| O Dorunda, 1894 |
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| O Dorunda era um lugre-patacho (barquentine) Inglês, isto é, era um navio à vela com velas redondas no mastro do traquete e velas latinas nos mastros grande e da mezena. Equipado com um motor a vapôr, tinha 3 136 toneladas de arqueação e pertencia à British, India Steam Navigacion Company. Foi construído em 1875 em Dumbarton e fazia a carreira de Brisbane na Austrália - Londres, transportando principalmente carga e ocasionalmente passageiros. Na época era comum os navios de carga poderem transportar passageiros, nomeadamente na rota das grandes migrações, onde as condições a bordo não eram as melhores, dependendo claro da classe social do passageiro. Os nativos eram transportados no convés. |
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Fig. 1 - Dorunda. |
| No final do Século XIX a pirataria ainda era uma realidade nas águas da Índia ocidental pelo que o Dorunda, assim como outros navios, exemplo do seu gémeo Merkara, possuíam peças de fogo, no caso duas unidades de 6 polegadas. |
| Este navio transportou a primeira carga de carne de vaca exportada para o reino unido vinda de Moreton Bay. Aliás o Dorunda ficaria para sempre relacionado com a história daquela região, como veremos à frente. |
| No dia 27 de Setembro de 1894, vido de Brisbane, de onde partiu a 31 de Julho daquele ano com destino a Londres, o Dorunda viria a perder-se na zona conhecida como "Alto da Vela" em Peniche. |
| Sobre este afundamento as fontes indicam-nos factos diferentes. Algumas referem que o navio terá encalhado naquela zona de Peniche, outras dizem-nos que este terá encalhado nas Berlengas, arquipélago a cerca de 7 milhas ao largo daquela Península, tendo conseguido libertar-se, mas com os danos provocados não conseguiria evitar o embate nos rochedos do "Alto da Vela". |
| Independentemente da forma como se perdeu de facto o Dorunda, as fontes são unânimes sobre o local do seu afundamento e sobre a não ocorrência de vítimas mortais entre a tripulação ou passageiros. A quase totalidade da carga foi recuperada o que nos indica que o navio terá ficado encalhado mas a flutuar, de forma estável e durante um período de tempo suficiente para os trabalhos de resgate. |
| O Dorunda e a cólera dos finais do século XIX na Austrália |
| Em 1874, após anteriores localizações, Peel Island junto a Moreton Bay na região de Brisbane, no continente australiano, foi oficialmente decretada asilo para as vítimas da Cólera. No entanto a palavra asilo, como a compreendemos hoje, não servirá exactamente para descrever as condições em que os doentes eram ali mantidos. O asilo em Peel Island manter-se-ia em funcionamento até ao seu encerramento em 1959. |
| Peel Island seria escolhida para acolher as vítimas de Cólera porque reunião condições excepcionais para a segregação: Possuía água potável; Madeira como combustível; dimensão reduzida o suficiente para permitir um fácil controlo dos seus "habitantes" e era rodeada por tubarões que infestavam a zona, o que impediria qualquer tentativa de fuga a nado. Era ainda perto de Dunwich o que lhe permitia facilmente ser abastecida de bens e ser supervisionada por pessoal médico. Possuía ainda um ancoradouro de águas profundas o que lhe permitiria receber todos os navios de passageiros a fim de os colocar sob quarentena, para que após fiscalização médica seguiria para o seu destino. |
| A tripulação e os passageiros eram acomodados em Peel Island para quarentena, observando uma rigorosa estratificação por classes: Os passageiros de 1ª classe ocupariam as maiores e melhores instalações que ficavam do lado sul da ilha; Logo após eram acomodados os oficiais e os médicos em conjunto com os passageiros femininos das classes menos favorecidas. Por último a tripulação e os passageiros masculinos das classes mais baixas eram acomodados em tendas. |
| Ora, foi exactamente neste contexto que o Dorunda ficou para sempre ligado ao surto de Cólera dos finais do século XIX que assolou a Austrália, na região de Brisbane e Moreton Bay. |
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Fig. 3 - Dorunda em Cangaroo Point, Brisbane, Austrália. |
| Em 1885, vindo de Londres para Brisbane, o Dorunda registaria pelo menos três casos de Cólera a bordo. |
| De facto, como testemunhou o médico Dr. Ridgley, Delegado de Saúde do Governo em Townsville, a bordo do Dorunda existiam passageiros doentes e com sintomas de cólera. Ridgley faria as diligências necessárias para com as autoridades locais e o Dorunda ficou de quarentena em Peel Island, não sem antes ter atirado borda fora as três vítimas mortais de cólera registadas: Francis Paoli, um estudante de Medicina; Cuthbert Pease, um soldado do exército Britânico e George Beaumont. |
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Fig. 1 - Dorunda em quarentena em Peel Island por causa da cólera . |
| A British India Steam Navigation Company |
| Esta companhia de navegação, proprietária do Dorunda, foi fundada em 1856 simultaneamente
com a Calcutta & Navigation Company. Em 1862 reduziu-se a British Steam Navigation Company, Ltd, navegando
de Londres para Colombo, Madras e Calcutá. Em 1914 fundiu-se com a Peninsular Steam Navigation Company, conhecida por P&O. Em 1971 a P&O reorganizou-se na General cargo, Passenger and Bulk Handling, sendo que todos os navios das outras companhia seriam, progressivamente, transferidos para esta última. |
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| Fontes Bibliográficas |
| Calado, Mariano, Peniche na História e na Lenda, 3ª Edição, Peniche 1984; |
| Laxon & Perry's BI book, 2003 |
| http://oceans1.customer.netspace.net.au/austrun-wrecks.html; http://www.biship.com/fleetlists/fleet1870-1879.htm; http://www.nmm.ac.uk/searchbin/searchs.pl?exhibit=it1343z&axis=982929298&flash=false&dev=; http://users.bigpond.net.au/pludlow/peelhist.htm; http://users.bigpond.net.au/pludlow/database.htm; http://www.maps.jcu.edu.au/hist/fever/plague/coolly.html; http://www.slq.qld.gov.au/scd/committees/pa_pe.htm; http://www.theshipslist.com/ships/lines/bisn.html. |
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| Informacao para citacao bibliografica: Jorge Russo, 2003, A Arqueologia Nautica de Peniche: Index Page, World Wide Web, URL, http://nautarch.tamu.edu/shiplab/, Nautical Archaeology Program, Texas A&M University. |
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