Ligações braço-cavernas
Embora estando atestada a existência em Angra C de uma ligação caverna-braço por dupla
emalhetagem, típica de tradições de origem mediterrânica, baseadas no princípio
de construção naval em esqueleto primeiro, diversos aspectos da estrutura do navio permitem levantar
a hipótese de se estar perante um vestígio de navio baseado numa tradição construtiva
diversa, quiçá no designado método dito de casco primeiro ou mesmo num método alternado
ou misto.
Com efeito, diversos aspectos induzem na percepção de que, neste navio, o papel essencial da sua
coesão estrutural parece não depender tanto da estrutura do liame, mas da coesão global assegurada
por três grandes e robustas superfícies contínuas de madeira, dispostas alternadamente em sanduíche
- casco, cavername e forro interior - e garantida por um extenso sistema de pregadura de madeira - em que o papel
da estrutura axial - quilha e sobrequilha - parece quase circunstancial.
Este pormenor estrutural é ainda reforçado pela inexistência de qualquer indício de
fixação dos braços às cavernas - para além dos casos dos dois conjuntos de cavernas-braços
citados, em que esta ligação é assegurada por malhetes - bem como pela episódica falta
de preocupação com a solidez dos braços, por vezes compostos de duas peças sobrepostas,
de secção triangular. Em relação a paralelos arqueológicos, refira-se que no
Dartmouth os elementos do cavername também não estavam interligados transversalmente, dependendo
a sua integridade da fixação providenciada pela cavilhas de madeira que atravessavam as escoas e
os tabuados interior e exterior.
O mesmo sucedia com os destroços do Sea Venture, um navio inglês naufragado na Bermuda em 1609. Assim,
parece assumir especial significado a falta de regularidade da pregadura axial entre a quilha e a sobrequilha,
que é uma das características de base da construção sobre esqueleto. De referir igualmente
a inexistência de alefrizes na quilha - que assim parecem ser substituído pelo tábua de hastilhas
supracitada, e que de algum modo garantiria o encosto das tábuas de resbordo, as mais próximas da
quilha.
Em Angra C, tal como no Dartmouth, a tábua de hastilhas poderia conferia uma solidez extraordinária
ao delgado da popa, ao não deixar ficar espaços vazios no interior do casco. Este elemento torna-se
ainda mais crítico no caso de se estar perante uma embarcação leve e de linhas esguias, o
que mais aponta para se estar perante os restos de um flibote holandês, um dos muitos que passaram por Angra
durante a primeira parte do domínio filipino, facto que é aliás amplamente confirmado por
Linschoten.
Ainda ligado ao espaço marítimo dos Países-Baixos, refira-se que o naufrágio SL4 tem
uma tábua de hastilhas à proa e à popa. Refira-se, en passant, que a existência de uma
tábua de hastilhas em navios deste período é um pormenor estrutural com muitos poucos paralelos
arqueológicos a nível mundial.
Artefactos
Podemos concluir que a ausência de artefactos e as rupturas verificadas em algumas cavernas e braços
(P7, P9, P89, P11/41, P15/34, P17/32) poderão corresponder a marcas provocadas por operações
de recuperação após o naufrágio. Como já foi referido, a quase ausência
de artefactos leva a que, na ausência de análises dendrocronológicas, nos seja muito difícil
situar temporalmente este naufrágio.
No entanto, é de referir que, durante a escavação do naufrágio Angra C, foi recuperado
um cachimbo de caulino, talvez o primeiro intacto a ser encontrado em território português. O cachimbo
- provavelmente do início do século XVII - continha ainda restos de tabaco e apresentava-se enegrecido
pelo uso, o que leva a deduzir que o mesmo pertencia a algum dos tripulantes do barco naufragado, não fazendo
portanto parte da carga. Esta assunção é válida desde que se assuma que o artefacto
pertencia ao espólio do navio não sendo, assim, uma contaminação provocada pela extrema
mobilidade dos sedimentos envolventes.
Os cachimbos de caulino apresentam-se como ferramentas ideais para a datação de sítios arqueológicos
já que a sua fragilidade, a sua ubiquidade e a rapidez com que o seu desenho evoluiu ao longo dos anos levam
a que se possa situar no tempo, e com bastante precisão, o momento em que o cachimbo deixou de ter utilidade
para o seu dono e passou a integrar o registo arqueológico.
Muitos projectos arqueológicos, especialmente os que decorrem no Novo Mundo, recuperam entre 25 mil a 50
mil fragmentos de cachimbos. Alguns desses fragmentos contêm a marca do fabricante ou pormenores gravados
que ajudam a identificar o local de produção ou a escala cronológica da sua utilização.
O cachimbo mais antigo que se conhece, proveniente de meio subaquático, foi encontrado num naufrágio
em Alderney, datado de 1592.
Após um estudo aturado das tipologias de cachimbos, determinou-se que o comprimento da haste está
directamente relacionado com o preço do cachimbo e com o status que ele concedia ao fumador, já que
hastes compridas eram mais difíceis e morosas de fabricar. Foi apanágio dos ingleses e dos holandeses
o uso do tabaco em cachimbos, presumindo-se sempre que navios que têm cachimbos a bordo transportavam marinheiros
ou passageiros daquelas nacionalidades, o que é muito útil para referenciar a origem da embarcação.
Pelo contrário, os espanhóis e os portugueses adoptaram o consumo de tabaco, enrolando-lhe as folhas
e fumando-o como charuto. Apesar de ser esta a maioritária forma de consumo, os povos ibérico não
deixaram de utilizar o cachimbo, embora o tenham feito em muito menor grau do que os povos da Europa Setentrional.
Tal facto é atestado pela recuperação de fragmentos de cachimbo nos naufrágios da frota
espanhola de 1733 bem como os recuperados no Brasil, embora neste último caso se possa tratar de cachimbos
utilizados pelas colónias holandesas lá estabelecidas no século XVII.
Conclusão
Pelo que foi já discutido, estamos em condições de poder afirmar, de uma forma preliminar,
que os destroços de Angra C correspondem ao fundo de querena de um navio, muito provavelmente de origem
holandesa ou inglesa, construído segundo a tradição de casco primeiro, datando hipoteticamente
de finais do século XVI, meados do século XVII.
Esta última data de fecho cronológico é-nos dada pelo facto de o Batavia - que, recorde-se,
naufragou em 1629 - ser o último navio, registado arqueologicamente, a possuir casco duplo. Com efeito,
esta característica estrutural veio a desaparecer gradualmente ao longo das primeiras décadas do
século XVII, numa tendência confirmada pelo caso do Mauritius, em que a existência de cavilhas
que ultrapassavam o nível do tabuado exterior apontava para a presença de balizas de reforço.
O uso destes elementos - que conferiam, ao nível transversal do navio, a resistência estrutural que
antes lhe era dada pela segundacamada de forro exterior - foi também confirmado nos naufrágios da
flute holandesa Risdam (1727) e em vários naufrágios de navios da Companhia das Índias francesa,
tendo-se tornado comum a partir do século XVIII, de modo a facer face aos esforços cada vez mais
intensos que eram exercido pela massa enorme da artilharia transportada. A utilização continuada
das balizas de reforço e a descoberta, em meados do século XVIII, do forro exterior em cobre como
protecção contra os vermes xilófagos, veio tornar obsoleta a utilização de um
duplo casco.
Paulo Monteiro,
1998, Relatorio Angra 98, World Wide Web, URL, http://nautarch.tamu.edu/shiplab/, Nautical Archaeology Program,
Texas A&M University