O San Pedro de Alcantara, 1786

 

O naufragio do San Pedro de Alcantara por Jean Pillement

 
O navio de guerra espanhol de 64 canhões, partiu do Peru na América do Sul em 1784 com destino a Cadiz no Sul de Espanha. Carregava Cobre, Prata e Ouro provenientes das minas Peruanas, bem como um extenso e valioso espólio constituído por peças de cerâmica pré-hispânica da cultura Chimu, pertencente à colecção cientifica dos botanistas Ruiz e Pavon, que estes recolheram no início de 1780 de diversas ruínas e cavernas na região de Tarma. Transportava ainda uma sinistra carga humana, Incas do movimento independentista Tupac Amaru, para além da tripulação e passageiros, num total de mais de 400 pessoas.
Este navio, construído com madeira tropical de caoba por um armador Inglês ao serviço do Rei de Espanha, nos arsenais da Ilha de Cuba em 1770/71, zarpou do Peru com uma carga que excedia em muito o peso considerado seguro. Na época as regras de carregamento de navios não se regiam exactamente por critérios de segurança ou de razoabilidade, mas sim na maioria das vezes, por critérios económicos, políticos ou militares, como veremos á frente.
De facto em 1784 o San Pedro de Alcantara carregava quase 1 tonelada de carga, ou seja, cerca do dobro da carga normalmente indicada como limite para um navio daquelas características. Desta carga, cerca de 600 toneladas seriam de Cobre, 153 toneladas de Prata sob a forma de moeda e 4 toneladas de Ouro.
Com esta carga o navio corria o risco de perder o fundo em caso de uma tempestade e ficaria muito difícil de manobrar.
Durante a viagem, e desde o seu início eram inúmeras as infiltrações de água que se registavam no San Pedro de Alcantara, de tal forma que estava em risco de naufragar, tanto assim que apesar do contínuo movimento de bombas de água pela tripulação, após dobrar o Cabo Horn, o navio aportou ao Rio de Janeiro no Brasil para reparações.
Com as reparações terminadas, no início de 1786 o San Pedro de Alcantara partiu novamente para a sua jornada com destino a Espanha.
Às 22h30 do dia 2 de Fevereiro de 1786 o San Pedro de Alcantara encontraria o seu destino ao embater de forma muito violenta contra os rochedos da Papoa em Peniche.
A uma velocidade de cerca de 6 nós o excessivamente pesado casco partir-se-ia em dois, com o porão a afundar-se imediatamente e o convés flutuando por algum tempo afundar-se-ia mais adiante.
Desta tragédia resultariam 128 mortos e 270 sobreviventes. Imagine-se o horror dos Incas cativos, presos provavelmente no porão com grilhetas de ferro.
A notícia chegaria a Espanha nesse mesmo dia e com grande alarme se preparou a maior empresa de recuperação de que havia história. De facto a grande maioria da carga seria recuperada em cerca de três anos de trabalho com recurso a mais de 40 mergulhadores de diversos Países da Europa que, em apneia (mergulho livre), trouxeram à superfície a quase totalidade das peças de fogo (equipamentos extremamente valiosos e dispendiosos na época) bem como a quase totalidade das mais de 750 toneladas de metais preciosos e moedas que continha a carga do San Pedro de Alcantara.
As razões que levaram à perda do San Pedro de Alcantara não são muito claras.
De acordo com as fontes da época o tempo estava calmo, com uma noite clara e o mar sereno. O que é provável é que com a excessiva carga, o navio tenha ficado muito difícil de manobrar, e com as imprecisas técnicas de navegação da época é possível que um pequeno erro de calculo o tenha levado até à costa de Peniche e a difícil manobra de evasão aos rochedos se tenha revelado demasiado difícil e tardia.
Para além disto, um estudo efectuado pelo Serviço Hidrográfico da marinha de Brest, em França e pela astrónoma Dra. Alfredina do Campo, do Observatório Astronómico da Ajuda em Lisboa, permitem saber que em 2 de Fevereiro de 1786 pelas 22h30, Peniche observaria uma maré extremamente baixa.
Estes dois factores devem ter determinado de forma definitiva o destino do San Pedro de Alcantara.
Mas a tragédia deste navio não terminaria aqui. O transporte do espólio recuperado na Papoa foi transportado por terra até Peniche de Baixo, na oposta extremidade Sudeste da Península. Este seria carregado na Balandra Espanhola El Vencejo que a caminho de Cádiz naufragaria junto à costa, na Baía que liga a Consulação a Peniche, com a perda de mais 92 vidas.
No entanto deste naufrágio seria recuperada a carga que com a restante salvada lá chegaria a Espanha.
Este naufrágio foi amplamente decomentado na época e nos mais de 200 anos seguintes até à actualidade, como comprovam as mais de 40 000 referências nos arquivos de Sevilha, das inúmeras referências em periódicos da época e nos diversos trabalhos de investigação que motivou, especialmente os realizados pelos seus maiores investigadores, Dr. Jean-Yves Blot e Maria Luisa Pinheiro-Blot.
A tragédia motivaria ainda a construção de um altar na Igreja de São Pedro em Peniche em honra de Nossa Senhora das Dores, com a colocação das imagens de S. Pedro de Alcântara e de um crucifixo. Foi ainda colocado junto ao local do naufrágio um cruzeiro, entre o Porto da Areia Norte e a Papoa, que se encontra hoje no Museu de Peniche onde pode ser visto.
A notícia deste naufrágio seria do conhecimento Europeu, de tal forma que o pintor Francês Jean Pillement (1728-1808) pintou diversas obras onde se retracta o naufrágio e o salvamento posterior da sua carga. Duas destas obras foram adquiridas em Dezembro de 1987, no Mónaco, pelo Instituto Português do Património Cultural num leilão da prestigiada Sotheby's. Estas obras encontram-se hoje no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa.
 
A importância singular deste naufrágio
De facto o naufrágio do San Pedro de Alcantara revestiu-se na época de importância e revelo singulares. O que motivaria uma tão extensa, pronta e dispendiosa acção de recuperação da sua carga seria ela mesma. Calcula-se que para a economia Espanhola da época a sua carga de cobre, prata e ouro, representaria mais de 10% do valor económico em circulação, pelo que a sua perda causaria, com toda a certeza, uma catástrofe económica e o seu colapso, com todas as implicações económicas, sociais e políticas e com a perda do relevo mundial do império Espanhol.
As razões pelas quais se pode justificar a enorme e invulgar quantidade de carga que o San Pedro de Alcantara trazia, a ponto de obvia e conscientemente se arriscar o seu valor, são diversas. O Estados Unidos tinham conseguido a sua independência, pelo que em 1783 tinham cessado as hostilidades onde Espanha e França ao lado da Inglaterra tinham participado; O embargo Inglês aos portos da América do Sul tinha também cessado, pelo que estavam a gora criadas as condições para o transporte de grandes quantidades de bens do rico continente sul-americano.
Para termos uma ideia, durante os séculos XVI, XVII e XVIII a quantidade de metais preciosos importados pelas grandes potências da época como Portugal e Espanha, foi de tal envergadura que se calcula ter causado uma inflação à escala mundial.
Mas porquê a urgência? De facto na época da partida do San Pedro de Alcantara do Perú tinha-se já iniciado a famosa rebelião nativa de Tapuc Amaru, pelo que Espanha receava a instabilidade que poderia colocar em causa o transito deste metais preciosos entre a América do Sul e a Europa.
 
A carga humana cativa do San Pedro de Alcantara
O San Pedro de Alcantara para além da valiosa carga em metais preciosos, soldados tripulantes e passageiros, trazia uma vintena de presos políticos índios entre homens, mulheres e crianças, ligados à rebelião de Tupac Amaru, dezassete dos quais morreria no naufrágio. Nestes presos estava Fernando Tupac Amaru, o filho mais novo do rebelde, que sobreviveu ao naufrágio e que após algum tempo de liberdade viria a entregar-se às autoridades sendo enviado para Espanha onde morreria alguns anos mais tarde.
Esta comitiva de presos políticos reveste-se de especial relevo pela ligação à maior rebelião indígena que a história colonial hispano-americano viria a registar. Em 1780, José Gabriel Tupac Amaru, que era cacique da aldeia de Tungasuca, no vale do rio Vilcanota (Sagrado para os Incas), iniciaria a mais de 3300 metros de altitude nos Andes do Perú meridional, uma rebelião que o conduziria à morte por enforcamento um ano mais tarde.
José Gabriel Tupac Amaru, descendente da dinastia Inca por linhagem da sua mãe, foi executado pelos mesmos Espanhóis que tinham dizimado, duzentos anos antes, o antigo e poderoso império Sul-Americano. O chefe rebelde seria esquartejado em público na presença do seu filho mais novo, Fernando, que escaparia com vida à tragédia da Papoa em Peniche, e que uma vez mais por persistência do destino, morreria também ele às mãos de Espanhóis.
A diferença de tratamento era de tal forma evidente que por oposição à forma solene e cuidada com que foram sepultadas as vítimas europeias do San Pedro, os índios seriam amontoados numa vala comum e enterrados ainda com as grilhetas de ferro colocadas nos membros.
O nome de Tapuc Amaru ficaria eternamente ligado às rebeliões e é hoje inspiração para os movimentos nacionalistas do Perú, num país ainda hoje dilacerado pela guerra civil.
 
A estudo do San Pedro de Alcantara e a escavação arqueológica
Os Arqueólogos Jean-Yves Blot e Maria Luisa Pinheiro Blot estudaram a história do navio Espanhol e empreenderam escavações arqueológicas, subaquáticas no local do naufrágio e terrestres no local das sepulturas das vítimas, desde o ano 1975.
De facto este navio deverá ser o mais exaustivamente estudado e escavado da história do nosso país.
 
As campanhas subaquáticas
Em 1988 nos meses de Julho a Setembro e Setembro a Outubro de 1996, efectuaram-se duas campanhas de escavação subaquáticas após um longo período de investigação e divulgação de resultados.
Estas duas campanhas permitiram identificar com precisão o local do afundamento, com a determinação da zona arqueológica, de cerca de 2 hectares, onde se espalharam os vestígios e o local provável onde a proa do navio terá embatido no fundo rochoso e a partir do qual o resto da navio terá flutuado a afundado posteriormente.
Nesta zona de embate do navio foram encontradas as primeiras peças de cerâmica que o navio transportava. Entre estas peças encontraram-se numerosos fragmentos que confirmam não só a autenticidade do espólio como sendo do San Pedro de Alcantara, mas também a existência a bordo da colecção científica dos botanistas Ruiz e Pavon que terá sido embarcada em 1784 com destino a Espanha.
Estes fragmentos revestem-se da maior importância por quanto serve de despiste à existência de espólio de um outro afundamento no local em 1963, o cargueiro João Diogo.
Foram ainda recolhidos do local um lingote de Cobre remanescente da incrível campanha de recuperação da carga do navio ocorrida no século XVIII, uma peça de artilharia provavelmente da zona dianteira do navio, alguns objectos metálicos em concreção e um bloco de madeira intacto.
Numa das concreções recuperadas que se reveste de particular interesse foi descoberto um projéctil do tipo grape-shot, que era constituído por pequenas e esféricas balas de ferro encerradas num envolucre de material têxtil que serviria de projéctil de fragmentação em substituição de uma tradicional bala única de dimensões maiores.
 

Trabalhos de salvamento no sitio de naufragio do San Pedro de Alcantara

 
As campanhas de escavação em terra
Conduzidas pela Dra. Maria Luísa Pinheiro Blot, o objectivo destas campanhas foi determinar o local onde teriam sido sepultadas algumas das vítimas mortais do naufrágio do San Pedro de Alcantara.
Após extensas prospecções geofísicas e em terra, foram localizados os primeiros vestígios osteológicos humanos dos náufragos em 1986. Trabalhos posteriores viriam a revelar a localização de 29 dos corpos enterrados e pertencentes às vitimas do navio. Em 1995 foi encontrada uma mulher idosa e posteriormente duas crianças, enterradas a pouca profundidade e revelando extremo cuidado no seu manuseamento.
Estes três indivíduos foram descobertos nas imediações dos anteriores 29, encontrados junto do Porto da Areia Norte, perto do local do afundamento.
Sabe-se no entanto que mais de 100 indivíduos teriam sido enterrados naquela zona por ocasião do naufrágio.
Estas campanhas foram visitadas em 1987 pelo Adido Cultural Peruano no nosso país e a campanha contou com a colaboração da reputada Antropóloga Peruana Dra. Judith Vivar, da Universidade Católica de Lima.
Interessante foi verificar que alguns destes corpos tinham sido enterrados e cobertos por uma espessa camada de cal, o que causou uma modulação dos tecidos do corpo e permitiu efectuar um molde para a realização posterior de um modelo positivo em silicone, pelos Laboratórios de Conservação e Restauro de Conimbriga. Este modelo pôde ser observado pelo público em 1995 no Museu de Peniche, onde fazia parte de uma exposição alusiva ao naufrágio do San Pedro de Alcantara, denominada "O Navio do Último Inca.".
 
Fontes Bibliográficas
Mariano Calado, Peniche na História e na Lenda, 3ª Edição, Peniche 1984;
Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, Vol. 6;
Pedro Cervantes de Carvalho Figueira, Ilustração Portuguesa, Vol. 2º;
Jean-Yves Blot e Maria Luísa Blot, O interface História-Arqueologia: o caso do "San Pedro de Alcantara" (1786), Academia de Marinha, Lisboa, 1992/93;
C. Guedes Soares, A Engenharia Navel em Portugal, Vol. IX, IST, Dezembro de 1995;
Revista Grande Reportagem, Artigo X24, Agosto de 1997;
Expo´98, Catálogo Oficial do Pavilhão do Conhecimento dos Mares, 1998;
http://www.abc.se/~m10354/mar/portugue.htm;
http://www.abc.se/~m10354/mar/spa-prog.htm;
http://www.ceha-madeira.net/canarias/comercio1.html.
 
 
 

 

Informacao para citacao bibliografica:

Jorge Russo,
2003, A Arqueologia Nautica de Peniche: Index Page, World Wide Web, URL, http://nautarch.tamu.edu/shiplab/, Nautical Archaeology Program, Texas A&M University.